Bandas dão peso e suingue ao blues brasileiro

Com algumas especiarias em comum nareceita, mas com nítidas diferenças no resultado, a Prado BluesBand e a Irmandade do Blues lançam CDs em que equilibram versõesdistintas para temas tradicionais do blues, com composiçõespróprias e inéditas. Flávio Guimarães & Prado Blues Band(Chico Blues Records) e Good Feelings (Gravadora Eldorado) sãoálbuns dançantes, vibrantes, com a maioria das faixas cantadasem inglês (incluindo os temas autorais). Há ainda a conexão comoutra das bandas brasileiras mais populares do gênero: o BluesEtílicos. É de onde vem o gaitista que se uniu à Prado neste CD,o terceiro da banda, e o também gaitista, compositor e vocalistaVasco Faé, da Irmandade. Encerrada a identificação das coincidências, cada umpara o seu lado. A Irmandade (que faz show de lançamento no sábado,11, no Sesc Pompéia e volta ao Bourbon Street Music Club no dia7) sempre manteve o foco no blues, mas nunca foi "doutrinada" aseguir a tradição do gênero, como diz Faé. Em sua mistura háelementos de soul e funk-rock. "Mas sem fugir muito dacaracterística harmônica do blues, senão vira outra coisa",aponta Faé, também guitarrista. Dez anos se passaram entre o lançamento do primeiro CD eo segundo. Tocando projetos individuais paralelamente, osmúsicos se separaram em 1998 e voltaram a se reunir um ano emeio depois. Good Feelings reflete o resultado de muitasexperiências conservadas nesse meio tempo. Até composições quenão entraram no primeiro álbum, como a faixa-título e Fundo doPoço (a única com letra em português). Eles também foram buscarinspiração no "som meio esquecido" dos extintos The Meters."Eles nos influenciaram muito no uso da linguagem funkeada,tanto nos clássicos como no que a gente compôs dentro do blues",ressalta Faé. A tradicional Line?m, Southbound Train (Big BillBroonzy) e Mercedes Benz (Janis Joplin/McClure/Neuwirth) ganhamreleituras peculiares no CD. "Normalmente quem toca mais pesadoé menos elaborado. Uma característica que diferencia a Irmandadedo Blues é que a gente sabe misturar bem o peso com o requinte",define Fae.Requinte e suingue Requinte é o que não falta à parceria de FlávioGuimarães com a Prado Blues Band. Muito menos suingue. Voltadapara o jump blues alegre e dançante dos anos 50 e 60 - que temna figura do saxofonista Louis Jordan um dos expoentes maisrespeitáveis -, a Prado foi buscar temas do repertório de CountBasie (como a exemplar I May Be Wrong, que abre o CD), T.BoneWalker (T-Bone Shuffle), Fats Domino (Going Home Tomorrow) eoutros que já caíram em domínio público e surgem emparelhadoscom as novíssimas parcerias de Guimarães com o guitarrista IgorPrado. "A Prado foi a primeira banda do Brasil que realmentepesquisava e se dedicou a aprender a linguagem do bluestradicional", elogia Guimarães. "Se quiserem, eles também podemmostrar que sabem tocar outros estilos, mas preferem o original". O que mais faz diferença no estilo da banda é, além docontrabaixo acústico (mais seco que o elétrico), a maneira comoa caixa da bateria é tocada no jump blues, ao estilo das bigbands do jazz. "É mais criativo, a bateria com a caixa livre agemais enriquecendo o tema em vez de ser mero acompanhamento paramarcar o tempo."O gaitista diz que "já curtia muito esse estilo", mas não tinhatido oportunidade de tocá-lo. E assinala que muitos músicosbrasileiros absorveram o blues reciclado pelos ingleses, pelorock. "Então preferem cortar caminho indo direto a Eric Clapton,Rolling Stones e acham que não precisam ouvir os mais antigos. Éum equívoco. É como no choro: não dá pra tocar sem conhecerPixinguinha, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo." Guimarães conheceu a PBB três anos atrás por meio deChico Blues, amigo em comum deles e conhecido como o maiorcultor do blues no Brasil. "Notei que houve um grande saltoqualitativo do primeiro para o segundo CD da banda. Isso foi umpasso para a gente se articular e fazer shows", conta. O próximo para marcar o lançamento do CD, vai ser no dia 29 dentro doevento Noites de Jazz & Blues, no Sesc Consolação. Irmandade do Blues. Sesc Pompéia/Choperia (800 lug.). Rua Clélia 93, (11) 3871-7700. Quinta, 21 horas. R$ 4 a R$ 12

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.