Rafael Ramos
Rafael Ramos

Attooxxa volta com groove pop e amoroso no novo disco 'LUV BOX'

Grupo baiano, grafado como ÀTTØØXXÁ, traz mais melodias à fundação eletrônica em novo álbum

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

18 Outubro 2018 | 08h43

Depois de emplacar a música do verão em Salvador – Elas Gostam (Popa da Bunda), um groove dançante inequivocamente baiano – e consolidar a participação em festivais diversos Brasil afora, o Attooxxa (ou ÀTTØØXXÁ) lança nesta quinta-feira, 18, seu terceiro disco de estúdio, LUV BOX.

O projeto é o segundo de uma trilogia que pretende “apresentar” os membros da banda – liderados pelo produtor Rafa Dias, fundador do grupo no início da década. Esse é o disco de Raoni Knalha, vocalista que trouxe sua formação musical para as composições e emprestou ao grupo sons que vão do pagode sudestino de Exaltasamba e Os Travessos ao neosoul de Anderson Paak e Daniel Ceasar, sem deixar de lado as presenças refinadas de Michael Jackson, Justin Timberlake e Bruno Marz.

O primeiro projeto da trilogia, BLVCK BVNG, de 2016, era o disco de OZ, vocalista que permanece na banda – um próximo projeto vai jogar luz sobre as composições do guitarrista Wallace Chibatinha, também na formação atual do quarteto.

Em LUV BOX, a fundação do Attooxxa permanece viva: o groove do pagodão baiano misturado com batidas eletrônicas de house, dancehall e kuduro. A característica do grupo, de trabalhar nas fronteiras dos gêneros sempre com um pé no pop, ganha agora uma roupagem de canções de amor.

Na primeira faixa, Basta Amar Você, uma batida disco se reveza com o pagode para dizer: “diferente de alguns não preciso de mais / um lugar em comum vira um mundo de paz”. Caixa Postal retoma os ritmos baianos num lamento apaixonado de amor pouco correspondido. Mais à frente, na primeira parceria do disco, Rincon Sapiência rima sobre um beat inspirado à la Heavy Baile em Só Vem (“onde a noite termina é o de menos / mas se tiver companhia é demais”). Ladraum evidencia primeiro as guitarras Chibatinha para crescer num refrão recheado com os synths e programações de Dias (“hoje eu to todo ladrão, vou roubar seu coração”). Desapega dá espaço para outra parceria, o MC Supremo, num recado claro pelo título (e modulado pelo autotune). Eu Juro, a última faixa do álbum, com a cantora baiana Nessa, evidencia na melodia a intenção pop de LUV BOX – disposição que não compromete o caráter experimental da faixa, constante nas 13 canções do disco.

O álbum está em produção há cerca de dois anos, e 2018 foi um ano positivamente atípico para o Attooxxa. Para Raoni, ter lançado a música do carnaval foi um ponto de virada importante para a banda. “Foi maravilhoso ver a galera na rua cantando, entrar num lugar e ouvir a música. Isso foi um ‘start’ para a galera começar a sacar e ter mais conhecimento do nosso som”, diz, por telefone. As apresentações ao vivo também ajudaram a construir a fama do grupo. “É muito honesto (o show). A experimentação com o som era o que todo mundo queria fazer na Bahia, mas por um tempo (a produção) caiu na fórmula industrial baiana, os próprios músicos ficaram presos num modelo”, diz, referindo-se aos mega sucessos dos anos 1990 e 2000. “Hoje a acessibilidade é outra, a galera consegue fazer e ser ouvida”, comemora.

Dias destaca que a banda conseguiu se incorporar com facilidade a dois “mundos” distintos: os festivais da cena independente e alternativa nacional, mas também a eventos com nomes mais mainstream, como Léo Santana e Ivete Sangalo.

O fato de o disco trazer canções de amor para um momento delicado do cenário político e social do Brasil é também um dado importante.

“A Bahia está muito longe de estar fazendo essas coisas agora”, diz Dias, referindo-se a canções melódicas. “Não me lembro de nenhum artista nos últimos sete anos que fez música que não fosse para pular ou dançar. Tem muito tempo que não vejo artista focar em um disco baseado em canção. (O nosso disco) calhou de ser lançado agora. Dialogar e falar de amor nos tempos em que estamos mostra um pouco de desejo sobre a humanidade. Pioraram os diálogos, ninguém mais quer conversar, as famílias se digladiando. Esperamos que possa ser um sopro de tolerância, de amor, para fazer pensar um pouquinho de longe, olhar de fora. Porque se não fizermos isso vamos estragar tudo. Vamos respirar”, propõe.

Raoni também deposita alguma esperança no trabalho. “Porque a gente podia simplesmente falar de amor romântico, mas tem questões surreais que abrangem esse contexto, esse valor mais puro, mais simples, de ver o próximo”, diz. “Ali tem outra preocupação, de não deixar o sentimento se transformar em ação negativa.”

O Attooxxa agora se prepara para trabalhar o verão – a festa do grupo, TáBatenu, é periódica na centro de Salvador. Antes disso, Dias pede calma. “Todo o business da música pede um imediatismo. Fizemos o disco para as pessoas pararem em casa, respirarem e escutarem, como dizemos aqui, de quebradinha.”

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