Tiago Queiroz
Tiago Queiroz

Banda Soul da Paz une líderes religiosos para pregar a tolerância

Produzido por Kiko Zambianchi, grupo acaba de lançar álbum nas plataformas digitais com uma mensagem de aceitação às diferenças

Danilo Casaletti, Especial para o Estado

31 de julho de 2020 | 05h00

“Um muçulmano, um grande amigo meu, estendeu a mão ao nosso irmão judeu. Nosso irmão judeu, que não sabe dizer não, sempre que pode ajuda o nosso irmão cristão. E quem é crente, ajuda o pai de santo, amigo da gente”, diz a letra do reggae Um Ajuda o Outro, composto pelo sacerdote hare krishna (hinduísmo) S.G. Mahesvara Caitanya Das – ou apenas Mahesh. Mais do que palavras, os versos simbolizam o que integrantes da banda inter-religiosa Soul da Paz praticam: a convivência pacífica das diferentes crenças

A banda, que acaba de lançar nas plataformas digitais o álbum Soul da Paz, com 8 músicas, nasceu há 7 anos, em São Paulo, por iniciativa de Mahesh - neste sábado (1º), o grupo se apresenta numa live em sua página do Facebook. Desde 2006, ele participa e organiza eventos em defesa da liberdade religiosa. Nesses encontros, além de palestras, era de praxe haver apresentações de música ou leitura de poemas – algo, segundo o sacerdote, nem sempre interessante para todos. 

“Às vezes, os umbandistas tocavam atabaques, os hare krishnas faziam seu som, havia corais. Isso desagradava uma ala ou outra. Pensei que seria bom que cada um desses líderes participasse de uma banda, assim o público olharia de maneira igual para as apresentações, além de chamar mais atenção para o nosso trabalho”, conta. Masheh já era amigo do rabino Gilberto Ventura e dividiu com ele a ideia. Depois de conversar com o rabino, ligou  o rádio do carro - a emissora passava um especial dos Beatles, no qual o locutor disse: "Essa banda mudou a consciência de toda uma geração por meio da música". Mahesh tomou isso como um sinal. 

Assim, foi só convidar outros líderes. Passaram a integrar o grupo os católicos André Herklotz e Paulo Miranda, o budista Ricardo Camilo, o bispo anglicano Dom Flávio Irala, o umbandista Pai Torres, o hare krishna Bhakta João Rafael, o pastor Eliel Leonardo, o espírita kardecista Zen Leão, os metodistas Júlio D’Zambê e Débora D’Zambê e o espírita cristão Marcio Scialis.

“Eu vou muito a encontros inter-religiosos, mas não acredito em discursos. Muitos estão lá só para fazer propaganda. Em um deles, um líder evangélico me disse ‘você sabe que aqui só eu e você servimos a Deus’. Eu discordo. Todos estão em busca do divino e a banda traz isso para a prática”, diz o rabino Ventura, vocalista e letrista. Ele está à frente da Sinagoga Sem Fronteiras, no bairro do Pacaembu, que acolhe cristãos-novos que desejam retornar ao judaísmo e luta contra o antissemitismo.

Pai Torres, da umbanda, conta como recebeu a convocação para o grupo. “No começo, achei um pouco assustador, inusitado”, diz o percussionista. Umbandista há 15 anos, há 1 ano meio ele tem o próprio espaço, a Tenda de Umbanda Fé Esperança e Caridade Pai Xangô Mãe Oxum e Caboclo Rompe Mato, em Guarulhos, cidade da região metropolitana de São Paulo.

O pastor Eliel Leonardo, da Assembleia de Deus de Guarulhos, decidiu aceitar o convite para participar da banda depois de um episódio de intolerância religiosa virar notícia na época. Ao sair de um culto de candomblé, no Rio, uma menina de 11 anos foi agredida verbalmente por pessoas com Bíblias nas mãos, o que desagradou o pastor. “Fui no primeiro ensaio e fiquei até hoje”, diz ele, que é um dos vocalistas. Para Eliel, que estudou em seminário neopentecostal e trabalhou com o ex-jogador da seleção brasileira Jorginho em uma célula da igreja na Alemanha, a banda é uma “santa provocação”, e participar dela faz com que se aprimore na própria crença.

Sem cerimônia

A banda, que já fez inúmeras apresentações antes de chegar ao estúdio, não tem caráter ecumênico ou de sincretismo religioso, como faz questão de frisar Mahesh. “Não fazemos qualquer tipo de cerimônia em conjunto. Respeitamos quem é sincrético, mas, penso que o mais difícil é conviver com o diferente. No sincretismo, você destrói as diferenças, torna homogêneo, e, assim, fica mais fácil. O interessante é conviver com o diferente”, diz. 

