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Hannah Gonçalves
Hannah Gonçalves

Banda amazonense usa cosmologia indígena para produzir

Depois de aprender com povos indígenas do Alto Rio Negro, antropólogo forma banda com músicas que misturam cultura tradicional e contemporânea

Jullie Pereira, Especial para o Estadão

19 de julho de 2021 | 15h00

MANAUS - Depois de passar alguns meses em trabalho de campo no município de São Gabriel da Cachoeira, cidade com a maior população indígena do País, o antropólogo e músico Agenor Vasconcelos, de 33 anos, apresentou sua tese de doutorado e resolveu fazer dela o que mais lhe causava paixão na vida: a música. 



Junto com outros dois parceiros, Agostinho Guerreiro e Leonardo Moraes, o cantor e antropólogo começou a fazer suas composições baseando ritmos, letras e referências na cultura musical indígena que conheceu no Alto Rio Negro, com os povos do noroeste amazônico. O trio então formou o grupo Agenor, Agostinho e Léo.

Desde 2019 eles estão lançando EP 's trabalhando os conceitos e no dia 30 de julho devem lançar o primeiro disco. “A gente conta uma história que é milenar e pensa na música indígena em outra ótica, não necessariamente preso naquele ei,ei, rá, rá. Nós vamos destruindo esses estereótipos”, diz Agenor.

Os arranjos das músicas são feitos usando esses conhecimentos tradicionais, mas também do pop, do rock e do reggae. As referências envolvem indígenas de São Gabriel da Cachoeira, como Jack da Guitarra e Charles Akuto, que inseriram na música o teclado e a guitarra.

Em 2016, durante sua pesquisa, Agenor viajou com os indígenas e produziu um CD de músicas Kuximawara, com letras em português e outras em língua Tukano. Foram eles que ensinaram ao Agenor que os instrumentos não são meros objetos, mas possuem presença.

É costume que os instrumentos sejam, inclusive, benzidos. Eles são levados aos pajés, que rezam e defumam com tabaco, para sincronizar as forças dos dois seres: do instrumento e seu dono.

 


O guitarrista da banda, Agostinho Guerreiro, de 44 anos, conta que na adolescência sempre participou de rodas de conversas com sua avó, Fausta Guerreiro, que era neta de indígenas do Alto Paraíso, em Rondônia, e passava suas crenças aos familiares, mostrando as simbologias.

A junção desses signos em que povos tradicionais e contemporâneos se juntam é o que a música da banda Agenor, Agostinho e Léo pretende mostrar. “Os arranjos são coisas que a gente vive, que a gente viveu da música contemporânea, das músicas antigas, dos cantos indígenas e de como a gente faz essa leitura”, diz o guitarrista.



 

Jurupary e a cosmologia indígena

Agenor explica que, para os povos indígenas do Alto Rio Negro, o mundo não surgiu com o big bang ou com Deus criando o universo em sete dias. Para eles, tudo o que existia estava dentro de uma cobra grande. Ela começou a vagar pelos rios da Amazônia, desovando as populações indígenas e ribeirinhas, que foram evoluindo. Essa é a cosmologia indígena naquela região. 

O primeiro humano foi o indígena Jurupary, ele era conhecedor de toda a natureza, de todos os cantos da floresta e sabia fazer festa. A lenda conta que seu corpo era feito por instrumentos, seus braços eram flautas kariçu e suas pernas flautas jurupary. Foi ele quem ensinou o que era música aos indígenas. Ele foi chamado de demônio por missionários católicos, que tratavam a cultura indígena como sendo ruim e perigosa.



O famoso botânico João Barbosa Rodrigues, que foi diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e pesquisador da Amazônia, comparou Jurupary ao vale de Anhangabaú, em São Paulo. Na tradução do tupi- guarani, Anhangabaú significa “rios do malefício do diabo”.

“O Jurupary ensina esses conhecimentos que foram fundamentais para o começo da humanidade, conforme a cosmologia indígena, e a música é um desses conceitos, é um dos principais conceitos”, explica Vasconcelos.

Na primeira faixa do novo disco, a banda fala sobre um descendente punk do Jurupary, o Juruparylson, que nasceu 350 gerações depois, em Manaus. Assim como seus descendentes, ele também gosta de festas. Em contexto urbano, trabalha em uma fábrica no Distrito Industrial, bairro que abriga as empresas da Zona Franca de Manaus.

A faixa foi lançada como um “esquenta” para o disco e também tem sua versão em videoclipe. O disco deve seguir trabalhando conceitos indígenas e contando histórias dos povos. “Essa filosofia indígena permeia todo o disco, ela é como a cobra grande, ela vai serpenteando todas as músicas”, diz Vasconcelos. 

 

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