JACKIE LEE YOUNG/THE NEW YORK TIMES
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Artistas transgêneros encontram novas vozes na ópera

Com hormônios ou reeducação vocal, cantores e cantoras trans abrem caminho no mundo tradicional do canto lírico

Michael Cooper THE NEW YORK TIMES / AUSTIN, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2019 | 03h00

Holden Madagame, de 28 anos, faz parte de uma nova onda de cantores de ópera transgêneros. Treinado como mezzo-soprano, ele pôs em risco sua carreira de cantor quando, ao passar de um sexo para outro, vários anos atrás, começou a tomar testosterona, que baixa e altera a voz – uma voz que ele passou anos preparando para ópera, na qual o sucesso é medido pelas sutilezas das gradações. “Alguns amigos cantores me advertiram que eu estava arruinando a carreira e a vida, pois a voz é tudo”, recordou recentemente. “Mas eu pensei: não é. Prefiro curtir minha vida e, se possível, continuar cantando. Não sabia se seria possível.”

Acabou confirmando que era possível. Hoje, ele é um de muitos cantores transgêneros que começam a abrir caminho no mundo tradicionalista da ópera. Alguns, como ele, encontraram novas vozes, ou com a ajuda de hormônios ou reeducando a voz anterior. Outros mantiveram a voz com a qual construíram a carreira, mesmo que isso significasse continuar atuando no gênero que tinham deixado para trás. Alguns conseguem papéis de destaque e superam preconceitos de voz e gênero. 

A própria ópera começa a mudar. A maior produção em temporadas recentes dessa nova ópera na América do Norte é As One, a história de um transgênero que chega à idade adulta. As mudanças na ópera coincidem com os direitos dos transgêneros sendo debatidos nos esportes, nas assembleias estaduais e nas Forças Armadas, em que o presidente Donald Trump tentou impedir o ingresso de soldados transgênero.

Enquanto Madagame cantava em Austin e Tulsa, 700 quilômetros ao norte, uma mulher transgênero, Lucia Lucas, ensaiava para o papel-título da ópera de Mozart Don Giovanni. Lucas manteve a poderosa voz grave de barítono após a transição: o estrogênio não eleva a voz do modo que a testosterona a abaixa. “Seria ótimo se eu simplesmente tomasse estrogênio e despertasse cantando como Brünnhilde”, disse ela, “mas não funciona assim.” Em certos aspectos, esta geração de cantores transgênero está adicionando um novo dado a uma antiga tradição: a ópera oscila entre gêneros desde seu início. Nas primeiras óperas, papéis de rapazes eram vividos por mulheres soprano, e tanto papéis masculinos como femininos eram às vezes desempenhados por castrati – homens castrados antes da puberdade para preservar seus altos tons de voz. 

Quando essa prática acabou, os papéis masculinos que os castrati desempenhavam foram com frequência tomados por mulheres. E vários grandes compositores, incluindo Mozart e Strauss, escreveram papéis masculinos para ser cantados por mulheres trouser roles (papéis masculinos interpretados por mulheres). Um dos mais bem-sucedidos transgêneros europeus cantores de ópera é Arian Angelico, norueguês de 35 anos que manteve sua voz de mezzo-soprano após a transição, em 2016, tornando-se um dos poucos homens especializados em trouser roles.

De início, testosterona não parecia ser uma opção para Madagame. Registrado como mulher na certidão de nascimento, ele se mudou para Berlim após graduar-se em canto na Universidade de Michigan. Mas as coisas não estavam saindo como havia planejado. “Fiquei deprimido e não conseguia cantar”, lembra. “Eu sabia que era coisa de gênero, mas não queria admitir isso.”

Nessa altura, ele havia investido anos de trabalho duro para se tornar mezzo-soprano. Uma nova voz poderia pôr tudo a perder. Stephen West, um de seus professores em Michigan, disse que não tinha ideia do que poderia acontecer. Stephen lembra-se de Madagame como um mezzo excepcional.

Cantores de ópera apostam em suas vozes amplificadas com meio de vida e passam anos aperfeiçoando a técnica – e assim, tendem a desconfiar de qualquer coisa que possa abalar ou ameaçar a voz. Mas Madagame havia se tornado tão infeliz que decidiu enfrentar o desconhecido. “Resolvi que, se não estivesse cantando, e a única razão para não tomar testosterona é que queria cantar, então eu simplesmente tomaria testosterona.” 

Após as primeiras doses, o timbre da voz, colorido e com ressonância, começou a mudar. “De início, não era o alcance da voz em si que estava caindo, era como se os sobretons estivessem baixando.” Então, veio um período em que a voz ficou instável. “Não tinha mais uma voz de canto”, disse Madagame. “Fiquei aterrorizado e pensei: E se eu continuar assim?” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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