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As apostas do jazz para 2012

Os futuros nomes de um estilo que nunca entra em crise

Roberto Muggiati/ESPECIAL PARA O ESTADO,

06 de janeiro de 2012 | 21h30

Não são palpites aleatórios. Nossa escolha coincide, no geral, com o consenso na cena do jazz. As apostas para 2012 refletem a biodiversidade do jazz atual. Homens e mulheres de variadas origens e etnias trazem contribuições originais ao estilo nascido há mais de cem anos nos pantanais da Louisiana. Vieram de tão longe como o Quirguistão, Israel, Dinamarca. Outros têm nas veias o sangue africano ou asiático (Coreia, Índia). Trata-se de um trio, um saxofonista, uma trombonista, um trompetista, um pianista, um violinista e um cantor. Muitos abriram caminho através de duas instituições que já se tornaram referência do jazz: a Berklee School of Music, em Boston, e o Concurso Internacional do Instituto Thelonious Monk. E tiveram seu valor aferido pela revista que, há 77 anos, tem sido o barômetro do talento no jazz, a DownBeat. As idades vão de 19 a 38 anos. Têm uma vida à frente e já possuem currículo invejável: muitos começaram a dedilhar um instrumento antes de se alfabetizar. De certa modo, representam o lado bom da globalização. Se 2011 foi para o mundo um ano de crise econômica e de conflitos sociais, na área musical, ele só trouxe harmonia e criatividade, que se deve, em grande parte, a essa legião de jovens que manteve a proposta original e o sopro de vida do jazz.

Da Sibéria para a fama

Uma das melhores surpresas recentes do jazz, Eldar Djangirov nasceu há 25 anos (completos no próximo dia 28) no Quirguistão, ex-república soviética. Gênio precoce, aprendeu piano aos 3 anos com os pais russos. (Lembra vagamente a primeira coisa que tocou: C Jam Blues, de Duke Ellington.) Aos 9, foi descoberto em um festival da Sibéria por um caçador de talentos americano, mudou-se com a família para Kansas City e, aos 12, se tornou o mais jovem convidado do programa Piano Jazz, da pianista Marian McPartland. Do Sul da Califórnia, Eldar fixou-se em Nova York. Ele alia técnica impressionante a um estilo que sintetiza a arte dos mestres modernos - de Tatum a Evans - acrescido de um toque pessoal inconfundível. O repertório é enciclopédico: de standards avulsos (Besame Mucho, Embraceable You), a clássicos de Ellington (Take the a Train), Parker (Donna Lee), Monk (Straight no Chaser), Timmons (Moanin’, Dat Dere), Jobim (Insensitive), Beatles (Blackbird), intrigantes composições originais e incursões no erudito (Bach, Brahms & cia). Eldar já gravou cinco álbuns e a revista JazzTimes entusiasmou-se tanto que foi ao exagero: "Talvez ele tenha feito um pacto com Lúcifer para se tornar o maior pianista de todos os tempos".

A garota do trombone

A israelense Reut Regev, na casa dos 30 anos, é dos grandes nomes do instrumento. Aos 5 anos começou ao piano, aos 13 adotou o trombone e brilhou na banda da escola secundária, apresentando-se nos principais festivais de jazz do país. Após servir como primeira trombonista e solista na banda do Exército de Israel, partiu em 1998 para Nova York a fim de tocar com o baterista Igal Foni, seu atual marido. Exímia também no flugabone (uma cruza do trombone com o fluegelhorn), excursionou com os melhores músicos de estilos diferentes, como klezmer, rock, blues, jazz, além da música latina e do clássico contemporâneo. Com o marido Igal e outras feras de Nova York, gravou em 2009 o primeiro álbum, This Is R*time. Este ano será decisivo para Reut: de maio a agosto faz uma turnê que a levará da América do Sul à Europa. A boa notícia é que o Brasil está incluído no roteiro. Bom para tirar a prova por aqui.

A irmandade dos sopros

Ouvi pela primeira vez os irmãos Cohen no Festival de Jazz de Ouro Preto em 2008. Escrevi na época algo assim: "Uma nova onda de jovens músicos israelenses foi morder a Grande Maçã no Jardim do Éden dos jazzistas, Nova York. Seus nomes evocam personagens do Antigo Testamento: Avishai, Avital, Aaron, Anat, Omer, Yonathan, Yuval." Os três irmãos, nascidos em Tel-Aviv, cursaram o Conservatório de Jaffa e, após o serviço militar, cada um passou como bolsista pela Berklee School of Music de Boston - onde jovens do mundo inteiro aprendem as bases da improvisação. Yuval, de 38 anos, abriu o caminho, seguido por Anat, de 36, e por Avishai, de 33 (não confundir com o Avishai Cohen contrabaixista). Aos 8 anos, o caçula pediu à mãe permissão para estudar trompete. Aos 10, começou a tocar na Rimon Big Band e, ainda adolescente, ingressou na Orquestra Filarmônica de Israel. Depois de Berklee, fez o seu nome ao colocar-se em 3º lugar no Concurso de Trompete Thelonious Monk. Em 2003 lançou o álbum, The Trumpet Player. Anat fundou o selo Anzic, voltado para jovens jazzistas israelenses, aperfeiçoou-se no sax-tenor - que toca com a vitalidade típica de um Sonny Rollins - e tem explorado a clarineta, para incursões em tango e choro, e até criou uma roda de chorões em Nova York. O álbum recém-lançado pelos Three Cohens, Family, celebra a recuperação de Yuval após anos de inatividade causada por um tumor no pescoço.

