Banda toca 24 horas para chegar ao Guinness

O rapaz da guitarra parecia chegado de uma batalha no Oriente Médio. Sentado, com olhar tenso, era a imagem da desolação. A mesma piedade dava do moço dos teclados. De olheiras tão profundas que pareciam óculos escuros, tocava cada música como quem era torturado. O vocalista cantava prostrado em uma cadeira. O baixista revirava os olhos próximo de um colapso nervoso. Foram assim os últimos momentos do maior show de que se tem notícia na história do rock. Os Impossíveis, quinteto formado por jovens da zona norte de São Paulo, subiram a um palco armado no Internacional Shopping Guarulhos às 19h do sábado para só saírem de lá às 19h10 do domingo. Mais de 400 músicas foram tocadas por intermináveis 24 horas e dez minutos. Só falta agora a homologação da marca pelos organizadores do Guinness Book. Os Impossíveis seguiram à risca todas as exigências para entrarem para o Livro dos Recordes, que deverá incluí-los em uma nova modalidade já que nenhum outro grupo jamais fez algo parecido. Embora o livro não tenha enviado um representante, os músicos gravaram o evento em VHS. Matérias jornalísticas também serão usadas para a comprovação do feito. As normas eram rígidas. Intervalos só puderam ser feitos de oito em oito horas de show e não deveriam ter mais do que 15 minutos. As músicas só podiam ser repetidas de quatro em quatro horas. Os músicos não podiam comer no palco ou ingerir bebidas que tirassem o sono. Os rapazes desistiram de tocar com sondas urinárias. E, também por isso, quase perderam o recorde. Quando já haviam tocado por 20 horas, às 15h de domingo, o baixista Serjão perdeu os sentidos por alguns segundos. Ajoelhou no palco mas, antes de cair, foi socorrido pela equipe de apoio e conseguiu voltar a tocar. Ontem, descansando em casa, contou o que aconteceu. "Foi muita vontade de fazer xixi." E não é brincadeira. O rapaz segurava a vontade de ir ao banheiro havia cinco horas. Chegou um momento que viu estrelas. "Mas a vibração do público fez a gente continuar." Boa parte da missão quase impossível foi acompanhada pela reportagem. A euforia que se viu na abertura foi, a cada hora, sendo minada pelo cansaço físico e psicológico. As pessoas que chegavam ao shopping se intrigavam. No início os músicos estavam visivelmente tensos, ansiosos para começar. Quarenta e cinco minutos antes do início, Alexandre Vanucci (vocalista), Serjão (baixista), Cassiano (baterista), Edson (guitarrista) e Almir (tecladista) ainda passavam o som no palco montado na praça de eventos do shopping. A movimentação da banda atraía os curiosos, a maioria sem saber o que iria acontecer dali a poucos instantes. "Jura que eles vão ficar aí até amanhã?", reagiu Debora Ioli, de 18 anos, freqüentadora assídua do local, ao saber que a banda tentava entrar para o Guinness. "Acho que vão conseguir, eles são jovens", disse em seguida, avisando que voltaria no domingo para ver se o vocalista ainda estaria cantando. Faltando vinte para as sete da noite, o quinteto foi ao camarim pela última vez antes de subir ao palco definitivamente. "Quero ir ao banheiro e tomar um copo d´água", confessou Alexandre, que estava confiante no trabalho feito pela fonoaudióloga Karina Beretz. "A voz vai agüentar, o coração eu não sei", disse, sem disfarçar a emoção. "Fizemos muitos exercícios de relaxamento e de preparação da prega vocal", explicou Karina, certa da vitória dos meninos. A nutricionista Denise Carreiro também era só confiança. "Ele vai tomar água de coco com gengibre para segurar a voz", avisou. Para manter os níveis de energia da banda, foram preparadas misturas líquidas especiais, que seriam ingeridas durante todo o período de show. Na madrugada as pessoas foram embora e os músicos chegaram a tocar para seis gatos pingados. "O pior momento foi quando vi o sol nascer pela vidraça do shopping. Pensei ´meu Deus, vou tocar até a noite chegar´", lembra o baterista Cassiano. Esgotados, todos já estavam sentados às 8h de domingo. E eram atendidos por massagistas mesmo durante as canções. Fernando Vaz Pereira, preparador físico, lembrou que teve trabalho. "Depois da primeira parada vieram muitos problemas físicos." E Denise, a nutricionista, resumiu. "Se fosse fácil não seria recorde."

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