Ariel Martini/Bananada
Ariel Martini/Bananada

Bananada 2019: Pitty, Black Alien, Tulipa Ruiz e João Donato colorem Goiânia

Festival teve dias de programação intensa, estreias de artistas e turnês no Planalto Central e muito mais; saiba o que rolou no fim de semana do evento

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

19 de agosto de 2019 | 17h30

GOIÂNIA — Não é um ano dos mais fáceis para festivais de música independente no Brasil, mas o Bananada concluiu com méritos sua 21.ª edição, neste fim de semana, em Goiânia. Foram três dias de shows com curadoria cuidadosa e a presença de 21 mil pessoas no estacionamento do Passeio das Águas Shopping. O próximo Bananada também está confirmado, já tem data (17 a 23 de agosto de 2020) e os ingressos estão à venda.

Mas ainda em 2019, o domingo viu a maior concentração de público do festival em shows de duas mulheres em momentos diferentes da carreira. Pitty, aos 40, apresentou pela primeira vez na cidade a turnê do disco Matriz (2019), mas um setlist tão recheado de sucessos apenas atesta que ela é dona de uma trajetória mais do que consistente no pop rock nacional. E Duda Beat, aos 31, mas no início de uma carreira que ganhou dimensão nacional em 2018, com o bem produzido Sinto Muito.

Em termos de escalação, o festival esse ano poderia ser separado assim: sexta, o “dia do rap”, com um performático Edgar, um brilhante Black Alien e um apagado Baco Exu do Blues. Sábado, foi o “dia pop”: Felipe Cordeiro, Tulipa Ruiz e João Donato, Luiza Lian, Criolo, Bixiga 70 e Teto Preto, todos muito diferentes entre si, todos com apresentações relevantes no contexto do festival. Domingo, para celebrar uma espécie de marca de Goiânia no cenário indie nacional, a psicodelia agiu como um sutil fio condutor: a banda Paus, de Portugal, Terno Rei, e especialmente o Boogarins, jogando em casa.

Se a expressão “festival no estacionamento do shopping” parece pouco atraente, o Bananada tem em si uma aura indie tão potente que o espaço ganha certo charme: a aparência de galpões lembra algumas festas eletrônicas do underground paulistano, laboratórios exemplares da comunhão entre cultura e diversão. É preciso dizer, antes de entrar nos destaques show a show, que o Bananada só resolveu o problema das filas (enormes) no último dia. E que o festival tem uma programação estendida, que começou na segunda-feira, 12, com shows e festas em diversos espaços de Goiânia.

Sexta-feira: Baco Exu do Blues, Black Alien, Jaloo

O jovem rapper Baco Exu do Blues encerrou a primeira noite do Bananada 2019 com um de seus shows mais fracos até aqui. Bluesman, o disco de 2018 do qual ele tira a maior parte do setlist, puxa as coisas para um clima mais intisma que às vezes funciona (Flamingos, com o duo Tuyo, é cantada do começo ao fim por todos os presentes) e que às vezes gera uma distração (Girassóis de Van Gogh).

Mesmo nos hits mais conhecidos, como Te Amo Disgraça e Abre Caminho, o delivery de Baco tem sido inconsistente com a própria qualidade das músicas. 

Por outro lado, a lírica bereta de Gustavo Black Alien está mais afiada do que nunca – é injusto não reconhecer que a maturidade caiu ao rapper, bem como em (ainda) raros casos de músicos do hip hop. Hello Hell: Abaixo de Zero é um dos melhores discos de 2019 e o músico leva o show com uma dedicação profissional exemplar.

Com as letras de Hello Hell (que passam por amores mas acabam circulando o tema da sobriedade), Black Alien mostra a si mesmo como uma pessoa vulnerável: espécie de tendência de rappers da idade dele (47) cuja realização mais bem acabada talvez seja 4:44, disco do Jay-Z de 2017. A dedicação palpável do show e a volta por cima, com um disco produzido com tanto capricho por Papatinho, recolocam Black Alien num lugar a que ele deve estar acostumado: os grandes do rap nacional.

O cantor e produtor paraense Jaloo não lança um disco há quatro anos, mas sua presença em diversos festivais (do Bananada ao Rock in Rio) e mesmo na internet chama a atenção. “Aqui é o meu Coachella”, brinca. E se o show começa morno, é a carisma do artista no palco que segura a apresentação de pé — até que ele chama MC Tha, uma das revelações da música pop brasileira de 2019, cantora de potencial enorme (eles cantam Céu Azul, de 2018, mas ela também faz, sozinha, Abram os Caminhos, e que bela música).

Depois de homenagear o produtor Carlos Eduardo Miranda (1962-2018), padrinho tanto do festival goiano quanto entusiasta de Jaloo no começo de sua carreira, o cantor anunciou para seis de setembro um novo disco, com um estrelado elenco de convidadas: Karol Conka, Dona Onete, Gaby Amarantos e Céu.