“Não estamos juntando religiões. Estamos mostrando que podemos ser amigos e unidos em busca da paz, da amizade e da justiça social”, completa o rabino Gilberto Ventura. A ideia aparece na letra dos rocks Somos Todos Iguais e Sementes da Paz, de Mahesh. O primeiro versa sobre uma família em que cada um segue uma religião e todos convivem em paz; o segundo pede que cada um faça sua parte para um mundo melhor.

 

Na Soul da Paz também há contestação. O rap É Ki Pá, composto por Ventura, nasceu inspirado em um episódio de 2010, em que uma moradora de Higienópolis, bairro nobre da cidade, declarou que a nova estação de metrô na região atrairia “gente diferenciada” para lá. A culpa caiu para os judeus, tradicionais moradores do bairro, acusados de serem elitistas. A letra fala da unificação da cidade e cita uma viagem de metrô até o bairro de Heliópolis, um dos caminhos percorridos pelo rabino para ir a um de seus projetos sociais. “Eu sou anárquico, só gosto de rap. O profeta Jeremias era rapper. A maioria dos judeus não é elitista”, reforça.

Mas como se sentem os religiosos ao tocarem e cantarem músicas que, aos olhos da religião, podem ser profanas? “Não temos restrições musicais. Costumo dizer que a umbanda é um tiquinho de cada coisa. Na minha casa, cantamos pontos, mas também Canto das Três Raças (sucesso de Clara Nunes na década de 1970)”, diz Pai Torres. “As músicas são autorais e representam o que a banda defende, que é o respeito ao próximo. Assim como Jesus conversava com pessoas que não o aceitavam, eu também converso. Vão pensar que eu estou com o demônio? Sim, mas não ligo”, diz o pastor Eliel.

No estúdio

Com a ideia de produzir um álbum e com o processo de gravação – no fim de 2019 – já em andamento, os integrantes da Soul da Paz sentiram a necessidade de que um produtor gerenciasse os trabalhos. Foi então que, em um passeio pelo Shopping Higienópolis, em São Paulo, o rabino Ventura viu passar o músico Kiko Zambianchi (autor de sucessos como Eu Te Amo Você e Primeiros Erros). Não pensou das vezes: mesmo sem conhecê-lo, foi convidá-lo para participar do projeto.

“Eu pensei: que coisa louca! Vários religiosos, cada um com uma crença, fazendo música juntos. Resolvi aceitar. O rabino é uma figura agregadora, inteligente. Isso me motivou também”, diz Zambianchi, que se lembrou de sua adolescência, quando, aos 15 anos, teve síndrome do pânico. Sem um diagnóstico preciso para a doença nos anos 1970, ele se apegou na espiritualidade para tentar se curar. “Fui na igreja, na umbanda, no hare krishna. Tudo me ajudou. E estar com eles nesse projeto era uma oportunidade de relembrar essa minha busca.”

Zambianchi afirma que precisou ser um tanto quanto “bravo” quando assumiu a produção do álbum. “Eu disse, brincando, ‘sei que vocês são chefes em suas religiões, mas, aqui, não tocam nada e a religião não vai ajudar’”, conta. No mais, fez alguns ajustes, simplificou processos e ensaiou bastante com o pessoal. “Foi todo mundo melhorando. Antes, era um apanhado de música. Hoje, eles têm um som próprio”, elogia. Ele mesmo tocou em algumas faixas, além de chamar o amigo Bruno Gouveia, do Biquini Cavadão, para cantar na faixa The Band of Peace and Soul.

 

Do ambiente do estúdio, o músico só guarda boas recordações. “Sou testemunha que eles se entendem de verdade. Os papos também eram maravilhosos. Tirei muitas dúvidas sobre religião. Lembro quando o rabino explicou que a tradução da palavra usada para descrever a chegada de Deus ao Monte Sinai é ‘pousou’. Isso para mim, que sou interessado em extraterrestres, foi o máximo”, diz Zambianchi.

Por conta do trabalho com a Soul da Paz, Zambianchi voltou a frequentar, a convite de seus ‘comandados’, diferentes espaços religiosos. Afirma ter aprendido que a convivência entre as diferentes crenças é possível. Sobre o caminho para isso – no destaque, os líderes apontam os seus – o músico, que não professa nenhuma religião, é direto. “Se as pessoas acreditam tanto em um Deus, deixem que Ele julgue. No final das contas, todos estarão juntos, e o errado e o certo serão relativos.”

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