Baden: seu negócio era o samba

Baden foi o maior violonista brasileiro e um dos mais geniais que o mundo conheceu. Precoce, era profissional aos 15 anos, com permissão especial do Juizado de Menores. Nessa época, viajou pelo Brasil acompanhando os grandes cantores. Era o caçula, o mascote? Não. Era o gênio. Era o melhor violonista que o dinheiro (para ele, aliás, pouco) podia pagar. Embora seu nome costume ser associado ao movimento da bossa nova, Baden não foi bossanovista, a não ser circunstancialmente. Freqüentava esporadicamente o Beco das Garrafas, onde o movimento se firmava, e a casa de Nara Leão, onde se reuniam os mentores da bossa. Chegou a compor algumas músicas nesse estilo. Mas seu negócio era outro: o samba (vide a série de afro-sambas, com Vinícius de Morais, e a formidável produção posterior em parceria com Paulo César Pinheiro), modinhas, alguns choros. Coisas de suburbano.Além do mais, o violão de Baden Powell tinha pouca afinidade com a surdina do violão da bossa. Baden aprendeu com Meira; o violão nordestino caracteriza-se pelo vigor do toque, em oposição à delicadeza bossanovista.Não que Baden não fosse delicado. Pelo contrário. Suas melodias sempre primaram pela beleza sensível e suas interpretações ao violão eram cheias de nuances, com improvisos que poderiam ser transformados em novas obras-primas. Mas o toque era viril, as cordas sempre feridas com convicção, a pronúncia muito clara e brilhante.Baden Powell morou na Europa do início dos anos 70 ao início dos 90, vindo ocasionalmente ao Brasil. Fixou residência - uma redundância, brincava - em Baden-Baden, na Floresta Negra, na Alemanha. Gravou mais discos na Europa do que no Brasil. Aqui, as obras que deixou gravadas foram esquecidas pelas sucessivas gravadoras por que passou. O que se encontra lançado em CD são antologias que mutilam o caráter dos LPs originais. Baden sempre bebeu muito, o que, admitiu à biógrafa Dominique Dreyfus, autora de O Violão Vadio de Baden Powell, atrapalhou a carreira. Costumava sumir - dias seguidos, percorrendo botequins, até que o encontrassem, a pedido da família, que ligava para os jornais e para a polícia. Nos últimos anos, aderiu a uma seita presbiteriana, entre outros motivos para parar de beber. Por convicção religiosa, parou de cantar, por exemplo, o Samba da Bênção, que compôs com Vinícius de Morais, porque a letra dizia "saravá" - para ele, agora, coisa do diabo.Compôs cerca de 500 músicas, entre as quais Samba da Bênção, Samba em Prelúdio, Consolação, Formosa, O Astronauta, Canto de Ossanha, Valsa do Amor que Não Vem, Berimbau, Lapinha, Samba do Perdão, Violão Vagabundo e Voltei.Baden Powell deixou um disco-solo pronto, totalmente instrumental, pela gravadora Trama, em que interpreta 11 canções que ouvia na infância, entre elas, a marcha-rancho As Pastorinhas, de Noel Rosa e João de Barro. (Colaborou Roberta Jansen)

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