Bad Religion abre em São Paulo turnê brasileira

Numa dessas ironias do destino que acontecem só no Brasil, duas bandas significativas do punk rock internacional vieram a se encontrar justamente nos bastidores de um festival realizado em solo pátrio. Os personagens em questão eram os ingleses do Sex Pistols e os norte-americanos do Bad Religion, grupo que inicia turnê nacional no Credicard Hall na quarta-feira.A primeira edição do Closeup Planet, em 1996, serviu de cenário para a ironia. O que tinha tudo para ser um enriquecedor encontro de gerações moicanas foi, na verdade, uma decepção sem tamanho. "Apesar da receptividade da platéia, me decepcionei muito com aquele show, sobretudo com a atitude arrogante dos Sex Pistols. Eles nem sequer dirigiram a palavra aos outros grupos que dividiriam o mesmo palco e, o pior, desrespeitaram o público´´, lembra, Greg Graffin, que há 21 anos responde pela voz e pelo discurso politizado do Bad Religion. "Ao menos pude constatar a piada que os Sex Pistols sempre foram."Decepções e farpas à parte, o grupo formado por Greg Graffin, Jay Bentley (baixo), Greg Hetson (guitarra), Brian Baker (guitarra) e Boobt Schayer (bateria) volta ao País pela terceira vez. O vocalista esclarece que a má impressão ficou restrita ao episódio do backstage do Closeup Planet: "O punk rock me ensinou que não há essa divisão tola entre artista e público, não há estrelas punks. O que eu quero mesmo é me comunicar diretamente com quem admira a minha música e tem ideais similares aos que eu defendo."A relação de Greg Graffin com a estética combativa do punk vem desde a adolescência. Em 1976, ele se mudou com a família de Wisconsin para San Fernando Valley. A mudança de cidade fez com que tomasse contato com o que o músico chama de "típica apatia consumista" da juventude norte-americana. "Sentia-me um verdadeiro extraterrestre em meio àquela realidade artificial´´, diz. Frente ao sentimento outsider, a movimentação que emergia dos subterrâneos caiu-lhe como uma luva de rebites. "O punk apareceu para mim como um meio de expressão artística, visual e comportamental; algo com vários significados." Em 1979, completamente tomado pela estética, Graffin formou o Bad Religion com os amigos de escola, Brett Gurewitz (guitarra), Jay Bentley (baixo) e Jay Ziskrout (bateria). Em 1981, o grupo estreou em disco com o EP Bad Religion. O registro foi o primeiro lançamento do selo independente Epitaph Records, de propriedade do grupo. No ano seguinte, trocaram de baterista e lançaram o álbum How Could Hell Be Any Worse, que vendeu mais de 10 mil discos em menos de um ano.Em 21 anos de punk rock, Greg Graffin testemunhou a assimilação do gênero pela indústria. Hoje, nomes como Blink 182 e Green Day são populares nos Estados Unidos (coisa impossível de se imaginar em outros tempos). O próprio Bad Religion passou por algumas adaptações. O grupo é contratado da Sony Music e o co-fundador, Brett Gurewitz, abandonou o posto de guitarrista em 1994 para dedicar-se exclusivamente à bem-sucedida Epitaph Records. "Concordo que tenha havido uma assimilação pela indústria, mas acho que o Bad Religion é a prova de que é possível manter a integridade, mesmo aparecendo na MTV ou tendo um contrato com uma grande corporação; continuamos essencialmente punks´´, diz ele, lembrando que o disco mais recente, The New America, teve a colaboração do amigo Brett Gurewitz. "Brett não está tocando em shows ao vivo, mas, como eu, adora um estúdio de gravações." De fato, os dois reencontram-se na faixa Believe It.Além de mostrar ao público brasileiro as músicas de The New America - a turnê vai a Curitiba, passa pelo Rio e termina em Porto Alegre -, Greg Graffin quer encontrar tempo e locais para dar vazão à sua paixão extrapunk. Prestes a concluir o doutorado na área de Biologia, na Cornell University, o músico quer saber mesmo é do ecossistema brasileiro. "Durante as turnês, eu sempre estou em missão científica, adoro florestas." Ele conta também que está às voltas com os últimos retoques de um livro chamado BandAid: The Music Industry from a Band´s Perspective. "É uma espécie de guia para os garotos que pretendem ter bandas. Basicamente, é um relato da da minha experiência pessoal. Não tem editora ainda, mas posso dizer que o meu trabalho está na reta final."Bad Religion - Quarta, às 21h30. De R$ 20,00 a R$ 60 00. Credicard Hall. Avenida das Nações Unidas, 17.955, tel. 0--11/3177-3663. Patrocínio: Zip.Net.

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