Sábado: Tulipa Ruiz e João Donato, Criolo, Luiza Lian, Jadsa

É impressionante como João Donato, aos 85 anos completados no palco, no sábado, 17, consegue conversar com a geração mais nova – um exemplo é o disco com o filho Donatinho, indicado ao Grammy Latino, de 2017, mas agora também com a nova parceria com Tulipa Ruiz. O show em Goiânia foi o primeiro da mini turnê os dois farão com a banda Pipoco das Galáxias (Gustavo Ruiz, Samuel Fraga, Gabriel Mayall) e o trombonista do Bixiga 70, Doug Bone.

A parceria (que começou no Rock in Rio 2011) rendeu um compacto, com duas canções inéditas, já disponível também nas plataformas digitais. O show, de caráter intimista, tem no setlist canções como Patumbalacundê e Flor de Maracujá, de momentos diversos da carreira de Donato, e Efêmera e Prumo, de Tulipa, mas abre com uma versão inspirada de A Bruxa de Mentira, de Gil.

Já veterano do Bananada, Criolo apresentou também no sábado uma versão do seu show de rap, com canções do Nó na Orelha (2011) e Convoque Seu Buda (2015), mas é curioso notar como a produção house da faixa Etérea (2017) influencia os arranjos da apresentação. Criolo parece também ter se despido de uma marca messiânica que caracterizava seus shows.

Aliada de uma presença de palco fora do comum e um desenho cenográfico criativo, Luiza Lian mistura no show do seu Azul Moderno (2018) explorações brasileiras com beats bem produzidos e uma voz que parece mais treinada do que sua pouca idade deixaria prever. Até o trap aparece nas produções executadas ao vivo no palco pelo produtor Charlie Tixier.

Uma das boas surpresas do festival foi a apresentação da cantora e compositora Jadsa, que deve lançar seu primeiro disco pelo selo Balaclava Records ainda este ano. A impressão que fica do show é de um rock pop com elementos minimalistas que nos momentos mais inspirados lembra St. Vincent, e por outro lado um som também encharcado de Tropicália, mas com todos os plugs do amplificador virados para cima.

Domingo: Pitty, Duda Beat, Metá Metá, Boogarins, Terno Rei, Paus

O domingo começou a esquentar com a apresentação da banda portuguesa Paus. O grupo se define como “genderqueer”: “na medida em que recusamos essa fixação identitária musical”. Porque a apresentação passeia por ritmos diversos com bateria eletrônica e sintetizador — que conseguem aproximar o som do rock and roll ao mesmo tempo que mantém opções em aberto, da psicodelia (numa participação de Dinho, do Boogarins) ao soul funk de elementos modernos.

No palco menor, o Tropical Transforma, o Terno Rei apresentou o clima indie mais contemplativo do disco Violeta (2019), que não esconde uma certa breguice à la Engenheiros do Hawaii — é hora de reavaliar, positivamente, o legado da banda de Humberto Gessinger.

Jogando em casa, o Boogarins explorou as canções do novo disco Sombrou Dúvida – no primeiro show em Goiânia desde o lançamento e o primeiro no Brasil pós turnê pela Europa. O tom mais reflexivo das músicas do trabalho mais recente entram em conflito com a jovem guarda psicodélica dos primeiros sucessos da banda, como Doce, mas é desse tipo de fricção que as grandes bandas são feitas.

Como o Metá Metá, que também se apresentou no domingo. O fusion da brasilidade vital de Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França com o jazz cria um som violentamente único no mundo, e é um prazer constatar que o furacão proveniente do palco se encontra com a plateia, que vai de um estado hipnótico para uma roda punk no intervalo de duas canções.

A grande headliner do Bananada 2019, porém, era Pitty. Pitty tem um tipo de estrela que nasce a cada geração, e o show passeia pela carreira que tem no rock and roll uma fundação sólida — mas que em momentos do disco novo vai buscar apoio no reggae e nos ritmos baianos. E mesmo numa música romântica como Motor, do Maglore (gravada também por Gal Costa), a sua entrega é um mapa da música pop brasileira dos últimos 20 anos.

Na turnê do Matriz, seu trabalho mais recente, em algum momento ela saca um violão e faz  uma versão de Teto de Vidro (“quero que vocês voltem comigo para o meu quartinho de adolescente em Salvador”), e também revisita o projeto paralelo Agridoce. 

Mesmo com as músicas novas funcionando bem (Roda, parceria com o BaianaSystem, é hit) continua sendo de arrepiar quando Pitty deixa o público cantar à capella músicas como Me Adora e Equalize. Um encerramento potente para um festival intenso.

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