João Luiz Sampaio
João Luiz Sampaio

Assista grandes óperas de graça na sua casa

Metropolitan, Ópera de Paris e de Viena transmitem espetáculos pela internet para amenizar a solidão da quarentena do coronavírus

João Luiz Sampaio, Especial para 'O Estado'

19 de março de 2020 | 18h41

 

Na noite de quarta-feira, em meio ao confinamento - obrigatório ou autoimposto - provocado pelo novo coronavírus, cerca de 70 mil pessoas foram à ópera. Assistiram a Il Trovatore, de Verdi, com um elenco estelar, encabeçado pela soprano Anna Netrebko, acompanhado da orquestra e do coro do Metropolitan Opera House de Nova York. E não precisaram sair de casa para fazer isso.



O Metropolitan é uma das instituições que, com o fechamento de teatros de óperas e salas de concerto em todo o mundo, resolveram criar alternativas para o público. Desde o início da semana, o teatro está transmitindo diariamente produções de seu acervo. Elas entram no ar por volta da 20 horas (no horário de Brasília) e ficam disponíveis até as 15 horas do dia seguinte. A Ópera de Paris e a Ópera de Viena estão realizando projetos semelhantes com produções recentes de seus acervos.

A procura tem sido maior do que a esperada. Nos primeiros dias, o site do Metropolitan saiu do ar por conta da quantidade de acessos. Em seguida, o teatro criou uma “sala de espera”, em que os internautas podiam esperar para “entrar na transmissão”. Mas, com a possibilidade de seguir assistindo a ópera até o dia seguinte a procura não se limitou a um só horário, tornando mais fácil o acesso.

As produções escolhidas são aquelas que, nos últimos anos, integraram o projeto de transmissões do Metropolitan para cinemas de todo o mundo (o Brasil não faz mais parte da lista de países em razão da quebra de contrato com cadeias exibidoras). Por conta disso, possuem qualidade de som e imagem impecáveis - e para quem tem um bom sistema de som (ou mesmo um bom fone de ouvido) o resultado é ótimo.

Tudo bem, a experiência de assistir a uma ópera ao vivo, no teatro, é insuperável. Mas as temporadas estão suspensas. No Brasil, a abertura da agenda de óperas do Teatro Municipal de São Paulo e do Teatro Municipal do Rio de Janeiro foram suspensas, assim como a nova edição do Festival Amazonas de Ópera, marcada para começar no final de abril. E não há, ainda, previsão de retomada das atividades.

Para a colunista americana Cornelia Channing, no entanto, a experiência de ver espetáculos em casa durante o confinamento tem algo a dizer sobre a própria ópera. No site Slate, ela chama atenção para o fato de que, gratuitas, as transmissões podem chegar a um público que ainda se mantém longe dos teatros (preços caros não são mais a realidade no Brasil, mas nos Estados Unidos um ingresso para o Met pode chegar a custar mais de US$ 400). Além disso, afirma, óperas às vezes podem ser longas: o que é uma vantagem durante o confinamento, quando se está procurando o que fazer.

Seu último argumento é filosófico. “Não é uma surpresa completa que, em um momento como esse, sem precedentes, assustador, as pessoas se voltem à ópera. Para muitos, os temas operísticos - guerra, assassinato, sedução, traição - parecem distantes da nossa realidade. Mas neste momento em particular, quando a economia colapsa e países em todo o mundo declaram estado de emergência, a emoção exacerbada da ópera de repente soa mais proporcional, adequada a momentos conturbados. Até porque, no final das contas, as óperas falam sempre do desejo de superação individual.”

Há vários pontos a se questionar nos argumentos de Channing - a temática das óperas é muito mais vasta e a ideia do “exagero” talvez seja redutora frente à complexidade que um gênero que se propõe a unir todas as artes carrega (e, convenhamos, nem sempre a verossimilhança é o que se procura numa obra de arte, certo?) Mas podemos deixar isso de lado e simplesmente nos preparar para a próxima sessão: do jeito que quisermos, enquanto fazemos um lanche, tomamos alguma coisa, ou tiramos um cochilo, por que não?



Se ainda houver tempo, este Il Trovatore foi a primeira performance de Anna Netrebko no papel da jovem Leonora, presa em meio à paixão por Manrico (o tenor Yonghoon Lee) e o ciúmes por ela provocado no Conde de Luna (o barítono Dmitri Hvorostovsky). São interpretações especiais, todas elas, mas ver a veterana Dolora Zajick como Azucena, cantando sobre a trágica morte de seu filho, é com certeza uma experiência à parte, de arrepiar - símbolo da capacidade de Verdi de caracterizar personagens por meio da música e criar com o público laços intensos.

Trovatore é drama puro. Assim como La Traviata, também de Verdi, atração de hoje, quinta-feira, em montagem com Diana Damrau e Juan Diego Flórez; ou Lucia di Lammermoor, de Donizetti, com Netrebko e Piotr Beczala (sábado, dia 21); e Eugene Oneguin, de Tchaikovsky, com Renée Fleming e Dmitri Hvorostovsky (domingo, dia 22). Na sexta, 20, um alívio cômico: A filha do Regimento, de Donizetti, com Natalie Dessay e Juan Diego Flórez.

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