Autor de "Desafinado" ganha biografia

Newton Maestro? Newton Semifusa? Newton Gaitinha? O nome na carteira de identidade era Newton Ferreira Mendonça. Morreu de enfarte, aos 33 anos, em 1960. Ficou famoso como parceiro de Tom Jobim, autor das letras de clássicos seminais da bossa nova - Desafinado, Samba de Uma Nota Só, Caminhos Cruzados. Newton Mendonça era o letrista daquelas bossas: "Eis aqui este sambinha, feito de uma nota só; outras notas vão entrar, mas a base é uma só", versos construídos sobre a mesma nota repetida 29 vezes no início da canção.No entanto, Newton Mendonça era um pianista e compositor sofisticado, embora autor de poucas - e quase desconhecidas, a não ser aquelas feitas com Tom - canções; escreveu letra e música de várias delas. Foram, ao todo, sabidas, 40 composições. Dez delas foram perdidas. A partitura das 30 restantes estão encartadas no livro Caminhos Cruzados - A Vida e a Música de Newton Mendonça, de Marcelo Câmara, Jorge Mello e Rogério Guimarães (editora Mauad, 156 páginas, R$ 39,00). O lançamento oficial vai ser na terça-feira, a partir das 19 horas, na Livraria da Travessa, em Ipanema, no Rio (Rua Visconde de Pirajá 462).O livro contém ainda um álbum de fotos do sujeito fechado, que não gostava de conhecer gente nova e sobre quem pouquíssimo se sabia, até agora. Nem mesmo por seus contemporâneos da pré-bossa nova. Roberto Menescal conta que Tom Jobim o apresentou a Newton depois de uma sessão de gravação da trilha sonora do filme Orfeu do Carnaval, no famoso apartamento da Rua Nascimento Silva. "Tom, que piano diferente é esse?", perguntou. "Menesca, é o Mendonça, venha conhecê-lo."Menescal viu, ao canto, ao piano, um sujeito tímido, que o cumprimentou meio sem jeito. Sem jeito ele mesmo, Menescal caiu fora assim que pôde. "Tive mais uns dois encontros com Newton, mas senti logo que seria difícil ter dele mais que sua obra, o que, aliás, era muito mais do que eu podia imaginar."A biografia surgiu por acaso. Em 1996, o jornalista Marcelo Câmara conheceu, numa livraria de Ipanema, Norma Ferreira Mendonça, irmã de Newton. Ela lhe falou de "injustiças conquistas, poesia, morte, honra e méritos". O desafio era escrever a história. Não havia nada escrito sobre Newton Mendonça. E as referência bibliográficas, poucas, cheias de erros.Não houve muitos amigos. Alguns, famosos - Jobim, o poeta Moacyr Felix, que, em 1959, dedicou-lhe um poema, O Hóspede, tristemente premonitório: "Dolorosa mentira é a vida irrotulada/ envelhecer as bocas sem que de amor se gaste/ nos cântaros do tempo." Outro era Johnny Alf, que considera Newton um injustiçado na história da música popular. E o autor antecipa no prefácio, que esta não é uma biografia definitiva. É um primeiro passo. Ainda há muito a saber.Newton nasceu no subúrbio do Cachambi e, adolescente, em 1940, mudou-se para a Rua Nascimento Silva, em Ipanema, então uma província. Tom Jobim morava numa outra rua, vizinha. Um amigo comum os apresentou quando tinham, os dois, 15 anos. Os dois estavam começando a tocar piano. Newton se saía melhor na gaita de boca - daí o Newton Gaitinha. Ele e Tom participaram de uma orquestra de gaitas (era moda internacional, então), que tocava em bailes e festas.Não começaram imediatamente a compor. Foi só no início dos anos 50 que se esboçaram as primeiras parcerias - os dois faziam letra e música. Juntavam os talentos. Newton gravou antes de Tom: a música Você Morreu pra Mim, na voz de Dora Lopes, em abril de 1953, só dele. Em seguida, sairia em disco a primeira parceria da dupla: Incerteza, com o santista Mauricy Moura.Como Tom, Newton foi pianista da noite - mas tinha sempre outro emprego para bancar a vida. Filho de militar, foi aluno gratuito do Colégio Militar - gratuito, primeiro, porque o pai havia sido expulso do Exército e preso (o livro não explica motivos e circunstâncias da expulsão e prisão); depois, porque o pai morreu.Os biógrafos contam que o menino era dentuço, tímido e que se protegia tocando gaita. Um ex-colega de Colégio Militar, Job Lorena de Mendonça (aquele do inquérito do Riocentro) fala longamente sobre este momento. Ele é um entre a quase centena de depoentes que deram substância ao trabalho.Na conversa com Norma Ferreira Mendonça, Marcelo Câmara descobriu que Newton havia deixado três cadernos de música, um dos quais estava em posse dela; os outros dois, por caminhos tortos, estavam com o compositor (este sim, quase exclusivamente letrista) Paulo César Pinheiro.Pelas anotações, chegaram ao número de 40 músicas compostas. Dezessete em parceria com Tom Jobim: Desafinado, Samba de Uma Nota Só, Caminhos Cruzados ("Quando um coração que está cansado de sofrer/ Encontra um coração também cansado de sofrer") , Meditação (aquela do "amor, o sorriso e a flor"); das parcerias, há duas inéditas, sem letra, melodias assinadas por ambos.Há, ainda, uma parceria com Fernando Lobo, em Você Morreu pra Mim (mas parece que Fernando não teve participação na composição, apenas a assinou). Do que Newton fez de letra e música, só cinco obras foram gravadas, e por gente que não ficou famosa, como Geny Martins, Sandra e outros apagados pelo tempo.Em 1961, Marino Pinto organizou um disco em homenagem a Newton Mendonça, Em Cada Estrela uma Canção, com Marisa Gata Mansa, Carminha Mascarenhas, Ernani Fiho. O disco nunca foi reeditado.

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