GAL OPPIDO/DIVULGAÇÃO
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Arrigo Barnabé grava com mulheres na banda O Neurótico e as Histéricas

Quarteto feminino inclui Maria Beraldo, Mariá Portugal, Anna Trea e Ana Karina

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

25 de maio de 2015 | 05h00

De repente, em um amanhecer de 1980, todas as formas estavam desfeitas. Não se sabia mais se era rock proguessivo ou música erudita contemporânea, se o novo pop ou o velho underground, a ponta da tal linha evolutiva da música brasileira ou sua quebra. Espatifaram o ritmo e drogaram a harmonia. Seu mundo era tão alucinante que jamais sentia-se a melodia das canções. Havia letras e até amor, mas a tensão era maior e sem a poesia das rimas que os ouvidos pediam. Nem Bossa Nova nem Tropicália. Homem nenhum apareceu para reivindicar a paternidade da criatura naquele amanhecer de 1980, quando o álbum Clara Crocodilo chegou às lojas. Inominável e genial, aquela era a música de Arrigo Barnabé.

Clara Crocodilo se tornaria a pedra fundamental de mais um contexto do que um movimento surgido nas ruas de São Paulo nos anos 80, que passaria a ser chamado de vanguarda, a Vanguarda Paulistana. A mesma guarda de Itamar Assumpção, Premeditando o Breque, Grupo Rumo e Tetê Espíndola. Arrigo, o mais radical e teórico desta desconstrução de formatos, surgiu definitivamente com o álbum de 1980 e se manteve pelos 35 anos seguintes como o mesmo londrinense que preferia o susto à convenção, o veneno ao antídoto.

Aos 64 anos, Arrigo ainda dorme com os crocodilos. O convite de um festival de música de vanguarda no Chile em 2013 para levar sua ópera rock o fez reativar o projeto. Ele primeiro sentou-se e reescreveu todos os temas do álbum original. Depois, escalou os escudeiros Mário Manga (guitarra), Paulo Braga (piano) e mais quatro mulheres: Ana Karina Sebastião (baixo), Mariá Portugal (bateria e voz), Maria Beraldo (clarinete e voz) e Joana Queiroz (sax tenor e voz). O show foi feito outras vezes, uma delas em formato instrumental.

O som chegou à produtora musical Isabel Ribeiro e os répteis viveram sua terceira encarnação. Depois da origem de 1980 e de uma reedição em 1999, o projeto passou por um tratamento que o tornou ainda mais vigoroso e foi rebatizado como Suíte Claras e Crocodilos. O disco físico foi lançado na França, onde está sediada a Délfis, selo digital de Isabel, e colocado para venda na internet. Ainda não houve acordo com distribuidoras para o lançamento do CD no Brasil.

Antes de despertar os crocodilos, Arrigo já andava com as quatro ninfas que migraram para seu grupo revisionista. Elas estão com ele desde 2013 no que pode ser chamado de um projeto paralelo e às avessas do que representa Clara Crocodilo. Enquanto Clara é a briga de foice, O Neurótico e As Histéricas é a lua de mel. Arrigo e seu quarteto feminino cantam composições do professor e músico Hermelino Neder. Um projeto de canções, ainda que cheias de deboche e ironia, mas com tudo no lugar, redondo e bem humorado. Seis músicas já estão gravadas e o disco deve ser lançado no próximo semestre.

Uma terceira frente, a do compositor de abordagens ainda mais contemporâneas, será colocada em ação em novembro. Ele foi convidado pelo Teatro São Pedro para a abertura de uma noite que terá dois momentos: o primeiro, com a encenação de sua “ópera psicanalítica” O Homem dos Crocodilos, escrita em 2001. E o segundo, nada mal, com Édipo Rei, de Igor Stravinsky, apresentada pela primeira vez em 1927.

Os três Arrigos estão em um só. Antes de ter qualquer certeza na vida, ele ouviu o Allegro Barbaro, de Béla Bartók, e viu a luz. “Senti aquela transgressão e pensei, ‘isso eu posso fazer’”, recorda. Ao mesmo tempo em que sorvia dos eruditos, dos experimentais e do free jazz, ficou atento à movimentação na música brasileira formal, de Edu Lobo, Chico Buarque, Milton Nascimento e Tom Jobim. Atentou-se às ideias do maestro Rogério Duprat e leu Augusto de Campos falando de atonalismo e evolução da música brasileira na obra O Balanço da Bossa. Se Gilberto Gil e Caetano Veloso criavam música sob a batuta de Duprat unindo linguagens clássicas e populares na Tropicália, algo que George Martin havia feito com os Beatles, o próximo passo seria a amálgama do erudito contemporâneo com a música popular. Os ouvidos estariam sendo preparados para o grande momento mas, quando o mar se abriu, só Arrigo encorajou-se a atravessá-lo.

O grande momento talvez nunca tenha chegado, mas sua música abriu a última comporta que poderia inviabilizar as possibilidades de uma criação. “Eu acho que existe sim um antes e um depois aí”, diz ele, desajeitado. Mesmo durante a Vanguarda Paulistana, algo que diz nunca ter sido um movimento coordenado, foi ele o único a operar no caos. “Itamar Assumpção trabalhava com gênero, Luiz Tatit (do Rumo) trabalhava com gênero e o Premê também. O único que não usava estrutura nenhuma de canção, com raras exceções, como a valsa Londrina, era eu”. A revisita a Clara Crocodilo é prova da vitória de sua linguagem. Ao mesmo tempo em que segue inclassificável, Arrigo Barnabé, graças à própria transgressão, nunca mais será chamado de maldito.

Instrumental dá três passos à frente e 'Clara' ganha pressão

Regravação de 'Clara Crocodilo' 35 anos depois comprova: a ação do tempo é incapaz de corroer sua capacidade de assombrar

Arrigo pode parecer louco mas não é bobo. Sua reedição de Clara Crocodilo necessitava de uma formação à altura do Sabor de Veneno, o grupo original de 1980. Ele então se cercou primeiro de quem já falava sua língua, o pianista Paulo Braga e o guitarrista e outro estilista da Vanguarda como integrante do Premê, Mario Manga. Resolvidos piano e guitarra, duas das maiores encrencas, apostou no que estava dando certo em seu projeto paralelo, as meninas do Neurótico e as Histéricas.

As reescrever e regravar Clara Crocodilo, fez a parte instrumental dar três passos à frente, ganhando em pressão e abrangência de comunicação. Boca da Noite, Maridinho Adorado, Sabor de que, é como se tivessem sido criadas ontem, tamanho o frescor das gravações.

A embriaguez de sua estrutura é aparência. Tudo só funciona tão bem e se torna tão contagiante porque as coisas estão em seu devido lugar. Cada solo, cada convenção de baixo e bateria, guitarra e piano, todos ao mesmo tempo. A viagem é controlada pela escrita e quase não há espaços para improvisação.

Seria muita tensão se não fosse o relaxamento. E para se divertir tocando Arrigo deve ser uma saga. Depois de ouvi-lo, parece haver uma fase de prática e ensaios exaustiva até que chegue o dia de sorrir enquanto os dedos fazem o trabalho duro. E então, ressurge Clara Crocodilo, uma experiência transformadora feita em algum tempo que a música ainda não atingiu.

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