Ana Alexandrino
Ana Alexandrino

Ava Rocha entrelaça seus fluxos criativos em 'Trança'

'Trança', lançado nesta sexta-feira, 15, nas plataformas digitais, tem 19 música e 35 participações especiais

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

15 Junho 2018 | 06h00

Era abril de 2015 e o segundo disco da artista Ava Rocha tinha um mês de vida. Lançado em março, o trabalho de título Ava Patrya Yndia Yracema indicava um caminho. Livre, trazia as referências que diziam ao mundo quem era – suas origens, de ascendência índia, o fato de ser filha de Glauber Rocha –, na mesma medida que tentava encontrar uma conexão entre ela e o mundo.

Em entrevista ao Estado, um mês depois daquele trabalho, contudo, Ava já dizia: “Tenho certeza que o terceiro será muito diferente”. 

Se fosse um filme, o corte de cena aqui seria longo, com a tela a se escurecer aos poucos. Ainda na escuridão completa e depois dos segundos de silêncio, uma nova música seria ouvida. É Joana Dark (título que revisita a personagem histórica francesa Joana d’Arc que viveu no século 15), o primeiro single de Trança, o novíssimo álbum de Ava Rocha, lançado nesta sexta-feira, 15, nas plataformas digitais, pelo Selo Circus e realizado com o auxílio do edital Natura Musical. 

“Cê tá curtindo? / Cê tá gostando? / Mas abre o olho que aqui sou eu quem mando Sou eu quem mando / Sou eu queimando / Sou eu queimando na fogueira do pecado / Sou eu quem mando / Sou eu queimando / Sou eu queimando na fogueira do pecado”, diz a estrofe criada em parceria com Vitor Hugo e Gabriela Carneiro da Cunha.

No coro, juntam-se à voz de Ava nomes como Linn da Quebrada, Victoria dos Santos, Alessandra Leão, Ariane Molina e Karina Buhr, tudo de uma só vez. Tudo ao sabor de uma batida de funk, mas não aquele que se ouve nos bailes, esse soa como se viesse de um outro lugar, mais ancestral graças à percussão bastante orgânica, como se a cada batuque transmitisse o impacto da palma das mãos nas peles dos tambores. 

“Não é um funk ao pé da letra”, explica Ava um dia antes do lançamento do álbum, “mas também não estou preocupada com isso, porque não faço gênero (musical), mas sou uma pessoa totalmente empenhada espiritualmente nisso tudo (no disco). Não sou uma cantora de funk, mas todos esses ritmos desse disso, isso tudo, está dentro de mim e me interessam profundamente”. 

E é a partir desse single que se apresenta Trança, um disco produzido por Fabiano França e Eduardo Manso – o último também assina a direção artística do trabalho ao lado de Negro Leo, músico e companheiro de Ava – gravado na ponte Rio-São Paulo (no carioca Rockit! e no paulistano Red Bull Studios).

Trança talvez vivesse no inconsciente de Ava já na entrevista anterior, de certa forma, mas nasceu nos dias seguintes à morte do amigo dela e artista renomado Tunga, em junho de 2016, aos 64 anos. “Começou há quase dois anos”, recorda. Ainda no luto, ao chegar a São Paulo, onde mora, e escreveu Pangeia, música que quase deu nome ao disco. “O Tunga dizia que vivia na Pangeia”, ela explica. “Foi essa música que conectou tudo (para mim). Entendi uma parte muito profunda do disco que queria fazer. E cheguei à tradução de Trança.”

Segundo Ava, o título do álbum é a representação de quem ela é, sua ancestralidade mais uma vez ganha destaque – a herança da família por parte de mãe, colombiana, ganha mais força inclusive com duas músicas cantadas em espanhol, as românticas Canción Para Usted e Frio

O que Ava Rocha entrelaça neste terceiro álbum são fluxos. São vontades criativas de escrever canções, de colaborar em outras tantas, de gravar músicas como intérprete. De chamar amigos e músicos para gravar em cada uma das faixas, totalizando o expressivo número de 35 participações especiais. De colocar aquilo que ela quer no seu álbum, sem a preocupação mercadológica do limite de tempo de um disco e decidir, sim, fazer com que Trança tenha 19 canções e pouco mais de uma hora de duração. De falar de si, mulher, para falar de todas as outras. De cantar o mundo, no caos que ela vê, com os olhos dela e dos outros. 

Tudo isso está em Trança, seu novo trabalho, que costura também os anteriores, Diurno (2011) e o já citado Ava Patrya Yndia Yracema. E, três anos depois do último papo com o Estado, ela que quer assumir o papel de entrevistadora: “E aí, achou o terceiro tão diferente assim?”. E segue: “Cada disco é um universo em si. É um mergulho”. “E”, ela diz, “acredito que o quarto disco vai ser diferente.” 

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