ANDRE DUSEK/ ESTADÃO
ANDRE DUSEK/ ESTADÃO

Às vésperas da turnê internacional, Caetano e Gil falam de suas diferenças e igualdades

Dupla fará série de shows a partir do dia 25 de junho passando por dez países, além de Israel; assista a vídeo dos dois

O Estado de S. Paulo

17 de junho de 2015 | 18h23

RIO - Um é zen, o outro angustiado. Um adora dormir o outro detesta. Um fica com as mãos geladas quando sobe ao palco, o outro é calmo. Gilberto Gil e Caetano Veloso iniciam este mês uma turnê pela Europa para comemorar meio século de amizade. Os dois monstros sagrados da música popular brasileira, que lideraram o movimento tropicalista em 1968 e se exilaram vários anos em Londres durante a ditadura militar, confessaram esta entrevista concedida à AFP que fazer um show aos 70 anos de idade é bem diferente de quanto estavam com 30. De 25 de junho a dois de agosto os dois levarão sua música a 10 países da Europa (incluindo shows em Madri e Barcelona) e Israel.

Ainda ficam ansiosos antes de subir ao palco?

GIL - Hoje fico ainda mais nervoso, posso afirmar com certeza.

CAETANO - Me faz rir porque para mim é tudo ao contrário. Não fico nervoso.

GIL - Minhas mãos ficam frias e às vezes tenho um pouco de taquicardia. Mas é mais fácil com ele ao meu lado. De todos os músicos é com Caetano que eu me sinto mais tranquilo no palco. 

Se vocês se consideram quase irmãos, em que aspecto são mais parecidos e são mais diferentes?

GIL - Somos na verdade muito diferentes. Os gostos são parecidos, temos influências musicais parecidas. Ele é de o signo Leão e eu Câncer. A bossa nova nos aproximou.

CAETANO - Não faço ioga, não acredito em astrologia. Creio que somos mais diferentes do que parecidos. Mas estamos muito unidos pela vida e pela música. Nós nos conhecemos em 1963. A primeira vez que vi Gil ele cantava na TV na Bahia e um amigo em comum nos apresentou.

Vocês são da geração sexo, drogas e rock´n roll. Têm saudades dessa época? 

CAETANO - Tenho saudade da juventude e de ser jovem. Ser jovem é uma vantagem imediata. Uma alegria do corpo jovem. 

GIL - Que o velho já não tem mais.

CAETANO - Mas sou um indivíduo e como tal você passa pela infância, adolescência, maturidade, velhice. E sinto uma curiosidade por tudo.

GIL - A idade avançada deu-me a possibilidade de não me adiantar muito com relação a expectativas e desejos, o futuro, o horizonte. Hoje estou tranquilo aqui.

CAETANO - Ao contrário de você (dirigindo-se a Gil) tenho ansiedade com relação ao futuro, ainda quero fazer minha vida. Não sou como você.

GIL - Entendi. Eu aceito mais as coisas conforme a idade.

Mas não fizeram até agora o que gostariam muito de ter feito?

CAETANO - Gil realizou coisas maravilhosas no campo da música, eu não. Quero fazer coisas, algo que considere realmente genial. Tenho vontade de fazer filmes, mas é preciso mais juventude para fazer cinema do que para compor uma música.

GIL - Exatamente!

CAETANO - Graças a Deus existem essas coisas inúteis como os produtos da criação artística.

GIL - Adoro pintura, literatura, cinema, mas não poderia fazer nada disso (se não fosse músico). Talvez poesia ou filosofia. Poderia dedicar-me a pensar, no sentido filosófico.

Gil, você foi o ministro da Cultura do presidente Lula durante cinco anos. É mais fácil ser músico ou ministro?

GIL - Música é fácil, realmente fácil. É só querer e estar disposto. Ela sai. São as outras coisas que são difíceis.

Quais são as três coisas que mais gostam na vida? Quando se sentem realmente felizes? 

CAETANO - Creio que fazer sexo, conversar e cantar.

Nessa ordem? 

CAETANO - Bem provavelmente.

GIL - Eu gosto dessas três coisas, mas diria que o melhor de tudo para mim é quando me deito para dormir.

CAETANO - E veja, para mim isso é o inferno. Durmo muito tarde, vivo lutando contra o momento de me deitar e apagar a luz, não suporto. Faço um esforço enorme, ponho-me a ler, assisto TV, comédias americanas antigas, gosto disto. Apago a luz, volto a ler, fico no escuro e não consigo. Não falo com ninguém, não saio do quarto. Vivo sozinho, com meu filho do meio, mas durmo só há anos.

GIL - Eu não. Quando me levanto já estou pensando na hora de voltar a dormir.

Caetano, continua fazendo psicanálise? 

CAETANO - Sim, retornei.

GIL - Nunca fiz, nunca pensei de fazer.

Não tem nada para resolver?

GIL - Não. Estou muito satisfeito com o que tenho torto. 

CAETANO - Sou muito ocidental. É mais uma necessidade de conhecimento e de me tolerar, não resolver. De tornar-me capaz de tolerar o que sou, o que tenho. Tinha a sensação de que estava chegando a um ponto intolerável. E sempre tive grande curiosidade pelo pensamento de Freud, porque na infância tive uma intuição sobre ele. Era pré-adolescente, tinha em torno de 10 anos, andava angustiado e não tinha com quem conversar. Havia em Santo Amaro (sua cidade natal, no Estado da Bahia) um médico que cuidava da minha garganta de quem eu gostava muito e confiava nele. E pensava que devia haver um médico para quando uma pessoa está com medo, angustiada. Quando soube que existia...

GIL - Ficou curiosíssimo! 

CAETANO - Sim, eu o havia imaginado.

Qual seria seu conselho para um jovem hoje? 

CAETANO - Hoje já estou na idade de repetir o conselho de Nelson Rodrigues: Envelheçam!

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

 


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