Bad Religion é mais do que uma simples banda punk

Eu não quero viver num mundo sem melodia. Este é o título de uma das músicas de The New America, disco mais recente da banda Bad Religion. Parece um contra-senso filosófico para uma banda que se integra à gênese do punk rock - surgiu em 1980, quando lançou o álbum How Could Hell Be Any Worse?Bem, o fato é que o veterano grupo Bad Religion nunca foi fundamentalista do punk. Tem neurônio demais para isso. Mas sempre entendeu, desde o início, que o rock cru, básico, direto do gênero contribuía para manter longe a ameaça bisonha do show business. O punk rock é, para Greg Graffin, instrumento de comunhão direta com seu público e também plataforma de um discurso politizado.Nestes 21 anos de existência, o grupo influenciou gente como Nirvana e NOFX, entre outros. A diferença entre o Bad Religion e a legião de imitadores de seu estilo de guitarras velozes é que o BR abusa de letras inteligentes, mais elaboradas que seus congêneres, usando palavras até eruditas (quantos punks sabiam utilizar palavras como "puritano" e "beatitude" nos primórdios dos anos 80?).The New America é o 12.º disco da banda e traz um convidado ilustre: Brett Gurewitz, ex-guitarrista e antigo mentor do grupo que depois acabou tornando-se empresário de sucesso no selo Epitaph. Gurewitz toca na faixa Believe It, na qual diz que continua se insurgindo contra "o peso do sistema". Gurewitz foi responsável pelo lançamento de bandas como Offspring e The Vandals.The New America apresenta 13 canções em 40 minutos, no qual abordam temas atuais, como os ciberfanáticos, dramas de donas de casa e até mal-entendidos shakespearianos. O álbum veio depois de uma longa hibernação. Antes desse disco, o Bad Religion tinha lançado No Substance (1998), no qual reafirmava que o fã nunca levaria um susto ao comprar seus discos - eles nunca gravariam um ska ou uma música latina em sua carreira.Isso pode ser conferido numa boa coletânea do grupo lançada há três anos, Bad Religion 80-85, que mostra 28 músicas da fase inicial da banda, algumas inéditas. O guitarrista Greg Hetson, ex-Circle Jerks e que se incorporou ao BR no início dos anos 80, é sucinto nas notas de abertura do álbum. "Deixem-me avisar vocês que este não é um novo álbum do Bad Religion", escreve, à mão. "Se você pensava que era, volte atrás e troque pelo novo do Skid Row; melhor ainda, ouça, grave e então destroque."De qualquer modo, é possível observar em Bad Religion 80-85 que houve grandes mudanças no som da banda. A primeira fase do grupo soa bem virulenta, engajada, despreocupada com o politicamente correto em faixas como We´re Only Gonna Die e Latch Key Kids.O álbum também registra as diversas mudanças pelos quais eles passaram. Em 1984, por exemplo, após uma breve separação, a banda reuniu-se novamente com Tim Gallegos no baixo e gravou Back to the Known, que traz uma celebrada versão lenta de Bad Religion, clássico do grupo.Os novidadeiros de plantão podem dizer que o Bad Religion está aqui todo ano (o que é quase verdade) e torcer o nariz para esse show, mas o fato é que, com a proliferação dessas bandas de covers nos palcos da cidade, nada como uma aula de História para recuperar o entusiasmo.O Bad Religion sabe que está aqui uma das maiores legiões de seus fãs. Brian Baker até autorizou - e gravou uma mensagem - a criação de um site brasileiro (www.badreligion.com.br) com o nome do grupo.

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