As façanhas de Nathalie Stutzmann

As façanhas de Nathalie Stutzmann

Rigor, liberdade e intensidade emocional da contralto francesa diante das obras de Vivaldi, Mendelssohn e Mozart

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2013 | 02h16

"O que faz o maestro?", pergunta-se Leonard Bernstein num vídeo memorável que foi programa de televisão aberta nos EUA nos anos 1950. Fala e para de reger, mas a Filarmônica de Nova York continua a tocar como se ele continuasse fazendo gestos no pódio. Nos 50 minutos seguintes, explica por que reger, apesar de parecer tão fácil, é a mais complexa das profissões no mundo da música. Além de uma preparação técnica e artística diversificada, o regente precisa passar aos músicos sua concepção da obra musical. É um vídeo que batuteiros mais recentes devem ver (ou rever) com urgência. Ultimamente, os maestros-de-espelho têm se multiplicado. Batem compassos e até possuem gestual bonito.

Falta-lhes, entretanto, o que sobra na contralto francesa Nathalie Stutzmann quando empunha a batuta: rigor musical, liberdade expressiva e intensidade emocional. Ela não começou a estudar regência só depois de fazer fama (justificadíssima) como cantora. Sempre esteve ligadíssima e estudou os segredos do pódio, do piano, do fagote e da música de câmara, além do canto.

Depois de trabalhar com Jorma Panula e Seiji Ozawa, fundou em 2009 a orquestra de câmara Orfeo 55. Com seus músicos, Nathalie gravou dois CDs nos quais estreou como dublê de regente e cantora, para a Deutsche Grammophon: em 2011, Prima Donna, um tributo a Vivaldi, um dos raros compositores do século 18 a preferir as contraltos aos então imensamente populares castrati em suas óperas; e Uma Cantata Imaginária em dezembro passado, onde construiu um mosaico com os trechos que mais ama na produção bachiana.

Dito isso, entende-se como, depois de realizar o milagre da transfiguração cantando e regendo Vivaldi semana retrasada com seis músicos da Osesp, ela repetiu a façanha uma semana depois. Foram apenas duas obras no concerto. Duas lições de regência consistente e ao mesmo tempo iluminada. À Sinfonia no. 1, que Mendelssohn compôs com apenas 15 anos espantando o mundo com sua maturidade, ela imprimiu a urgência indispensável desde o primeiro compasso do Allegro di Molto inicial. Um comprometimento que se espalhou pelas estantes e transformou em ouro em pó a interpretação inteira da sinfonia. Com destaque para o movimento lento, um belo Andante de tinturas haydnianas.

Quanto ao Réquiem de Mozart, que regeu pela primeira vez na semana passada, foi um privilégio para o público compartilhar sua regência segura, envolvente e precisa. Dos quatro solistas às últimas estantes da orquestra e do coral, todos se irmanaram nesta obra-prima inacabada em que Mozart parece ter injetado a quintessência de seu gênio.

COTAÇÃO: Excelente

 

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