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Banda Belle and Sebastian anuncia nova turnê no País

Grupo fala sobre disco 'Girls in Peacetime Like to Dance'

Entrevista com

Belle and Sebastian

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

07 Janeiro 2015 | 03h00

Banhado dos tons do synthpop e levemente funkeado, o nono álbum de estúdio do Belle and Sebastian, Girls in Peacetime Like to Dance, chega às lojas no próximo dia 19 (no Brasil, é lançamento da Lab344). Vem embebido numa atmosfera mais norte-americana: foi gravado em Atlanta com o produtor Ben H. Allen, que trabalhou com Animal Collective e Cee-Lo Green.

Liderada por Stuart Murdoch, de 46 anos (o único deles que não vive mais em Glasgow, mas em Los Angeles), a banda teve um papel preponderante no espraiamento de um tipo de pop music atmosférica e com tom levemente escapista a partir de 1996, com o disco Tigermilk. Que outro grupo pop teria coragem de fazer uma canção fofa sobre uma poetisa tão radical quanto Sylvia Plath? Belle and Sebastian.

O som deles influenciou inúmeras bandas de lá para cá. Murdoch foi diagnosticado com Síndrome de Fadiga Crônica e pelo menos uma das novas canções tem um coté autobiográfico tratando desse problema, Nobody’s Empire. Sua parceira, a cantora e multi-instrumentista Sarah Martin, falou ao Estado por telefone. Ela disse que uma das novas canções da banda, Perfect Couples, é inspirada diretamente na Tropicália.

 

Sarah, vocês estão em turnê nesse momento?

Estamos em férias, todo mundo em suas casas. Voltamos a excursionar agora em janeiro. Acho que vamos regressar ao Brasil ainda na primeira metade deste ano, só não consigo lembrar o mês. Mas acho que não vai demorar muito.

Lembra da última vez que esteve aqui no Brasil?

Sim. Foi em 2010. Tocamos em São Paulo no Via Funchal. O show no Rio foi particularmente bacana.

O título do seu novo disco remete a Cindy Lauper, Girls Just Wanna Have Fun, um clássico dos anos 1980.

Totalmente (risos). Mas não há nenhuma conexão. Embora eu ache que não seria uma coisa ruim haver uma conexão, é um belo disco aquele.

É bastante pop. Como você definiria esse novo trabalho de vocês?

É muito pop também. É definitivamente o disco que nós estávamos pensando em fazer. Um álbum mais forte, marcante, com uma pegada de revisão pessoal do Stuart, que é quem escreve a maioria das letras. Todos colaboramos em tudo, mas, quando chega a hora das letras, ele sempre nos deixa para trás, tem uma visão muito focada e profunda das coisas, é natural que ele seja o compositor.

Ouvi que Stuart (Murdoch, líder da banda) ficou doente dias atrás e teve de cancelar entrevistas. É verdade?

Ele ficou doente em Paris, alguns dias atrás. Mas está bem melhor agora.

A primeira vez que vocês vieram ao Brasil foi em 2001. Tem um longo tempo desde aquela primeira experiência, no País, e algumas pessoas deixaram a banda desde então, como Isobel Campbell. Há um desgaste grande?

É como se fosse uma outra família. Estamos sempre em ônibus e aviões juntos, é como se fosse uma vida dupla. Assim como algumas coisas vão ficando desgastadas, outras se aprofundam, os laços ficam mais fortes.

O plebiscito na Escócia sobre permanecer ou não como parte do Reino Unido afetou vocês? Dividiu ou uniu?

A maior parte de nós votou pela independência da Escócia. O que eu acho é que o resultado foi bastante surpreendente. Não é que sejamos nacionalistas, mas em alguma medida a gente tem simpatia pelas ideias socialistas, e nos seduzia sair de um bloco de características imperialistas. Portanto, o resultado foi um pouco frustrante para a gente. Mas não tenho sentido uma divisão profunda, não em Glasgow. Acho que o movimento pela independência não morreu, talvez venha a se manifestar de novo no futuro.

Você sempre foi a grande conexão com a música brasileira, sempre cantou as canções dos Mutantes nos shows.

É verdade. Nós sempre gostamos dos Mutantes, do movimento da Tropicália. Nós aprendemos a tocar Baby e A Minha Menina, a primeira que foi um grande sucesso de Gal Costa. E cantamos nas duas turnês. E há uma música no novo disco que se chama Perfect Couples, que Steve compôs, que é muito ligada à Tropicália. Nós, tipo, sentimos que cairia bem no disco inicial da Tropicália.

Em que medida eles foram importantes, em sua opinião?

