Autores de 'Cais' descartam plágio em nova música de Bowie

Milton Nascimento e Ronaldo Bastos receberam e-mail de Maria Schneider, que participou da gravação da canção 'Sue'; compare

João Paulo Carvalho e Renato Vieira, O Estado de S. Paulo

16 de outubro de 2014 | 18h06

Em artigo publicado no jornal Le Monde, na segunda-feira, a jornalista Véronique Mortaigne apontou semelhanças entre a nova música de David Bowie, Sue (or In A Season of Crime) - inédita da compilação Nothing Has Changed -, e a canção Cais, parceria de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, lançada no disco Clube da Esquina (1972). “Ouvir Sue (or In A Season of Crime) faz recordar imediatamente o sucesso (gravado por muitos artistas) de Milton Nascimento - incluindo a sua melodia linear”, diz o texto.

Há notas idênticas em ambas as melodias. A canção de Bowie foi produzida pelo próprio artista com Tony Visconti, tendo a participação da Maria Schneider Orchestra. Schneider, lembra Mortaigne, sempre afirmou sua admiração pelos grandes compositores da música popular brasileira, dizendo, por exemplo, que para uma ilha deserta levaria um disco de Ravel, mas também Egberto Gismonti e João Gilberto”. 

A discussão levou Schneider a escrever um e-mail a Milton e Bastos na madrugada desta quinta-feira, 16. “Ela se colocou muito bem no e-mail, de maneira muito elegante, preocupada com o que nós poderíamos pensar. Ela disse que, apesar de ter uma grande admiração por Cais, nem ela nem Bowie tiveram a intenção de fazer referência”, conta Bastos. O letrista diz que ouviu a música antes da publicação do artigo do Le Monde e não notou semelhanças. Depois, notou sequências harmônicas e notas parecidas, mas não reconhece em Sue um plágio.

Para Bastos, a música lembra a atmosfera dos arranjos de Minas (1975), disco de Milton produzido por ele, especialmente Trastevere, parceria dos dois. Ele diz que a “estranheza” de Sue também parece com seu Liebe Paradiso, CD de canções feitas com Celso Fonseca lançado em 2011. E acredita que, em algum momento, a música de Milton chegou aos ouvidos de Bowie. “Ele é uma referência na música do mundo, é bem provável que Bowie tenha escutado e absorvido algo. Mas não plágio.”

Por meio de sua assessoria de imprensa, Milton Nascimento também descartou o suposto plágio, apesar de ter achado as músicas muito parecidas. O cantor e compositor se sentiu lisonjeado com a citação do Le Monde. Para ele, Sue é uma canção lindíssima e Bowie um artista diferenciado. Segundo ele, é bem provável que Bowie tenha ouvido o clássico Clube da Esquina, justamente por ser um músico antenado e completo.Compare

Sue, de David Bowie

Cais, de Milton Nascimento

Jorge Ben e Rod Stewart viveram caso semelhante

Casos de plágio aparecem com frequência na história da música. No anos 1970, houve embate entre Jorge Ben e Rod Stewart. Os refrões das faixas Taj Mahal (1972), do brasileiro, e Do ya think I'm Sexy (1978), de Stewart, têm o mesmo ritmo. Eles fizeram acordo extrajudicial.

Duas décadas depois, foi a vez do Radiohead. O sucesso Creep (1992) compartilha semelhanças notórias com The Air That I Breathe, da banda The Hollies. No fim, Albert Hammond e Mike Hazlewood, da Hollies, foram reconhecidos como coautores.

Outro episódio ocorreu no Brasil em agosto. A introdução da faixa Linha de Frente (2011), de Criolo, foi apontada como uma possível cópia de Tristeza Pé no Chão (1973), consagrada na voz de Clara Nunes e composta pelo sambista Mamão. Após conversa por telefone, os dois entraram em acordo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.