Felipe Gabriel/ Red Bull Content Pool
Felipe Gabriel/ Red Bull Content Pool

Banda Carne Doce lança segundo disco e escancara protagonismo feminino da voz de Salma Jô

Álbum 'Princesa' já está disponível em

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

06 de setembro de 2016 | 05h00

“É muito difícil trabalhar com a Salma.” Do outro lado da linha, em Goiânia, Macloys Aquino, guitarrista da banda Carne Doce, diverte-se com a própria constatação ao falar de Salma Jô, companheira com quem ele divide a casa, a vida as composições do grupo. “Ela está rindo aqui do meu lado porque sabe que é verdade”, ele completa e é possível ouvir a risada marcante da vocalista da trupe de Goiânia que, depois de um elogiado primeiro disco, se arrisca mais – e brilha justamente por deixar Salma ainda mais à vontade para cantar a respeito de questões que lhe são tão próprias. 

Assim nasceu Princesa, um disco que sucede Carne Doce, álbum de 2014 que colocou Mac, como ele é chamado, Salma, João Victor Santana (guitarra e sintetizador), Ricardo Machado (bateria) e Aderson Maia (baixo), no mapa. E o Carne Doce ocupa um curioso ponto na intersecção musical que ocorre naquela cidade, sem pertencer a nenhuma das estéticas sonoras pelas quais Goiânia é conhecida – ou seja, esqueça o sertanejo, a trupe adepta da psicodelia do Boogarins e o stoner rock de Hellbenders e companhia. Mac e Salma traçam sua estética muito própria. “Não acho que somos uma banda de rock, embora entenda que todos nós venhamos dessa escola roqueira.” 

Princesa é, prioritariamente, um disco no qual Salma desabrocha seu eu lírico de compositora. E os quatro garotos da banda se encaixam como peças de um relógio. “Tínhamos dois meses de banda, quando lançamos o primeiro disco”, relembra Mac, que desde aquela época fazia ele próprio a divulgação do grupo ao enviar links com os áudios de Carne Doce, o álbum, para jornalistas. “Hoje, somos quatro caras com dois anos tocando juntos. E, em 2015, nos dedicamos muito a tocar. E a Salma amadureceu como compositora e letrista”, avalia. 

Salma se entrega em Princesa de forma mais visceral do que mostrou em Carne Doce. E ela coloca ali um protagonismo feminino que se faz necessário e é bem-vindo. O primeiro clipe para divulgar o disco, da música Artemísia, ela fala abertamente sobre o aborto – “não vai nascer porque eu não quero”, diz o primeiro verso da canção. A temática se mantém em grande parte das faixas. “Acho que Artemísia fez as pessoas pensarem mais sobre essa temática feminina no disco”, avalia Salma, que assumiu o telefone depois de Mac. “Entendo que esse é o momento para se falar sobre isso. Outras mulheres estão falando, sobre as suas relações, sobre o machismo, sobre as relações com a família, com os namorados. Tem existido um estímulo grande para essa discussão.” 

Gravado ao longo do mês de junho, no Red Bull Station, em São Paulo, Princesa foi precedido por seis meses de composição intensa na casa onde moram Mac e Salma. Ele virava noites trancafiado no estúdio, criando as bases para uma das 11 canções do disco. Salma refugiava-se em uma só para ela, com caneta em mãos, pronta para rabiscar os cadernos com as sugestões de versos. É nessa parte do processo no qual Mac precisa convencer Salma a mostrar suas composições. “Ela é muito autocrítica”, ele diz. “Talvez eu seja um pouquinho”, ela concorda, tímida. “Mas estou melhorando.” É o caso de Amiga,  faixa  escrita por Salma num arrombo de solidão noturna – Mac estava fora. “Chorei escrevendo”, ela conta. “Quando Mac chegou, mostrei na hora. E ele chorou também.” 

CRÍTICA: Versos ora doces, ora azedos, conduzem álbum 

“O que a gente está fazendo nesse pedaço, eu não estou entendendo?”, Salma Jô, vocalista do Carne Doce, pergunta ao microfone. “São dez minutos de fritação?” Ela ri e a guitarra – de Macloys Aquino ou João Victor Santana, difícil distinguir – continua a dançar mais um pouco. É o momento mais “fritado” e o mais experimental que o Carne Doce se permitiu em Princesa, o segundo disco dos goianos. É também quando o protagonismo fica todo nos outros integrantes da banda, Mac, João Victor, Ricardo Machado (bateria) e Aderson Maia (baixo). No restante das faixas, por mais longa que alguma seja (e há quatro com mais de 5 minutos de duração), a voz de Salma se esparrama e impregna. Gruda e reverbera nos ouvidos até durante algumas das longas sessões instrumentais de transição na qual Mac e companhia mostram a evolução e o virtuosismo desde a estreia deles. 

Princesa escancara a questão feminina de dentro de Salma em versos ora doces, ora ácidos, feitos para cutucar e castigar. Mais que isso, os versos, até aqueles de amor, evidenciam um eu lírico solitário e angustiado pela criação artística e pela vida. Humano e, por isso, sensível, louco e desesperado. 

Ouça 'Princesa':

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