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As lives que ficarão para a história da quarentena

Fenômeno começa a fechar um ciclo, com uma queda de 25% nas audiências nacionais segundo levantamento do Google - veja os grandes momentos

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2020 | 09h00

O enfraquecimento das lives, com uma queda nas audiências em até 25% nesse final de julho, no Brasil, como aponta levantamento do Google, parece sinalizar o fechamento de um ciclo. Como os especialistas diziam no começo do fenômeno, só as grandes ideias bem executadas sobreviverão. A quarentena que segue teve seu pico no seguimento live e, agora, a curva da euforia sobretudo com as superproduções entrou em declínio. Enquanto esperamos que aconteça o mesmo com os gráficos da covid-19, lembramos aqui algumas das melhores lives desse momento histórico também para a música. 

Rolling Stones (14/04/2020)

As gerações que estavam em casa na tarde de 18 de abril de 2020, tensas e com medo do que seria de seus próximos dias, frágeis por tantas notícias ruins e desoladas pelas mortes que o mundo registrava em uma escalada incessante, poderão também lembrar que não estavam sozinhas. Pois nesse dia, os quatro Stones, cada um em sua casa, se juntaram para cantar uma versão encantadora de You Can't Always Get What You Want. A apresentação fechou a maior live de todas, batizada One World: Together At Home, produzida pela Organização Mundial de Saúde e com a curadoria de Lady Gaga. Ainda hoje, revê-la sem se emocionar é quase impossível.

Roberto Carlos (19/04/2020)

Uma pena a live de Roberto não ter ficado aberta no YouTube, que só deixou momentos isolados como Jesus Cristo, Como é Grande o Meu Amor Por Você e Jesus Salvador com o áudio prejudicado. Uma limitação contratual da Globo que afeta seu próprio artista, ao privá-lo de um dos momentos que não serão esquecidos mesmo quando tudo isso passar. Roberto mostrou estar com uma voz perfeita e uma musicalidade incomparável com os artistas de sua geração. Uma pena também seu arranjador seguir sendo tão preso ao passado como Eduardo Lages. Com todo respeito ao maestro, seus timbres de teclado amarram Roberto eternamente aos anos 80. No mais, Roberto esteve impecável

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Gilberto Gil e Iza

As canções de Gilberto Gil por Iza foram um alento. Ver Gil ali, dignamente, ancorando a juventude de Iza e seus arroubos vocais formados pela escola de arroubos da canção negra norte-americana com tanta serenidade, entrando e saindo com a segunda voz para que ela passeasse por seu cancioneiro mais à vontade foi uma lindeza. O repertório é grandioso: Andar com Fé, A Novidade, Drão, Tempo Rei, Three Little Birds (de Bob Marley), Aquele Abraço e Palco ficaram frescas e pulsantes.

Eric Clapton e Maro (26/05/2020)

Eric Clapton precisa ser lembrado não por uma live, mas por um vídeo em que canta com a jovem cantora portuguesa Maro. Clapton viu Maro cantar ao piano Tears and Heaven e pediu para fazerem a canção juntos. Maro enviou sua parte e os dois apareceram em uma cena linda, sobretudo por mostrar o guitarrista inglês tão envelhecido, de voz opaca, mas fazendo frases inspiradas ao violão e entregando uma emoção típica dos dias de quarentena. Tears and Heaven, que por um tempo o próprio Clapton não conseguiu tocar, foi feita para seu filho Connor, de 4 anos, morto ao cair da janela de um edifício em 1992.

Guilherme Arantes (19/04/2020)

Guilherme não teve produção de marcas de cerveja e não teve uma emissora de TV por trás, mas teve emoção. Captando imagens com seu próprio celular, fez uma live com as músicas que o influenciaram direto de sua casa na Espanha, um dos países devastados pela pandemia. Tocou baladas dos anos 70 e, claro, aquelas que o fez ser quem é desde meados dos anos 1970. Se a live foi a era da verdade, fazendo valer todas as limitações técnicas que esconderam por séculos as limitações humanas, Guilherme estava lá, por inteiro, mostrando quem ele era

Chucho Valdez (22/05/2020)

O pianista cubano sentou-se ao grande piano de cauda da sala de sua casa, em Havana, e fez uma demonstração de uma das maiores musicalidades em atividade saídas de Cuba. Se viu, reveja. Se não viu, aproveite. Chucho tem uma linguagem erudita e ao mesmo tempo contagiante. Observe seus momentos de explosão. Nada pode ser mais incrível quando se fala de latin jazz. Ou, como preferem os cubanos, cuban jazz


Chris Martin (16/03/2020)

Em pouco mais de 30 minutos, Chris Martin, o vocalista do Coldplay, sorriu, contou pequenas histórias e tocou o piano direto de seu quarto, em Londres. O clima era bem descontraído, o que o fez não se concentrar tanto nas canções com seus começos, meios e fins. Uma pena, poderia ter realmente feito algo comovente pelo poder que suas canções têm mesmo quando tocadas só ao piano. Ainda assim, pode se considerar um dos alentos de quarentena. 

Emicida  (10/05 2020)

Emicida fez uma live que já foi chamada de “histórica” nas redes sociais: o rapper ficou mais de 8 horas de pé e cantando, uma atrás de outra, 100 músicas da sua caneta (e de parceiros), cujos fonogramas são da Laboratório Fantasma, sua empresa e gravadora. Com uma ação do patrocinador, o montante arrecadado via um QR Code na tela foi de R$ 800 mil, para o Mães da Favela, programa criado pela Central Única das Favelas (CUFA). Foram mais de 900 mil visualizações e cem mil tuítes sobre a maratona.  Participaram da live o DJ Nyack e o cantor Thiago Jamelão, na sede da gravadora, zona norte de São Paulo. (Guilherme Sobota)

Pedro Mariano e Conrado Gois (14/06/2020)

Pedro conseguiu, com a live que fez com o guitarrista Conrado Gois , um ponto de equilíbrio interessante. Até então, ou eram as lives caseiras, sem nenhuma produção, ou as superproduzidas, com geladeiras de cerveja brilhando com luzes de neon. Sua produção manteve a proximidade das lives sem descambar para o excesso de formalidades. Havia roteiro, ensaio, preparação, cuidado técnico. Uma voz afinadíssima (sim, isso é elogio) e uma guitarra elegante, sabendo seu papel em cada compasso.

Playing for Change (17/04/2020)

Antes de qualquer pandemia dar sinal no planeta, esse grupo, Playing For Change, cruzava o mundo se apresentando e divulgando um trabalho magistral, de reunião de instrumentistas e cantores de várias partes do planeta. No meio da quarentena, então, eles soltaram um desses vídeos. Chan Chan, uma espécie de hino de Cuba, é executado aqui por músicos de muitos países, cada um creditado durante a apresentação. Vale a pena ser visto com ou sem quarentena. 

Alcione (20/04/2020)

Apenas a primeira de uma série de lives que a grande artista fez para arrecadar alimentos e materiais de higiene para instituições e famílias do Rio de Janeiro e do Maranhão. Com Alvinho Santos e Jorge Cardoso, Marrom fez um passeio pelos sambas que marcaram sua carreira, defendeu uma frente democrática a favor da democracia brasileira e pregou pela tolerância religiosa. Uma rainha. (Guilherme Sobota)

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