Felix Ordonez/REUTERS
Felix Ordonez/REUTERS

As estrelas da ópera Jessye Norman e Barbara Hendricks lançam autobiografias

Livros das cantoras norte-americanas acabam de sair nos EUA, revelando personalidades completamente diferentes

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

01 Janeiro 2015 | 15h30

 Jessye Norman e Barbara Hendricks nasceram com apenas trêsanos de diferença – em 1945 e 1948, respectivamente. Começaram a carreira nofinal dos anos 1960, início dos 1970. Limitaram suas atuações no palco de óperaa poucos e significativos papéis, fazendo do universo de canções seu habitatnatural, com destaque para os spirituals norte-americanos. Em suasautobiografias, recém-lançadas nos Estados Unidos, no entanto, emergem duaspersonalidades completamente diferentes – e uma maneira bastante distinta deolhar para o passado, o presente e o futuro.

 

Há pontos de contato nas narrativas de Stand Up Straight andSing!, de Norman, e Lifting my Voice, de Hendricks. As duas, afinal, nasceram ecresceram no sul dos Estados Unidos, na década de 1950, quando ainda estavam emvigor as Leis de Jim Crow, conjunto de legislações locais promulgadas porestados sulistas que determinavam a segregação racial e limitavam os direitoscivis de afro-americanos.

 

Tanto Norman como Hendricks frequentaram escolas exclusivase experimentaram em primeira mão o preconceito. A família de ambas esteveligada à igreja, que, nos anos 1960, acabaria por se tornar espaço de discussãopolítica em torno da luta pelos direitos civis. E as duas se lembram do impactoprovocado pelas palavras de Martin Luther King – assim como da desolaçãoprovocada pela notícia de seu assassinato. Mas a forma como elas recordam essasexperiências não poderia ser mais diferente.

 

Norman fala apenas – e sem se aprofundar – do modo comodesde cedo criou um mundo próprio à sua volta, nas horas a fio passadas noquintal com os amigos, a observar a natureza, o vento, as folhas das árvores.E, nos momentos em que esse mundo idílico se quebrava, ela encontrava nafamília – em especial nas “mulheres fortes”, sua mãe, tias e avós – a certezade que a igualdade não apenas entre brancos e afro-americanos, mas também entrehomens e mulheres, era algo indiscutível.

 

No ambiente familiar de Hendricks, a igualdade também eraensinada às crianças. Mas as discussões políticas, em geral, não eramcompartilhadas com elas. E os fragmentos de notícias e debates entreouvidos nastardes e noites de discussão a levaram a criar sozinha uma ideia do que seriaeste mundo real – um mundo povoado, acima de tudo, pelo medo, pela insegurançae pela descoberta, às vezes dolorida, da omissão familiar em questõesdelicadas, como a decisão de sua irmã mais velha de se casar com um homembranco e se envolver com a NAACP, associação que lutava pelos direitos civis deafro-americanos.

 

O modo como relembram essas e outras experiências é bastantesignificativo no que diz respeito à diferença do tom das duas autobiografias. Olivro de Norman, no final das contas, lê-se como um conto de fadas em que otalento se impõe sobre toda e qualquer dificuldade, atropelada sem grandesdúvidas. Já em Lifting my Voice, o talento e a paixão pela música são o eixosegundo o qual Hendricks tenta entender o mundo em que viveu e vive – e astransformações pela qual ele passou e segue passando.

 

Em outras palavras, o que em Norman é exaltação, emHendricks é a necessidade de uma reflexão constante a respeito do modo como asexperiências pessoais definem a personalidade de um artista. E isso vale tambémpela recuperação dos momentos puramente musicais de suas trajetórias. Normanrefere-se a episódios de grande realização artística e a colegas envoltos emauras de grandeza e excepcionalidade. Hendricks não deixa de relatar a decepçãoperante aqueles que reconhece como seus modelos – a insegurança de sua mestraJennie Tourel, o egocentrismo histérico de Leonard Bernstein e Maria Callas, adecadência de um Herbert Von Karajan obcecado pela perfeição técnica no finalde sua vida.

Para os amantes da ópera não faltam episódios saborosossobre os bastidores do mundo musical. E o que essas cantoras fizeram sobre opalco as coloca como duas das mais importantes artistas da segunda metade doséculo 20. Mas Stand Up Straight and Sing! revela pouco mais de Jessye Normanem um prazeroso exercício de autorreferência, enquanto Lifting my Voice é umaprofunda e sensível investigação de Barbara Hendricks sobre os caminhos damemória.

TRECHOS:

Stand Up Straight and Sing! (Editora HMH, 316 págs, R$ 43, versão e-book), de Jessye Norman

“Nós nos movíamos como uma unidade, nosso pequeno grupo de amigos. Ele era composto de meninos e meninas. Fazíamos tudo juntos – ensaios do coral e atividades na escola, nas igrejas, nos escoteiros. A amizade era descomplicada porque, apesar da indignidade das Leis de Jim Crow e da atmosfera hostil criada pelo comportamento detestável de brancos que continuavam a se insurgir contra nós, sentíamos que este também era o nosso país, porque nossas comunidades e nossos pais e nossa história nos diziam isso. Nossas vidas eram protegidas por um senso de pertencimento, pela amizade, por nossos pais, pela cidade. (…) Ser vizinho de alguém tinha um significado – e ajudávamos uns aos outros. Havia um elemento espiritual que nos levava a isso, porque ajudar ao próximo era parte da busca por servir à fé e ao nosso Criador.”

Lifting My Voice (Chicago Review Press, 488 págs, R$ 43, versão e-book), de Barbara Hendricks

“Nós éramos alertados pelos nossos pais e professores: ‘sempre que estiverem na presença de brancos, mesmo crianças, comportem-se e não chamem atenção’. Eu desejava ter o poder mágico para me tornar invisível no ônibus ou nas ruas, sempre que íamos à cidade. Sempre que estávamos longe de casa, sabíamos que não precisávamos fazer nada de errado para ter um problema. Como alguém evita estar no lugar errado na hora errada? Qualquer lugar poderia ser o lugar errado. Como o narrador de O Homem Invisível, de Ralph Ellison, eu também queria ficar invisível e me esconder da humilhação fervente que me acometia sempre que sentia medo. Todos os dias na escola nós abríamos os livros de segunda mão que nos eram enviados quando as escolas para os brancos recebiam novas edições. Mesmo nossos livros eram lembretes constantes de que éramos considerados inferiores. Nossos laboratórios de ciência eram um insulto. Como ninguém esperava que nos destacássemos não havia razão para nos oferecer instalações adequadas para o estudo.”

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