Pedro Dimitrow/Divulgação
Pedro Dimitrow/Divulgação

As Bahias e a Cozinha Mineira tomam novos caminhos em 'Tarântula'

Banda lança seu terceiro disco, agora sob a chancela e com a logística de uma grande gravadora

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

31 de maio de 2019 | 03h00

Criada nos corredores do curso de História da Universidade de São Paulo, “rolando na grama e tocando violão”, a banda As Bahias e a Cozinha Mineira lança nesta sexta-feira, 31, seu terceiro disco, Tarântula, agora sob a chancela de uma grande gravadora (Universal), e depois de rodar o País com sua mistura exploratória de ritmos brasileiros, sempre partindo das referências baianas maiores (Gal Costa à frente, como um farol).

Em 2018, o contrato com a grande gravadora e o reconhecimento do Prêmio da Música Brasileira (melhor álbum e melhor grupo de canção popular) trouxeram liberdade para um grupo acostumado a fazer tudo por si mesmo (das composições ao pagamento de boletos). “Agora, podemos usufruir do fato de sermos artistas”, comemora Assucena Assucena, uma das vocalistas da banda, nascida em Vitória da Conquista, Bahia, daí o apelido, que compartilha com Raquel Virginia, paulistana, mas que morou anos em Salvador. Rafael Acerbi, mineiro, completa o trio.

Se os dois primeiros discos (Mulher, de 2015, e Bixa, de 2017) tinham uma “amarração conceitual” predeterminada, Tarântula surgiu de maneira mais espontânea quando o trio reuniu canções e entendeu que era, de fato, uma banda de álbuns – e não de singles ou EPs, formato sedutor na era do streaming. “A gente se juntou numa praia no litoral de São Paulo discutindo o que seria esse novo trabalho. Cada um trouxe suas músicas e entendemos o que era o disco. Foi mais pragmático nesse sentido, mas não menos artístico”, conta Virgínia. “O bom de ganhar experiência é que você aprende a pedir, por exemplo, uma produção diferente, e estabelece diplomacias diversos com empresários, gravadora, etc. O disco é a demarcação de um lugar profissional da banda”, acredita.

As faixas do novo álbum carregam uma identidade de grupo, mas apontam para várias direções. Volta representa a primeira vez que Acerbi faz o vocal principal, um pop folk romântico à la Rubel que aos poucos ganha ares de orquestração. Shazam Shazam Boom é uma investida dançante de uma banda consciente de que, para tocar no rádio, talvez seja preciso deixar para trás as explorações progressivas do início da carreira. Carne dos Meus Versos empresta elementos do blues para contar uma história: “Quando eu nasci, ninguém disse nada / Tomei muitas palmadas / E vi algumas mentiras”, canta Virgínia, para concluir: “E eu só estava querendo me apaixonar / Fiquei rebelde com causa”. As três faixas (são 10 no total) ganham clipes que explicitam a relação profunda da banda com a cidade de SP.

Coincidentemente ou não, o grupo ganhou destaque numa cena dos últimos anos em que diversos artistas (Johnny Hooker, Liniker, Pablo Vittar, e outros) tinham como elemento de divulgação e reflexão artística questões de sexualidade. O fato de as duas vocalistas do As Bahias serem mulheres trans, porém, nunca se apresentou como um elemento de segmentação para o grupo. “Uma canção é um quadro que vou pintar, uma crônica. Existe uma natureza intrínseca de tratar desses assuntos, como seres políticos que somos, além do nosso viés de historiadoras. Nesse sentido, é natural aparecer (discussões de sexualidade nas canções). Mas para a população trans, por exemplo, é extremamente político e revolucionário escrever sobre questões de amor”, explica Assucena. “Uma vez nos convidaram para um programa de TV para falar de ‘lacração’. Eu nem sabia o que era isso”, ri Virginia.

Em Chute de Direita, penúltima faixa do disco, Assucena reaproveita metáforas futebolísticas para provocar. “O verde e o amarelo na fronte de uma farsa / Um pênalti cavado na área da desgraça”, canta, num forró eletrizado destinado, criticamente, para a direita verde e amarela. Sobre estar em evidência, enquanto mulher trans, no Brasil de 2019, ela afirma que “a consciência (de respeito à população LGBT) uma vez criada, não recua. As pessoas estão ligadas. Independente do governo, essa cobrança existe daqui para frente. Os movimentos sociais estão construindo um embasamento ideológico nesse sentido. Os tempos históricos são inseparáveis”. 

“Posso ser otimista?”, pergunta Virginia, já ao fim da entrevista. “A democracia é isso. O governo é legítimo, e a gente vai ter que democraticamente lidar com os posicionamentos dele. No momento, políticas públicas para a população LGBT estão sendo deterioradas, e isso é um problema grave, porque os números (de mortes e agressões motivadas por homo e transfobia) são de guerra. Só que vivemos na democracia, e a democracia tem suas contradições. Todos nós temos que reaprender o que ela é, revisitar esse conceito. O atual governo está me ensinando sobre democracia. Que isso sirva de amadurecimento para nós enquanto País.”

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