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Artistas renascem e brilham no Copa Fest

Festival no Copacabana Palace comprova a eternidade de gênios

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2013 | 02h16

RIO - Por três dias, um grupo de meninas menores de 15 anos berrou indomavelmente em frente ao Hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. Qualquer sombra que se movimentasse na sacada de um dos quartos com frente para a orla era recebida com uma onda de gritos doze oitavas acima do suportável que vinha da calçada, entrava pela recepção, passava pela piscina, tomava o elevador e invadia os apartamentos do charmoso hotel de 90 anos de idade. Era emoção demais.

Um festival dentro do Copa apresentaria Wagner Tiso pilotando seu lendário grupo Som Imaginário, Raul de Souza soprando um dos mais respeitáveis trombones do mundo, e Max de Castro fazendo até os garçons dançarem com o Sabadabadá do esquecido arranjador Erlon Chaves. Emoção que não queria dizer rigorosamente nada para as meninas em frente ao Copacabana Palace. Seus clamores eram para o hóspede de uma suíte presidencial que, se os ouvidos de Raul de Souza não lhe traíram quando ele saiu tranquilamente para almoçar pela porta principal do hotel, vinham em forma de Justin Bieber.

Justin estava lá, apenas como hóspede de luxo durante sua temporada de shows no Brasil. Mesmo na noite em que esteve em São Paulo, no sábado, suas fãs gritaram por seu nome em frente ao hotel. O garoto não era uma atração do Copa Fest por razões de, digamos assim, linguagem. O festival do produtor Bernardo Vilhena tem investido, nos últimos seis anos, na categoria pesos pesados da música instrumental brasileira. Já teria seu valor se fosse apenas revisionista, mas as noites têm deixado um aroma de novidade mesmo em apresentações de grupos que existiram há 40 anos, como se estivessem sendo lançados agora.

Uma reflexão que coloca saia justa em boa parte da própria produção contemporânea, expondo seu conservadorismo não por incompetência, mas por sua quase impossibilidade de renovação. Se o Som Imaginário já fazia o que fazia há 40 anos, criando um gigante de cinco cabeças que falava três línguas ao mesmo tempo sem enrolar nenhuma delas (rock, jazz e música sinfônica), o que resta para a ousadia?

Se Dorival Caymmi já criava uma obra complexa que andava de bermudão e sandálias nos anos 50, digna de ser canção de ninar e, ao mesmo tempo, virar jazz nas mãos do pianista Tomás Improta, onde foi parar a riqueza das simplicidades? E se Erlon Chaves, enterrado como indigente há 40 anos, faz um baile inteiro dançar e pedir bis, que a morte lhe dê um indulto de Natal e Erlon faça o favor de descer já.

Foram três noites ouvindo algo que parecia ganhar brilho também por questões geográficas. Um efeito equivalente a ouvir BB King em Chicago ou Chucho Valdés em Havana. Faz diferença experimentar tudo aquilo a poucos metros de onde viveu Dorival Caymmi, que Improta valorizou tão bem com suas versões de Canção Antiga e O Bem e o Mar; e a alguns quarteirões do berçário do pós era do rádio chamado Beco das Garrafas, que tirou as fraldas do samba jazz de Raul de Souza antes de entregá-lo ao mundo. Se o festival fosse na Barra, o gosto já seria outro. A produção só poderia vender melhor esta ideia em seu plano de comunicação.

Wagner Tiso esteve com o um dream team que, segundo o próprio, pode lançar disco com material inédito em breve, tamanha a empolgação do grupo. O Som Imaginário, formado em 1969 para acompanhar Milton Nascimento, mas que terminou por ficar bem maior do que isso, tem a guitarra de Victor Biglione (que tinha Fredera na formação original) sempre no ataque. É quando o Som Imaginário vira rock progressivo.

Sua função parece ser a de trazer as intenções sinfônicas de Tiso de volta para a Terra, não deixá-las voar demais. Tavito faz violão de aço e as vezes de Zé Rodrix (da formação original, morto em 2009), cantando, por exemplo, Casa no Campo. Os outros são Robertinho Silva na bateria, Luizão Alves no baixo e Nivaldo Ornelas no sax e na flauta.

A sexta foi ainda mais generosa em quantidade. Abriu com o pianista Tomás Improta dando tratamento instrumental à obra de Dorival Caymmi. Improta escolheu canções que não estavam na vitrine, como Horas (de arranjo sublime), Rua Deserta e Cantiga de Cego, e mostrou que trabalhou sério em sua preparação. Era tudo muito cuidadoso, delicado, sem notas desperdiçadas. A seu lado estava um grupo de talento, sobretudo na voz de Virgínia Rodrigues (se Caymmi fosse mulher, teria a sua voz), e na percussão iluminada de Bingo Araújo.

Raul de Souza tem um baixista que toca muito e com o corpo todo (Glauco Solter), um guitarrista de domínio absoluto de seu fraseado (Mario Conde), um pianista virtuoso e sensato (Fabio Torres) e um baterista prodígio (Serginho Machado). É um absurdo o que ele ainda faz com o trombone em quase duas horas de show. "Eu e João Donato somos os pioneiros da música instrumental, começamos tudo no Beco das Garrafas", diz, com voz de Louis Armstrong. O souzabone que mandou fazer, um trombone em dó com quatro válvulas, ainda é uma estrela. Há mais de dez anos que Raul o apresenta como um convidado especial. Sempre funciona. E A Flor e o Espinho, de Nelson Cavaquinho, é o instante em que a plateia parece ter ciência de que está ali testemunhando um momento histórico.

Max de Castro fechou a edição no sábado. Escolheu homenagear um artista que precisa passar pelo mesmo processo de exumação artística ao qual o próprio pai de Max, Wilson Simonal, foi submetido na última década. Erlon Chaves, arranjador e maestro de pegada soul dos anos 60 para os 70, morreu em 1974, aos 40 anos de idade, depois de ser perseguido pelos militares por uma apresentação ao lado de loiras que o beijavam no palco. Sua obra começa a ser descoberta por gente nova e vem com força.

Max o trouxe com um pegada de palco que vence muitas vezes a assepsia datada de alguns de seus temas em disco. Ao vivo, o som de Erlon (pelas mãos de Max) fica poderoso, gordo e dançante. É um baile de gafieira, funk, samba e samba rock que Erlon parecia criar sempre com ouvidos de estrangeiro.

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