SERGIO CASTRO/ESTADÃO
SERGIO CASTRO/ESTADÃO

As bandas NX Zero e Fresno encaram a vida adulta

Sobreviventes da geração dos anos 2000, grupo liderado por Di Ferrero lança 'Norte' e gaúchos comemoram 15 anos de carreira

Pedro Antunes , O Estado de S. Paulo

27 Julho 2015 | 03h00

Após deixarem o palco do extinto Via Funchal, em São Paulo, os integrantes do NX Zero dividiam-se entre cumprimentos e gritos de entusiasmo após encerrarem a gravação do CD e DVD MTV Ao Vivo – 5 Bandas de Rock. Comemoravam como recém-saídos da adolescência que eram, com seus 20 e poucos anos. O registro, lançado em maio de 2007, três meses depois daquela noite, escancarou a última geração de bandas saídas do underground a chegar às rádios e ao mainstream com alguma relevância. NX Zero era acompanhado por Fresno, Forfun, Moptop e Hateen naquela leva registrada ao vivo.

Daquelas “cinco bandas de rock”, pouco sobrou. As cariocas Moptop e, mais recentemente, Forfun chegaram ao fim. O Hateen, veterano já naquela época, ainda se mantém na ativa, prepara um novo álbum, mas já está longe da máquina fonográfica – se é que existe, hoje, algo para se chamar de máquina.

Fresno comemorou 15 anos com um disco ao vivo lançado neste ano e seu vocalista, Lucas Silveira, lança o livro autobiográfico Eu Não Sei Lidar (veja mais na entrevista abaixo). O NX Zero, por fim, superou uma dita crise de identidade e pessoal e lança, no próximo mês, Norte (Deck), um novo disco de inéditas que injetou nova energia no quinteto, que já se aproxima dos 30 anos.

Ao longo de pouco mais de uma hora e meia em que a banda esteve com a reportagem do Estado, entre poses para fotografia e entrevista, realizadas em uma vila no Jardins, a idade dos integrantes, todos com 29, com exceção do vocalista Diego Ferrero (mais conhecido como Di Ferrero), o único trintão do grupo, se fazia presente – mesmo quando não verbalmente.

A ideia de deixar o selo que os lançou (a multinacional Universal Music) representa uma busca pela identidade da banda diluída ao longo dos anos. Uma resposta natural a uma maturidade bem-vinda a qualquer um que se aproxima da terceira década de vida. Em fevereiro de 2014, excluíram-se do mundo em Juqueí, no município de São Sebastião, litoral norte de São Paulo. “Fomos lá para gravar, compor, nos entender em vários sentidos”, conta Ferrero. “Foi a primeira vez que fizemos isso. Avisamos as pessoas: ‘Estamos indo’. Era uma saída de emergência”, completa Daniel Weksler, baterista.

Sentar à mesa com os cinco integrantes é como estar diante de uma grande família, daquelas que os irmãos falam ao mesmo tempo, completam as frases uns os outros e não têm medo de dar suas próprias opiniões.

É unanimidade entre os cinco de que continuar no moto-contínuo da banda iniciado na explosão daquele movimento – genericamente chamado de “emocore” – traria o fim dela. Era preciso mudar. “Vínhamos em um ciclo de quase 10 anos, de composição, de tudo, acabou se tornando algo cíclico para a gente, artisticamente falando”, analisa Conrado Grandino, baixista da banda. “Isso começou a prejudicar a gente, de certa forma. Ir à praia era um desprendimento, uma forma de ficar feliz entre a gente e com o que a gente faz”, completou.

O EP Estamos no Começo de Algo Muito Bom, Não Precisa Ter Nome Não, lançado em 2014 com quatro músicas, foi um primeiro passo adiante nesse plano, completado agora com Norte, sexto trabalho de estúdio do grupo. A música Meu Bem, primeiro single, não foi escolhida por acaso. Foi ela que, surgida no período praiano, deu início ao álbum cheio. Nas sessões de improviso, conta o guitarrista Filipe Ricardo, “a gente começou a ter vontade de fazer o disco”.

“O Diego havia falado que chegar aos 28 anos é uma mudança muito grande. E vai até os 30”, disse Gee Rocha, também guitarrista. “Estamos nessa mudança, não falaria em amadurecimento, mas diria que estamos em uma fase de transição, numa época muito boa”, completa. Transição é a palavra certa, uma caminhada entre a juventude e vida adulta – e toda a seriedade pode ser jogada fora quando, enfim, eles põem as mãos no novo disco pela primeira vez. Voltam a ser garotões eufóricos, como naquela noite de 2007. 

‘Buscar fórmula para tocar na rádio é suicídio’

Lucas Silveira passou dos 30 anos em dezembro do ano passado e, quase metade da vida, esteve acompanhado do Fresno, banda que completa 15 anos em 2015 e se mantém firme, com forte base de fãs, mesmo com as pancadas pejorativas recebidas pelo rótulo de “emocore” na segunda metade dos anos 2000.

Com um DVD ao vivo lançado recentemente, pela Sony Music, Lucas também coloca nas livrarias Eu Não Sei Lidar, uma coleção de relatos sobre suas composições na banda. Em entrevista ao Estado, o líder e vocalista do Fresno falou sobre a cena independente, para a qual voltaram em 2011, a fama e os planos como escritor.

Qual foi a importância daquele DVD '5 Bandas de Rock', de 2007?

Foi um divisor de águas para a gente. Foi o momento que deixou de ser aquela coisa de molecada. Era um projeto sólido. Foi avassalador.

Havia uma cena forte, não?

Sim, era realmente uma cena. E ela estava se fortalecendo. Um grupo de bandas que se identificava com o mesmo som.

São 15 anos com o Fresno e aquela indústria musical já não existe. Como sobreviver hoje? 

Por muito tempo, as bandas entendiam que o sucesso é tocar na rádio. Aquilo era medida de sucesso. Buscar a fórmula para tocar na rádio é suicídio. Tem bandas seguindo essas rádios e as rádios não dão a menor bola para elas. 

Aquela ideia de single para a rádio, com menos guitarra, já não funciona?

Agora é mais livre, o público percebe. Tanto que, no nosso DVD de 15 anos, alguns singles ficaram fora. Não eram as músicas preferidas dos discos. E isso não é “síndrome de Anna Júlia”, não. São músicas que não marcaram tanto.

Seu livro parece ter sido escrito quase de forma descarregada. Como foi a experiência?

Escrevi sobre duas ou três músicas e meu editor gostou. Seria melhor do que a história da banda. Seria a história emotiva. Ficaria aterrorizado com uma autobiografia. Agora, quero fazer uma ficção.

‘5 BANDAS DE ROCK’ 

NX Zero: Depois do DVD da MTV, quinteto manteve a formação e não deixou uma ‘crise’ se instalar. Chega ao sexto disco de estúdio. 

Moptop: Grupo carioca liderado por Gabriel Marques trazia referências claras de Strokes e não sobreviveu para chegar ao terceiro álbum.

Fresno: Lucas Silveira (voz) e Gustavo Mantovani (guitarra) são os integrantes-fundadores que sobraram, mas a banda tem forte base de fãs e chega ao 15º aniversário.

Forfun: Grupo carioca anunciou ‘pausa’ após uma carreira cheia de reinvenções. Foram quatro discos de estúdio e um DVD.

Hateen: Veterana daquela geração, a banda continua na ativa. O último disco saiu em 2011 e o grupo prepara um sucessor. 


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