Baixo russo Evgueni Nesterenko se apresenta em SP

A lágrima contida ao se lembrar da noite em que, na sala da casa de Shostakovich, assistiu à primeira execução da Sonata para Viola, a derradeira obra do compositor; a segurança que só quem fez no palco o Felipe II de Verdi e o Boris Godunov de Mussorgsky pode ter para discutir as diferenças entre as óperas italiana e russa; ou as considerações sobre a formação de um cantor, fruto de três décadas como professor em Moscou e Viena. O baixo russo Evgueni Nesterenko é um monumento. Está em São Paulo, onde hoje faz recital no Teatro São Pedro, abrindo a série Grandes Vozes, que inclui ainda três dias de masterclasses com jovens cantores brasileiros.Nesterenko estreou diversas obras de Shostakovich, de quem se lembram em 2006 os cem anos de nascimento, entre elas a Suíte Sobre Versos de Michelangelo, as Canções do Capitão Lebyadkin, a partir de textos de Dostoievksi. Interpretou os grandes papéis do repertório operístico russo - foi Boris Godunov, na ópera de mesmo nome de Mussorgsky; Ivan em A Vida do Tsar, de Glinka, a obra que inaugura a escola operística russa. Rodou o mundo, seus palcos e estúdios, interpretando papéis como Felipe II, o Inquisidor, Sarastro, Attila, Zaccaria, Barba Azul - todos eles entre os mais célebres escritos para a voz de baixo.Tudo isso é o seu currículo que nos conta. Mas é no palco, ou na conversa com Nesterenko, na emoção com que relembra tudo pelo que já passou, nas pausas que faz em busca da palavra mais correta, que você encontra o artista que se envolveu profundamente com tudo aquilo que fez: um homem que passou por diferentes turbulências políticas em seu país, que viu a ópera mudar de cara diversas vezes, que esteve lado a lado com grandes mestres do passado e, anos mais tarde, ajudou a batizar toda uma nova geração de artistas russos. É ele que falou ao Estado sobre os temas abaixo.O recital Sempre me dediquei muito à canção russa. Tenho feito vários programas, às vezes dedicados a um só autor, como Mussorgsky, Shostakovich, Rachmaninoff. Como russo, não vejo sentido, por exemplo, em viajar o mundo cantando Schubert, Schumann, já que há todo um repertório de meu país a ser descoberto. Na primeira parte, vou fazer uma seleção destas canções. Mas, na segunda, faço árias de ópera. Acho interessante, na minha primeira vez aqui, oferecer o panorama mais vasto possível do que é o meu repertório.ShostakovichComo estudante, sempre apreciei sua obra. Mas, como intérprete, meu contato maior com ele se deu durante seus últimos anos de vida. Nos conhecemos, na verdade, durante a estréia da ópera Lady Macbeth de Mtsenk. Ele estava sempre presente aos ensaios, gostava muito de participar do preparo de suas obras. Um ano depois, passei a interpretar outras de suas peças. De alguma maneira, tanto as canções de Michelangelo como a sua Sinfonia n.º 14 foram como um réquiem, já com a certeza da morte que se aproximava. Ele era um grande pianista e tive o privilégio de cantar com ele me acompanhando. Era um homem muito disciplinado e muito certo sobre o que pretendia com sua música. Mas não gostava muito de falar dela. Acreditava que tudo o que precisava ser dito estava na partitura. Mas não era difícil trabalhar com ele. Era um homem muito disciplinado.O homemEle estava sempre pronto e disposto a ajudar os outros. Quando ele estudava no conservatório, o reitor era Glinka. Os dois nunca concordaram sobre estética, sobre a música que faziam. Mas Glinka soube reconhecer nele um talento a ser incentivado. Shostakovich aprendeu a lição. Jamais teve interesse específico pelo dodecafonismo, mas ajudou uma série de compositores que seguiam este caminho. Foi um grande colega, símbolo da tolerância, da convivência.O adeus Quando não tocava mais o piano, Shostakovich terminava as obras e corria até nós com a partitura, queria ouvi-las. Certa vez, nos chamou para sua casa, onde fez a primeira audição da Sonata para Viola, sua última obra. Foi um momento muito emocionante. Depois da apresentação, minha mulher sentou-se na mesa em que ele trabalhava - não havia muitas cadeiras em seu apartamento - e viu um calendário. Nele, estava circulado o dia 25 de setembro, com os dizeres, escritos por uma mão trêmula: "Meu aniversário, se ainda estiver vivo". A parte final de suas canções a partir de Michelangelo falam de Morte e Imortalidade. Após sua morte, fizemos um concerto em Leningrado, seu lugar no teatro ocupado por um ramo de flores. Cantando aquelas palavras, eu senti mais uma vez a sua morte. E, olhando aquelas flores, o lugar em que ele sempre esteve, entendi que a sua imortalidade estava na sua música.A ópera russaVocê me pergunta sobre a importância deste repertório, qual sua contribuição para o gênero operístico. É difícil dizer, é realmente complicado (longa pausa). De alguma maneira, pode-se dizer que a escola russa sempre respeitou muito a escola italiana. Nas óperas de Glinka, que inaugurou nossa escola, há um colorido italiano, ele foi afinal muito amigo de Donizetti e Bellini. Mas há especificidades, claro. Em óperas como Boris ou A Vida do Tsar, a inspiração é a história do nosso povo, quase sempre a partir da nossa literatura, nossos grandes escritores e poetas. Os italianos, engraçado, escreveram muito sobre a história dos outros, da corte inglesa, da espanhola. Don Carlo, de Verdi, é o relato de um momento da história espanhola a partir da peça de um dramaturgo alemão, Schiller. Mas a beleza do canto, da linha melódica une a ópera russa à italiana, sem dúvida.RenascimentoValery Gergiev, diretor do Teatro Mariinsky, de São Petersburgo, tem feito grande propaganda de nossas óperas em todo o mundo. Ele também tem descoberto bons cantores em nossas escolas. Trabalhei com ele uma vez, em Munique. Por uma série de motivos, não voltamos a nos unir. Mas acredito que é um grande administrador. Após a Perestroika, quando Boris Yeltsin cortou toda a verba da cultura, ele conseguiu manter seu teatro funcionando e hoje consegue de Vladimir Putin o dinheiro necessário. Grandes Vozes. Teatro São Pedro (636 lug.) Rua Barra Funda, 171, 3667-0499. Hoje, às 21 horas. R$ 10 a R$ 20

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