Arrigo Barnabé relança clássicos em CD

Quando Clara Crocodilo foi lançado, de forma independente, em 1980, a música brasileira sofreu um abalo. Misturando dodecafonismo, serialismo, rock and roll, jazz, e gêneros brasileiros, Arrigo Barnabé e sua trupe de músicos revelaram um direcionamento musical até então inexplorado no Brasil. Mas, 20 anos passados, são poucos os que se lembram do tal ocorrido. Por isso, Arrigo, por meio do selo Thanx God, dele e de Carlos Careqa relança em novembro dois de seus álbuns apenas editados em elepê: Clara Crocodilo e Tubarões Voadores. Ambos foram remasterizados e ganharam qualidade digital. "Masterizamos na Companhia de Áudio. Ficou ótimo o som. Clara melhorou bastante. Uns 30 ou 40%. E o Tubarões, que já era bom, ficou ótimo". A distribuição está a cargo da gravadora Eldorado.Aos 49 anos, continua mantendo a postura revolucionária. Mas já não se preocupa com que dirão público e crítica. Seu último trabalho é uma peça erudita para quarteto de cordas, dois pianos, três percussionistas e banda de rock. Adora ser vanguarda. Do tempo que cantou na noite paulistana, em meados dos anos 80 e início dos 90, restou o álbum Façanhas e as lembranças da crise existencial que o arrebatou em 1994. Época na qual quase largou a música. Em 1998 lançou Gigante Negão, peça escrita há dez anos que estava perdida. Ano passado, uma versão ao vivo de Clara Crocodillo. Pretendia ter lançado a original e a nova versão ao mesmo tempo. Não conseguiu em 1999, mas este ano sim. Também tem feito trilhas para peças de teatro e filmes. Na sede da gravadora Eldorado, na sala de visitas, ouvindo a sinfonia ininterrupta da máquina de café, Arrigo Barnabé conversou com a Agência Estado.O trâmite legal para republicar os discosClara Crocodilo foi produzido de forma independente e depois foi negociado com a Aryola, que mudou de nome para Polygram e depois foi comprada pela Universal. "Tentei licenciar junto à Universal, pedi que eles liberassem o Clara no ano passado, mas eles estavam em auditoria interna e não me atenderam". O meio encontrado foi criar o selo Thanx God. Acertaram com a Eldorado a distribuição. "O disco ficou tanto tempo sem ser relançado porque não interessava para a gravadora". Para Arrigo, eles não têm uma política cultural, encaram a coisa como se fosse um simples produto. "Eles lançam de acordo com a conveniência deles. O intuito é ganhar dinheiro". Redescobrindo Clara CrododiloLançado em 1980, e esgotado rapidamente, o disco foi muito pouco ouvido pelas novas gerações. "Espero que esse relançamento recupere essa lacuna". Arrigo quer que redescubram o trabalho, mas não cria grandes espectativas. "Eu não tenho mais saco para ficar indo atrás de divulgação de rádio e de televisão. Ficar dando murro em ponta de faca. Já cansei disso", desabafa. Vai lançar, fazer o seu trabalho. E fará tudo isso de acordo com as proporções do selo. "Não dá para a gente contratar um monte de divulgadores". Na primeira prensagem irá tirar 3 mil cópias de Clara Crocodilo e outras 3 mil de Tubarões Voadores. Quando em vinil, Clara... teve uma tiragem de 50 mil e Tubarões de 30 mil. "É um número significativo". Parece que restaram poucos. Não é fácil de encontrar em sebo. E se achar, é preciso desembolsar um bom dinheiro. "Virou relíquia", brinca.Acredita entretanto que o público hoje é muito mais receptivo do que em sua época. Admite que seria um bom momento para as coisas acontecerem. "Antes diziam que não era música. Acho que agora, de repente pode acontecer". Nascimento de Clara CrocodiloA parte musical de Clara nasceu antes. Quando surgiu não tinha nome. O compositor e seu parceiro Mário Lúcio fizeram a música em Londrina. O ano: 1972. Trabalhavam em módulos seqüenciais. Cada faixa teria vida própria e múltiplas possibilidades de serem arranjadas. Foi nas férias, Arrigo estudava em São Paulo e Mário em São José. "Começamos nas férias em janeiro, voltamos para a escola e em julho concluímos". Coube a Arrigo escrever a letra, algo que não gosta mais de fazer. No princípio não havia a narração que veio a ser gravada no disco. "Essa narração toda fui eu que fiz", conta. Alem de Mário Lúcio Cortes e Arrigo Barnabé, Neusa Pinheiro, autora de um único verso, assina a canção. Se é que pode-se chamar Clara Crocodilo de canção. "A gente apresentou pela primeira vez lá em Londrina, num show chamado A Boca do Bode", relembra. Narração e falas do discoClara Crocodilo abre com uma narração. "São Paulo, 31 de dezembro de 1999, falta pouco, muito pouco....". "Essa narração eu fiz só para o vinil", conta Arrigo. "Eu nunca fiz isso em show". Segundo ele a gravação original é a que está no Ao Vivo. Na qual registra a data em que foi realizado o concerto. Mas ele explica: "em 1980, quando entrei em estúdio, achei que não ficaria legal por a data exata. Iria ficar 28 de setembro de 1980. Estranho, não é? Então pensei em mudar a narração". Projetou para o futuro e introduziu determinadas nuanças sonoras que produzem um sensação de distanciamento. Como se o som estivesse saindo pelas caixas amplificadoras e se transformando em uma pessoa na frente do computador. "Tinha também aquela coisa de ser o ano 2000. Agora vamos pegar o reveillon de 2001". A versão Ao Vivo"Eu queria fazer essa gravação nova. Eu queria trabalhar mais detalhadamente a música", afirma o compositor. A idéia era reescrever os arranjos. Sentia que na primeira vez fez um trabalho limitado, "porque eu era limitado escrevendo". Tinha também a questão dos músicos, que foram os que estavam disponíveis e não exatamente os que queria. "Precisava ter mais metais e não tinha", rememora. "Tinha que contar com a boa vontade dos músicos porque ninguém ganhava nada para tocar". Estética"Nós conversávamos sobre essas fusões de música popular com música erudita". Buscavam algo como o que George Martin tinha feito com os Beatles em Sgt. Peppers... . Também o que Rogério Duprat fez com os tropicalistas. "Nós éramos muito curiosos. Estávamos toda hora procurando alguma coisa, e ouvindo, tinha aquela inquietude grande. Fruto da época também". "Lembro de quando encontrei um disco do Miles Davis no Centro Cultural Brasil Estados Unidos. Totalmente Free Jazz. Coisas do Dave Brubeck que ele tinha feito para trio de Jazz, orquestra e percussão indiana". Eram essas fusões que interessavam aos amigos Arrigo e Mário. Conheceram também a música erudita contemporânea. Stockhousen, Luigi IX, os compositores japoneses. "O que fascinava a gente no entanto era a idéia das misturas, que tornavam a música mais palatável". "Quando ouvi falar do Egberto Gismonti, que era um cara de formação erudita que colocou uma música no Festival, fiquei muito feliz". Novos projetosPretende no ano que vem gravar um trabalho só de canções. As mais significativas da carreira como Londrina e Um Distante. Dividirá as atenções com Tuca Guimarães e o Quinteto Delas. "Cinco lindas meninas, que fazem um trabalho maravilhoso". Está esperando uma posição do estúdio do Sesc da Vila Mariana. "Se conseguir gravar lá, lanço em abril ou maio do ano que vem".

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