Algo de belo no reino da Dinamarca

Por seus recursos expressivos e sua sonoridade, o violino é, sim, um instrumento de jazz, embora muitos ainda o considerem um "estranho no ninho". O dinamarquês Mads Tolling, criado em Copenhague, destacou-se de 2003 e 2007 como viola do Turtle Island, quarteto de cordas chegado ao jazz (ganhou um Grammy com A Love Supreme: The Legacy of John Coltrane). Em 2007 deixou a "Ilha da Tartaruga" e partiu para o violino, formando seu quarteto, além de excursionar com o baixista Stanley Clarke. Mads foi indicado a Clarke pelo violinista Jean-Luc Ponty quando estudava em Berklee, onde se formou em 2003, após ter-se mudado para os EUA aos 20 anos. Tocou também com Joe Lovano, Paquito D’Rivera, Kenny Barron e o duo de violões brasileiro Sérgio e Odair Assad. Participou de vários álbuns. O mais recente sob seu nome é The Playmaker, em que aborda a ligação entre a música e o esporte. Escalou o monte Kilimandjaro com seu pai em 1999. Exerce papel importante também na área educacional, fazendo workshops de violino e viola nos EUA e Canadá. Chick Corea define-o assim: "É uma voz maravilhosa no violino, nova e revigorante."

 

Em alta na bolsa do jazz

Nascido em Chicago, Sachal Vasandani tinha tudo para ser banqueiro em Wall Street. Formado em Economia pela Universidade de Michigan, descobriu em Nova York que o jazz dos clubes locais o atraía mais do que os pregões da Bolsa. Ainda criança, Sachal ouvia os discos de jazz moderno dos pais, curtia a música da sua geração (de Beatles a Jackson) e ainda teve um ouvido atento aos sons ancestrais da Índia Oriental. Ainda na Universidade de Michigan, frequentou programas de jazz e música clássica. Arriscou a sorte nos clubes de Manhattan e teve a oportunidade de se ver frente a uma big band: nada menos do que a Orquestra de Jazz do Lincoln Center liderada por Wynton Marsalis. Interessado em todo tipo de música - foi definido como crooner pop-jazz que incorpora elementos do rock, R&B, clássico e da MPB - após dois discos independentes, lançou três pelo selo Mack Avenue: Eyes Wide Open (2007), We Move (2009) e Hi-Fly (2011). Neste, o mestre do vocalise Jon Hendricks, 90 anos, participa de duas faixas. O repertório é eclético: inéditas, standards, dois temas de Porgy and Bess de Gershwin, o clássico de Randy Weston, Hi-Fly, e um hit de Amy Winehouse, Love Is A Losing Game. Hi-Fly, sem trocadilho, prova que Sachal vai voar ainda mais alto.

Veterana de 19 anos

Tem nome de princesa a rainha do sax alto. Filha de coreanos, Grace Chung nasceu em Massachusetts e depois adotou o sobrenome irlandês do padrasto. Grace Kelly começou a estudar piano aos 6 anos, mas passou para o jazz por gostar de criar as próprias melodias ao invés de tocar o que estava escrito. Compôs a primeira música aos 7, On My Way Home. Aos 16, tornou-se a artista mais jovem votada na lista dos críticos da Downbeat. Aos 18, lançou seu sexto CD, Man With The Hat, uma colaboração com o lendário saxofonista Phil Woods. Phil, 80 anos, superou sérios problemas de saúde graças a Grace e sua injeção de juventude, e exibiu-se com ela no último Festival de Newport. Grace não é só uma virtuose do saxofone, mas também compositora, arranjadora, band leader e cantora. Vale ouvi-la interpretando standards como It Might As Well Be Spring e I’ll Remember April. Além de Phil, Grace tocou com outros ícones do jazz: o saxofonista Konitz, o pianista Brubeck, o gaitista Thielemans, o trompetista Marsalis. Ao completar 20 anos, ela deve fazer de 2012 um dos grandes anos da sua vida. Como disse o saxofonista Jimmy Heath, "o futuro de nossa música está em boas mãos".

Um trompete na fronteira pós-bop

Em 2007, Ambrose Akinmusire venceu os dois principais concursos internacionais de trompete: o Thelonious Monk e o Carmine Caruso. Nascido em Oakland, Califórnia, em 1º de maio de 1982, foi descoberto quando tocava no grupo de jazz da escola secundária de Berkeley pelo ouvido aguçado saxofonista Steve Coleman, que foi fazer uma workshop na escola. Coleman contratou o jovem de 19 anos para integrar seu grupo Five Elements e logo partiu numa longa turnê europeia. Criou-se entre os dois o tipo de relação de mestre e discípulo zen. No meio de uma viagem de trem pela Alemanha, Coleman perguntou-lhe a queima-roupa: "Qual é o seu conceito?" Ambrose: "Aos 19 anos não preciso de conceito. Ele virá um dia." Coleman, furioso: "É melhor começar a pensar nisso desde já. Tudo aquilo de que você não gosta tem de ser depurado de sua música." Akinmusire seguiu o conselho à risca. Retomou os estudos na Escola de Música de Manhattan, batalhou para adquirir "um som de trompa" no trompete. Depois das vitórias de 2007, lançou seu primeiro álbum e participou do concerto multimídia In My Mind: Monk At Town Hall, 1957, chamando a atenção de Bruce Lundvall, dos discos Blue Note, que decidiu contratá-lo. Uma semana antes do Natal, o álbum de Akinmusire para a Blue Note, When the Heart Emerges Glistening, encabeçou a lista dos dez melhores do ano do New York Times. Na prosa neobarroca do crítico inglês Nate Chinen: "Um jovem trompetista com um estilo original e estimulante - tom sombreado, ataque seguro, fraseado cheio de surpresas - o sr. Akinmusire coloca em foco aqui o seu brilhante quinteto. É um despacho eloquente da nova fronteira pós-bop e um raro álbum dessa linhagem aberto às emoções."

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