Lucas Santos
Lucas Santos

Banda Gorduratrans lança o segundo disco, ‘Paroxismos’, e mostra a força do novo rock

Disco 'Paroxismos' foi lançado pelo selo Balaclava Records

Pedro Antunes , O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2017 | 05h00

No repertório de covers de uma bandinha sem pretensões, além de gastar horas no estúdio, havia espaço para bandas indies, como Guided By Voices, Dinosaur Jr. e, eventualmente, até Los Hermanos. “Coisas que a gente ouvia com 15 anos”, relembra Luiz Felipe Marinho, baterista de 25 anos do Gorduratrans, grupo carioca que lança o segundo disco, chamado Paroxismos, e integra uma cena roqueira efervescente da capital fluminense, de uma geração pós-Los Hermanos. 

É curioso, mas o tempo segue seu curso implacável. O grupo de Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Rodrigo Barba e Bruno Medina chegou ao fim há dez anos – embora não pareça, já que, a cada par de anos, uma turnê de reunião circula o País e atrai multidões. Para jovens de pouco mais de 20 anos, eles são referências de um tempo passado, assim como as bandas dos anos 1980 foram para a geração da década seguinte. 

O Gorduratrans, de certa forma, é fruto da calmaria após a onda “hermânica”. Depois da explosão de Camelo e companhia, um incontável número de grupos surgiu na mesma estética musical. Por algum tempo, o próprio descompromisso foi rejeitado também e ninguém queria soar “Los Hermanos demais”. A onda bateu, passou e foi. O que se vê surgir, agora, não passa mais pelas barbas longas do quarteto – não diretamente, pelo menos. 

LEIA MAIS: Gorduratrans faz um faixa a faixa do novo disco no blog Outra Coisa.

Tal qual o caso do trio Ventre (leia mais aqui), o Gorduratrans é fruto do mais puro e atual faça-você-mesmo. Marinho, junto de Felipe Aguiar, o vocalista e guitarrista, se fechou no seu quarto, na Baixada Fluminense, para criar suas próprias canções. Não queriam mais saber de versões de canções dos outros. “Sei que é clichê”, diz Marinho, “mas tínhamos um monte de sentimentos presos conosco. Sentíamos a necessidade de colocar todos eles para fora de uma só vez.” 

Por dois meses, a dupla se dedicou ao trabalho de estreia da Gorduratrans. O disco, lançado em 2015, trazia o título de Repertório Infindável de Dolorosas Piadas, um verso de uma canção do Ludovic, banda paulista de rock bastante visceral dos anos 2000 – esta, sim, uma referência clara para a banda, principalmente na entrega emocional de cada música e nos longos títulos para suas músicas. Carro-chefe da estreia foi Você Não Sabe Quantas Horas Eu Passei Olhando Pra Você, música cujo vídeo foi assistido mais de 180 mil vezes no YouTube, um número elogiável para uma banda criada por dois garotos de 22 e 23 anos, gravada no quarto de um deles, que sequer tem um kit de bateria completo em casa. 

Com a melancolia dos versos, com vocais escondidos por uma bateria esmurrada com gosto e uma guitarra com o volume acima do normal, o Gorduratrans encontrou seu filão. É um público jovem, tal qual os garotos, com o desejo de ouvir músicas sobre sentimentos confusos, como solidão, desamor, rejeição e, principalmente, sobre um desencontro com o mundo ao redor. Sentimentos assim são embalados por noise e shoegaze, subgêneros nascidos na virada das décadas de 1980 para 1990, nos quais as guitarras distorcidas estão em volume tão alto que é difícil ouvir o que canta o vocalista, como bem já fizeram as bandas inglesas My Bloody Valentine, Slowdive e The Jesus and Mary Chain. 

Paroxismos saiu pelo selo indie Balaclava Records e aponta para uma direção semelhante, porém mais madura. “Acho que é um disco ainda menos pop do que o anterior”, diz Marinho. Ainda é um álbum que deixa um zumbido no ouvido ao fim da última música – e são nove –, e seus versos, extremamente pessoais, mantêm a capacidade de funcionar como um abraço nos corações mais desesperados. “É um alívio absurdo colocar essas coisas para fora”, conclui. 

GORDURATRANS

Breve. Rua Clélia, 470, Pompeia. Dia 22 (sáb.), a partir das 16h.  

R$ 30 (R$ 25, antecipado).  

Abertura: El Toro Fuerte (MG) 

 

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