Bajofondo apresenta 'Mar Dulce' e experiências com tango

Grupo formado por músicos, compositores e produtores argentinos e uruguaios faz show na Via Funchal

Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S. Paulo,

13 de maio de 2008 | 17h16

"A milonga é filha do candombe, como o tango é filho da milonga." A frase do compositor, poeta, escritor e cantor uruguaio Alfredo Zitarrosa (1936-1989) é não só o mote de Zitarrosa, uma das melhores faixas do álbum Mar Dulce (Universal), mas também a chave do conceito sonoro do Bajofondo, que se apresenta nesta quarta-feira, 14, na Via Funchal. O grupo formado por músicos, compositores e produtores argentinos e uruguaios suprimiu o Tango Club do nome, como sinal da expansão de seu espectro sonoro. Incorporando influências externas do pop e do rock, além da eletrônica, eles mantêm nas bases as características tangueiras que unem seus integrantes na origem.   Veja também: Ouça trecho de 'Zitarrosa', com o grupo Bajofondo    Foto: Divulgação   Composta por Juan Campodónico e Alejandro Tuana, a faixa em tributo a Zitarrosa é um primor. A voz sampleada do homenageado não está ali à toa. O Bajofondo representa a continuidade do que ele enunciou. "Creio que o que ele disse é bem ilustrativo do que é nossa cultura em geral. É uma cultura jovem que vem da África e da Europa também e, ao longo desses anos todos, conseguiu criar identidade própria, incorporando elementos de muitos lugares e culturas diferentes", diz o tecladista e produtor uruguaio Luciano Supervielle. "É o que também tentamos fazer com as linguagens contemporâneas."   Com os pés no Rio da Prata e a cabeça no mundo, essa identidade se resume no título: "mar dulce" foi a expressão usada pelo explorador espanhol Juan Diaz de Solís para se referir às águas da região (que se tornou o berço do tango) quando ali navegou no início do século XVI. Para o Bajofondo, contar a cantora uruguaia Lágrima Ríos no disco é um reforço para manter a ligação com as raízes da música popular rio-platense. Morta no ano passado aos 82 anos, Lágrima canta na última faixa, Chiquilines, composta especialmente para ela. "Ela é representante do que é a história do tango, foi contemporânea dos grandes mestres que fizeram do tango um gênero tão importante", diz Supervielle.   O novo disco tem um som bem diferente do início dos experimentos do Bajofondo em torno do tango, com a linguagem da música eletrônica. "Esse conceito foi se foi expandindo muito. Agora, no momento de compor, nossas fontes de inspiração têm uma margem mais ampla do que a cultura do Rio da Prata", diz Supervielle. "Há coisas de folclore daqui, mas também aparecem coisas de rock, ao mesmo tempo que criamos uma identidade própria, resultado de tanto tocarmos juntos ao vivo." A faixa Slippery Sidewalk, por exemplo, é uma parceria dele com Gustavo Santaolalla e Juan Casanova, um ídolo do punk-rock uruguaio e tem a voz de Nelly Furtado.   Encabeçado pelo argentino Santaolalla - duplamente vencedor do Oscar de trilha sonora (Brokeback Mountain e Babel) -, o Bajofondo fez shows arrebatadores no ano passado, no Rio e em São Paulo, e é conhecido pela atuação vigorosa no palco. Essa atitude aparece melhor no novo disco. Santaolalla trouxe convidados para navegar com eles como Elvis Costello e Nelly Furtado, mas não exerce função de líder. O que prevalece é o princípio de coletivo, como afirma Supervielle. "Esse espírito de colaboração, convidando artistas a compartilhar de nossa visão artística, é também um pouco a essência do Bajofondo."   Segundo Supervielle, a diferença principal de Mar Dulce para os dois álbuns anteriores, é que - além de ter sido todo gravado ao vivo em estúdio, com todos os músicos tocando juntos - este é mais centrado no gênero canção. "É algo que não havíamos explorado tanto. Surgiram distintos caminhos e opções para encontrar coisas interessantes para criarmos algo em torno da canção. Então, como nenhum de nós é cantor, precisamos convidar gente para cantar. Cada artista convidado não só contribuiu com todo seu mundo artístico, como também foi convidado a meter-se na pele do Bajofondo, e que resulta numa nova coisa."   Costello, por exemplo, tem uma sensibilidade muito próxima da que há no tango, em "sua maneira melancólica e obscura de cantar". Outros convidados que fundem harmonicamente seu estilo ao Bajofondo - dentro que Santaolalla chamou de "espírito cósmico tangueiro" - são a rapper espanhola Mala Rodriguez, o bandeonista japonês Ryota Komatsu, os ídolos pop argentinos Santullo, Juan Subirá (do Bersuit Vergarabat) e Gustavo Cerati (ex-Soda Stereo).   A base do show desta quarta, sem esses convidados, é o repertório de Mar Dulce, mas alguns temas do primeiro álbum e outros do trabalho-solo de Supervielle também estão no roteiro. Não dá para perder.     Bajofondo. Via Funchal (3.071 lugs.). Rua Funchal, 65, Vila Olímpia. Telefone 3897-4456. Na quarta-feira, 14, às 21h30. Ingressos de R$ 60 a R$ 250

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