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Ballet Stagium faz tributo a Ary Barroso

Cia. revisita vida e obra do compositor de 'Aquarela do Brasil'

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

02 Outubro 2015 | 03h00

A valorização da cultura brasileira é um dos eixos fortes da filosofia da Cia. Ballet Stagium, fundada, em plena ditadura militar, em 1971, pelo casal de bailarinos Marika Gidali e Décio Otero. Trata-se da primeira companhia de dança nacional a usar trilhas sonoras de MPB, de Chico Buarque a Luiz Gonzaga, passando por Pixinguinha, Cartola, entre outros. No repertório do Stagium, estão também espetáculos que fazem incursão por movimentos artísticos relevantes, como o modernismo brasileiro em A Semana Noventa@Vinteedois, e o dadaísmo, em Figuras e Vozes. 

Agora, em O Canto da Minha Terra, que estreia nesta sexta, 2, até 11, no Sesc Consolação, o grupo mira seu foco na trajetória de Ary Barroso (1903-1964), em espetáculo inédito dirigido por Marika, com idealização e coreografia de Décio. Um dos grandes compositores da música brasileira, Ary é mineiro de Ubá assim como Décio. E o coreógrafo queria contar a história de seu conterrâneo. Nessa homenagem, a dança contemporânea se alia às antigas músicas de Ary, como a emblemática Aquarela do Brasil, Na Batucada da Vida, Folha Morta, Camisa Amarela, Os Quindins de Iaiá, No Rancho Fundo, Três Lágrimas, entre outras. 

“Para mim, essas canções não são novidade, todas são da minha infância”, conta Décio, que, apesar de há muito tempo viver em ambiente urbano e viajar o mundo, diz que ainda carrega suas raízes do interior, da roça. “Cada música tem um significado especial na vida de Ary Barroso”, diz Marika.

Nesse encontro da dança e da música, a palavra também tem papel importante, nos textos que emergem ao longo da coreografia e que, segundo Décio, criam o “elo de ligação do espetáculo”. Para se juntar à confraria ubaense, e dar sua contribuição à fala e ao canto, as irmãs Célia e Celma foram convidadas a participar. 

Cantoras nascidas também em Ubá, elas entram em cena logo no início da apresentação, para falar sobre a vida de Ary Barroso e voltam depois para cantar o ‘hino’ No Rancho Fundo. A presença delas remete ao próprio compositor. O pai das gêmeas era amigo pessoal de Ary e elas são pesquisadoras do autor. “Nosso contato começou quando elas foram assistir a um espetáculo da companhia e eu disse para elas que ainda iríamos fazer algum projeto juntos”, lembra Décio. A oportunidade apareceu agora. 

No rádio. Criado pela avó após a morte de seus pais, Ary Barroso começou a trabalhar, aos 12 anos, como pianista auxiliar no Cine Ideal e, aos 15 anos, compôs De Longe e Ubaenses Gloriosos. Mas foi depois que se mudou para o Rio, em 1920, que ele passou a se dedicar com afinco à música, seja atuando em orquestra, seja como compositor. Ary fez fama também no rádio, comandando programas como Calouros em Desfile, no qual os candidatos só podiam cantar música brasileira. 

Foi nesse programa, aliás, que a cantora Elza Soares, em seu primeiro teste na rádio Tupi, em 1953, protagonizou um diálogo com Ary que se tornaria histórico. Muito pobre e magra, a caloura Elza usava o vestido da mãe, cheio de alfinetes para a peça se ajustar a seu corpo. Espantado com sua figura, Ary perguntou a ela: “De que planeta você veio?”. E ela respondeu: “Do mesmo planeta seu, seu Ary. Planeta fome”. Após ela cantar Lama, Ary, impressionado com seu desempenho, sentenciava: “Nasce uma estrela”.

No espetáculo O Canto da Minha Terra, o Stagium recupera a vida do compositor, como se fosse um documentário, comparam Marika e Décio. São 12 bailarinos no palco, além das duas cantoras. As apresentações celebram ainda os 45 anos da companhia (completados no dia 23 deste mês), que deve levar a nova coreografia para outras partes do Brasil, incluindo a cidade de Ubá. 

“Décio procurou colocar o Ary como ser humano. Ele era uma pessoa que não só enxergava seu momento, mas também o futuro”, afirma Marika, que fica espantada com o fato de as pessoas, em geral, conhecerem Aquarela do Brasil, mas não saberem quem é Ary Barroso, no caso, o autor da música. “É um espetáculo muito bonito, obriga as pessoas a pensarem”, observa Décio. Para Marika, esse é um momento nostálgico de Décio. “É um dos momentos mais emocionantes para mim esse resgate da origem dele.”

O CANTO DA MINHA TERRA Sesc Consolação

R. Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234-3000. 6ª e sáb., 21h; dom., 18h. R$ 30 Estreia sexta (2). Até 11/10.

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