Banda MGMT volta ao País com novo álbum

Duo faz viagem psicodélica e mostra pretensão anticomercial

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

24 Setembro 2014 | 03h00

Space rock em branco e preto. Uma jam cósmica com moldura surrealista. Um mergulho no coração da antiga psicodelia de fantasias lunares. A saga viajandona do grupo MGMT desembarca no Brasil no dia 1.º de novembro como uma das atrações do Circuito Banco do Brasil (que tem ainda, no programa, os grupos Kings of Leon, Paramore, Linkin Park, Panic at the Disco!).

Eles vêm a bordo de MGMT (2013), o terceiro e mais recente álbum do grupo de Connecticut (na verdade, uma aglomeração de convidados em torno de dois caras, Ben Goldwasser e Andrew VanWyngarden). O disco é uma exacerbação do lado Flaming Lips da dupla, que caprichou na atmosfera retrô da Era de Ouro da ficção interplanetária (inclui até uma cover de Introspection, da banda psicodélica Faine Jade, dos anos 1960).

“Não sei se estamos ficando mais complexos. Acho que há um lado poppy ainda muito forte. Não diria que estejamos ficando mais maduros, mas é evidente que estamos crescendo como banda. Temos hoje muito mais autoconfiança e sabemos buscar um equilíbrio entre a seriedade e a brincadeira”, disse ao Estado, por telefone, o tecladista e compositor Ben Goldwasser. A banda veio ao Brasil para o Lollapalooza 2012, quando o festival estreou no País.

De fato, eles ainda não chegaram a um nível Sigur Rós de artesanato pop, mas estão evoluindo. Seu som é menos comercial hoje. Essa evolução já era sentida em 2010, quando lançaram Congratulations, disco tão divertido e inocente quanto o da estreia, mas sofisticado musicalmente. Também era umbilicalmente ligado à psicodelia e ao folk dos anos 60, entre Donovan e Small Faces. O falseto de Andrew sempre parece cortejar Syd Barrett.

Comparados agora a outros artistas da Nova Era do Ácido, como Tame Impala, Mercury Rev, Medicine, Pond, Secret Machines, Awolnation e The Black Angels, os rapazes do MGMT preferem dizer, no entanto, que sua maior fonte de inspiração não veio de nenhuma dessas referências. “Muita gente fala em Syd Barrett, mas acho que o que foi mais influente para a gente foi o punk rock. Honestamente, aquele espírito de liberdade foi mais importante do que a psicodelia”, afirma Goldwasser.

O tecladista, no entanto, diz que a banda não nega nenhum dos grandes hits que a projetaram em meados de 2008, como Time to Pretend, Kidz e Electric Feel. “Nós julgamos que temos muita sorte de termos aquelas canções como ponto de partida. Elas são ótimas, e é muito agradável sentir as reações dos fãs de diferentes locais quando as tocamos. Têm um poder de mobilização muito grande”, afirma o músico.

O show do MGMT é sempre uma grande festa visual, com telões e projeções, mas agora esse lado está até mais exacerbado. “Para nós, é sempre importante ter um apoio visual para cada canção para mostrar para o público. Isso geralmente já vem quando estamos compondo”, disse Andrew VanWyngarden.

Em 2008, tudo ainda era muito novo e deslumbrante para Wyngarden, então no meio do hype que os abraçava. Parecia um menino (e era, tinha uns 20 anos) encabeçando um retorno esfuziante à era dos falsetes e das plumas no palco, num instante em que predominava um glamour neo Boy George - influência visível na voz e na interpretação andróginas de Antony and the Johnsons ou na excentricidade de boate dos Scissor Sisters e CSS.

Tinham pouco mais de 20 anos, os dois. “Vamos fazer alguma música, ganhar algum dinheiro, descolar umas modelos para se tornarem nossas viúvas”, cantava, em Time to Pretend.

“Quando escrevemos essa música, eu e Ben estávamos na universidade, éramos muito irônicos. Nunca imaginávamos que estaríamos aqui hoje, tocando para tanta gente. Tem muita gente boa, vamos a muitas festas, não é todo mundo desse jeito no star system. Mas não queremos nos tornar clichês desse estilo de vida, não queremos morrer jovens”, disse, na época.

Goldwasser acrescentaria, anos depois: “Não vou dizer que hoje está tudo uma droga, e que bons eram os anos 60 e 70. No passado, as coisas também eram uma droga. O importante é que, assim como antes, hoje há um monte de bandas boas esperando para serem descobertas”.

No palco, Andrew era pura pose. Parece que tinha escapado de um brechó ou saído de lote de extras do filme Midnight Cowboy: usava calças de boca de sino, batas, bandanas de Jimi Hendrix, óculos ao estilo Peggy Guggenheim. Era como um retorno à Era de Aquarius. 

“Quando comecei, a ironia era muito forte, e a música se tornava quase uma piada. As pessoas esperavam sempre que o músico fosse também engraçado. Tentamos mudar um pouco isso, tornar a música mais séria. Certos assuntos são mais apaixonados, não pedem sarcasmo. Mas procuramos manter a leveza, o jeito de tocar no assunto sem tanta violência”, disse Andrew.

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