Arrigo, Lacaz e Rescala dedicam ópera à Semana de 22

Aplausos, latidos, vaias, uivos, ganidos e escândalos. Foi o que recebeu, há 80 anos, o primeiro módulo da Semana de Arte Moderna, voltado para as áreas de pintura e escultura. Reunida no Teatro Municipal, a elite paulistana ouvia o diplomata Graça Aranha discorrer sobre os princípios da "nova arte", de caráter nacional e oposta ao academicismo. Configurava-se, assim, um dos principais eventos da história cultural brasileira. Oito décadas mais tarde, entre os concertos e as exposições que marcam o aniversário da Semana de 22, o Sesc Ipiranga encomendou aos compositores Arrigo Barnabé e Tim Rescala e ao artista plástico Guto Lacaz uma ópera que relembra aquela revolucionária programação, seus personagens e o contexto em que ela se inseria.Com estréia prevista para o dia 28, 22 antes e depois, como foi batizada a composição, dá continuidade ao projeto Pocket Opera, do Sesc Ipiranga, que apresenta espetáculos de pequenas proporções, feitos para repensar o conceito da ópera tradicional. E o musical está em consonância com essa proposta: Arrigo ressalta que 22 antes e depois não é uma ópera no sentido tradicional, tanto no que diz respeito à estrutura formal quanto ao texto. "Mais do que contar a história da Semana de 22, o espetáculo pretende ser uma celebração, quase que uma ópera-happening", diz o compositor."Nossa intenção é celebrar a Semana e seus reflexos na arte brasileira", completa Tim Rescala. Por causa dessa opção, Guto Lacaz explica que a concepção cênica do espetáculo foi montada não de forma linear, "mas no sentido de recriar um ambiente interpretado com boa dose de liberdade cronológica e histórica".Dessa forma, no processo criativo, referências diretas a estilos e artistas foram descartados. A história da Semana é recontada por três personagens que pensam e refletem sobre ela 80 anos depois da polêmica provocada por seus organizadores. Arrigo e Rescala ressaltam que a criação musical, por exemplo, não se espelhou no estilo de composição de nomes como Villa-Lobos, figura-chave na parte musical da Semana e autor de obras consideradas na época "aglomerados de sons sem nexo, de ruídos e estrondos". "Nossa intenção não é reproduzir, mas sim recriar", explica Rescala. Pesquisa - Arrigo acredita, no entanto, que de alguma forma essas referências podem aparecer, não como citações ou aproximações de estilo, mas como fruto do tempo de pesquisa feita antes do início do projeto. Lacaz lembra que, após a primeira reunião, realizada após o Sesc ter-lhe dado o sinal verde (desde o início de 2001, Arrigo já havia sido sondado sobre o projeto, mas os trabalhos só começaram no fim do ano), os artistas dividiram o trabalho de pesquisa. "Reunimos um grande material bibliográfico e decidimos que o Tim e o Arrigo iriam pesquisar a poesia e a música da época, enquanto eu me preocuparia com o levantamento sobre as artes plásticas."A partir de então, cada um passou a buscar as características e os fatos que mais lhes chamavam a atenção e que iriam compor o universo retratado na ópera, o espírito a que se refere Arrigo. Para Guto Lacaz, há vários pontos que precisam ser discutidos, como o fato de a Semana surgir em conseqüência ao que ele chama de "modernismo econômico". "Há também outros elementos, como o paradoxo que reside no fato de que um movimento importado buscasse a construção de uma identidade nacional", diz.Já Tim Rescala ressalta o espaço existente e o gosto por um debate estético que, hoje, ele acredita, "seria bastante difícil". Arrigo destaca a ausência de um critério específico para a Semana, a falta de unidade estética. Os três, porém, fazem questão de ressaltar que o espírito da Semana, da busca por um novo horizonte estético e do espaço para novos artistas, são alguns dos ensinamentos que estão no centro da questão e que, ainda hoje, influenciam - ou poderiam influenciar - a produção artística nacional.

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