JF Diorio/AE
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Balada número 171

Por que as músicas de Pedro Boi foram parar no disco de um homem chamado Nelson Moralle? A resposta lembra uma sinistra obra de ficção

Julio Maria - O Estado de S.Paulo,

09 Fevereiro 2013 | 07h00

Nelson Moralle Junior existe. É um homem moreno, cabelos grisalhos, estatura média, acabou de comprar um violão e mora com a mãe em uma casa simples numa das principais ruas de São Roque, no interior de São Paulo. Sua fala é baixa, seu olhar não vacila e, não fosse uma incontinência verbal que o faz repetir a frase "cê tá me entendendo?" quando aparenta nervosismo, seria um mestre da persuasão. Nelson Moralle existe, mas o mundo que habita pode ser uma assustadora obra de ficção.

A faísca que virou fogueira nas redes sociais chama-se Naturalmente Brasileiro, um CD lançado por ele em 2010. A capa tem o rosto e o nome de Nelson Moralle e o encarte traz uma lista de 15 músicas, todas creditadas a ele como compositor. O nome de Almir Sater aparece como "produtor e arranjador" do álbum, além de parceiro de Moralle na música Vida de Violeiro. Os logos das empresas Caixa Econômica Federal e Petrobrás estão na contracapa, como se fossem patrocinadoras do projeto. Além do CD, o material traz um DVD com um documentário chamado Quilombolas. Foi com esse material que Moralle se apresentou em casas de show, programas de TV, deu entrevistas a rádios e rendeu matérias em jornais. Ele afirma que fechou 2012 com 102 apresentações, cobrando cachês que vão de R$ 1,5 mil a R$ 6 mil.

Em 2011, Moralle foi entrevistado por Antonio Abujamra no programa Provocações, da TV Cultura, como líder de uma comunidade quilombola de São Roque. Chegou a ser apresentado por Abujamra como exemplo de superação, um homem que aprendeu a ler e a escrever aos 35 anos. Em outro programa, do Canal Rural, é descrito pela apresentadora como "um músico com 30 anos de carreira que já trabalhou com Clara Nunes, João Bosco e Alceu Valença". Uma trajetória perfeita, se o mundo não fosse um pouco menor do que Moralle imaginou.

A 832 quilômetros de São Roque, em Montes Claros, Minas Gerais, o cantor e compositor Pedro Boi atendia clientes em seu bar quando um amigo chegou intrigado: "Acho que ouvi alguém cantando uma música sua lá no Recife". Um tempo depois e Pedro, 59 anos e 35 de carreira, recebeu de outros amigos de São Paulo o CD com o nome de Nelson Moralle na capa. Ao ouvi-lo, seu coração foi à boca e seus instintos primitivos afloraram. "Eu só queria matar aquele moço", diz. As 15 músicas do disco Naturalmente Brasileiro eram exatamente as mesmas gravações que estavam em seu álbum, Passarim, lançado dois anos antes. Mais do que plágio, as canções que apareciam no CD de Moralle, diz Pedro, haviam sido "transferidas" para o disco de Nelson. Ou seja, Nelson estaria dublando sobre a voz do mineiro e assumindo as autorias de suas canções, mudando apenas o título de cada uma delas no encarte do disco. Romance de Colibri, assinada por Pedro e seu parceiro Braúna, virava Colibri Apaixonado; Su aparecia como Sereia de Água Doce; Meu Cavalo se Chama Disco Voador, também de Pedro e Braúna, ganhava o nome de Histórias de Pescador.

A saga de como as músicas do disco de Pedro chegaram às mãos de Nelson é contada pelo mineiro, que diz ter hoje dificuldades para ouvir o próprio disco. "Não consigo. Logo me vem à mente o rosto dele e eu fico louco de raiva." Pedro narra que, depois de conhecer suas canções em um show em Porto Seguro, na Bahia, Nelson ligou para sua casa pedindo uma cópia de seu disco. Apresentou-se como um funcionário do Sesc que gostaria de agendar shows para o músico em São Paulo. Nelson teria ainda ligado outras vezes, pedindo o número do protocolo dos Correios para localizar o disco. Pedro passou os dados e esperou pela data de show. "Ele nunca mais atendeu aos meus telefonemas", diz Pedro.

A reportagem foi primeiro atrás dos nomes e das empresas citadas no encarte do disco de Nelson Moralle. Almir Sater seria mesmo o produtor e arranjador do CD, além de parceiro de Moralle em uma das canções? "Eu? Nunca ouvi falar o nome desse rapaz", diz o violeiro. A Petrobrás seria mesmo uma das empresas patrocinadoras do projeto, conforme indica a contracapa do disco? "Não encontramos em nossos arquivos registro de patrocínio ao projeto mencionado." E foi além: "Estamos analisando eventuais medidas cabíveis, diante do uso indevido da logomarca", informou, por meio de sua assessoria de imprensa. Segundo a empresa, o logo usado no material não condiz com a marca impressa em projetos patrocinados no Brasil. A Caixa Econômica Federal também não encontrou nenhum registro de patrocínio, nem no nome do artista nem da empresa que seria a proponente, segundo Nelson Moralle: a JMSMusic. José Martins, responsável pela JMS Music, diz que não é proponente nem responsável por captação de recursos. "A única coisa que fiz aqui foi imprimir as cópias do disco, que já chegou gravado."

O Ecad, escritório central que cuida dos direitos autorais no Brasil, registra várias das músicas que estão no disco de Nelson Moralle em nome de Pedro Boi: Francisco, Jequitaí, Mariana, Meu Cavalo se Chama Disco Voador, Meu São João, Passarim Cantadô, Passarinho Canoro, Romance de Colibri, Saudade da Vila, Su, Tem Dó, Ventania e Zumbi. Não há nenhum registro no nome de Nelson Moralle Junior. Na esteira de Pedro Boi, outras autorias assumidas por Nelson começaram a ser contestadas. "Nelsinho Moralle é um plagiador. Em nada difere de um ladrão de obras de arte", diz o compositor Marcelo Ribeiro, amigo de Pedro Boi. A cantora baiana Ju Motta chegou a gravar Romance de Colibri, "cedida" por Nelson Moralle, em um disco que não chegou a lançar. "Eu não sabia que a música era do Pedro Boi e do Braúna, fui uma vítima", diz. "Ele me fez assinar um contrato para 23 shows na Europa, mas os patrocínios nunca saíram", conta outra cantora, France da Matta, que chegou a namorar Moralle.

A delegacia de São Roque registra uma prisão preventiva de Moralle, em 2006, por falsificação de documento e estelionato. Uma outra condenação saiu em 2008, em Sorocaba, por parcelamento irregular do solo. "Fui preso por uma armação política", diz Moralle. A reportagem encontrou com ele em um café de São Roque. Moralle levou o violão, rebateu as acusações e se disse vítima de uma perseguição. Quando a reportagem pediu que ele tocasse as músicas que estão em seu disco, ele disse que não sabia.

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