É duro dizer, porque havia um contexto político também naquele movimento. Não tendo vivido no Brasil, não sabemos em que medida a música se relacionava com a realidade em seu país, e sua importância pode ser ainda maior do ponto de vista social e comportamental. Acho que qualquer coisa que tenha conseguido atravessar tantas fronteiras e durante tanto tempo tem valor em si. Manter-se vivo ainda quase 40 anos depois é magnífico, não há importância maior que essa. Era algo que estava muito à frente do seu tempo.

Que tipo de música você tem ouvido por esses dias? Há alguma banda que tenha surpreendido você?

Os discos que eu tenho ouvido ultimamente não são realmente novos. O último disco da PJ Harvey, achei fantástico. Também adorei o último trabalho de Caribou, com quem nos apresentamos algumas vezes nos festivais europeus, em Paris e também em Tóquio. Tem também uma banda que eu adoro que é The War on Drugs, da Filadélfia. 

Você consegue avaliar o tamanho da influência do Belle and Sebastian após quase 20 anos de carreira?

Viemos numa época em que a música pop era realmente muito grande no Reino Unido. Muita coisa era influente, isso não é tão claro. Mas é óbvio que, de vez em quando, a gente escuta umas bandas que usam uns teclados, baixo e bateria de uma forma parecida com a gente. Mas bandas sempre têm sua personalidade, mesmo usando elementos parecidos. Não creio que hajam tantos filhotes assim do Belle and Sebastian.

Você ouviu sobre a morte de Joe Cocker?

Acabo de ler a respeito (a entrevista foi feita no dia da morte do cantor, em 22 de dezembro). Para ser honesta, nunca fomos grandes fãs dele, não tenho grande referência. Era muito admirado, mas o que fazia não tem muito a ver com nosso som.

Grupo começou com um desafio de faculdade

O grupo Belle and Sebastian foi formado em 1996 em um bar da cidade de Glasgow, na Escócia, mesmo berço do Franz Ferdinand e do Teenage Fanclub.

Os estudantes Stuart Murdoch e Stuart David recrutaram outros cinco amigos para gravar um disco de vinil que, na verdade, seria uma espécie de trabalho escolar. Batizaram o grupo com um nome tirado de um romance da francesa Cécile Aubry, Belle and Sebastian.

Mas as mil cópias de Tigermilk, sua pequena travessura universitária, viraram sensação na Inglaterra. A modesta gravadora escocesa Jeepster apostou no sucesso do septeto, e relançou na época o disco no formato de CD.

Cinco anos depois, a banda, já bem estruturada, desembarcaria no Brasil para seu primeiro show no TIM Festival, que foi uma catarse. A pose de antistars ajudou muito. Convocavam fãs para cantar músicas consigo no palco, dançavam em bloco com gente içada da plateia, uma farra.

Pegando temas solenes, como o manifesto comunista, transformavam tudo em melodias e harmonias floridas - caso da canção Marx and Engels.

A atmosfera flamboyant, com bolas de plástico que são arremessadas à plateia, virou marca registrada de um certo nicho da pop music. Peter, Bjorn and John, Looper, Kings of Convenience, Loney Dear, Hot Chip: a fofurice virou regra em muitos fronts da cena musical.

En 2002, lançaram a trilha Storytelling (Trama), para um episódio do filme homônimo do cineasta Todd Solondz, Histórias Reais. Mick Cooke, baixista e trompetista da banda, dizia, nas notas de encarte do disco, que Todd Solondz comentou que queria fazer conexão de suas cenas com uma representação sonora do tipo “uma dona de casa mexendo uma panela de sopa de caixinha”. Por isso os procurou.

“É uma imagem de uma propaganda de televisão dos anos 1960. Nossa tentativa foi de representar de maneira sonora todo um universo dos comerciais de televisão dos anos 60. Não como algo da pop art, mas como um jingle, uma imagem popular. Buscamos mais um sentimento do que uma imagem, na verdade”, explicou Cooke na época.

Essa explicação de Cooke parece perpassar toda a estética do Belle and Sebastian: no limiar entre linguagens de jingles e reinterpretações coloridas de canções sérias (como The Boy With the Thorn in His Side, dos Smiths), eles pavimentaram uma nova estrada para o pop, que hoje já virou uma highway.

Álbum contém ousadias, mas a fórmula segue igual

As 12 canções de Girls in Peacetime Want to Dance, novo álbum do Belle and Sebastian (Lab344) mantêm a atmosfera sonora retrô, mas agora se banham também em alguma eletricidade moderna, como na canção The Party Line, de baixo funky mais marcado e eletrônica.

Essa “ousadia” levou alguns fãs a acusarem a banda de embarcarem numa onda de pop genérico, no mesmo caminho de Arcade Fire e Decemberists.

Exagero. O resto da fórmula permanece igual, um clima de “flower guerrilla” que já comparece na primeira música, Nobody’s Empire. Corais klezmer e sintetizadores doces são a tônica.

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