Arquivo de Jacob do Bandolim é digitalizado

Músico, que morreu há 45 anos, deixou acervo precioso, com mais de 5 mil registros de áudio e 1.500 partituras

Lucas Nobile, Especial para O Estado de S. Paulo

11 de agosto de 2014 | 18h56

Em 1967, em entrevista para TV, Jacob do Bandolim falou sobre um tema que lhe tirava do sério: a modernização do choro. “Uma das coisas que temo é que hoje os chamados modernos se metam em choro. Já em 1953, no jornal O Tempo, dei entrevista afirmando que, no máximo em dez anos, portanto em 1963, o choro já estaria morto”, disse o bandolinista. “Falou em choro, mexeu no meu calo. Esse negócio vai ser uma briga, estou avisando. Não vão fazer com o choro o que fizeram com o samba, porque vou para praça pública”, completou.

Nascido em 1918, Jacob Pick Bittencourt criou uma linguagem, seguida até hoje, para o instrumento que lhe rendeu o eterno apelido artístico, mas caiu na armadilha de se fechar contra a evolução das experimentações, criticadas e classificadas por ele como “inflexões jazzísticas”.

Se neste aspecto o chorão se mostrava extremamente conservador, por outro revelou uma faceta que lhe colocava muito à frente de seu tempo: a de colecionador. Ainda em 1955, quando a tecnologia era precária, Jacob comprou dois gravadores e passou a documentar a produção musical nacional.

Nesta quarta, 13, dia em que se completam 45 anos da morte do compositor e instrumentista carioca, o Instituto Jacob do Bandolim dá uma notícia animadora. Os 122 rolos magnéticos do acervo do bandolinista, que resultaram em 5.366 arquivos de áudio, tiveram sua digitalização concluída e serão disponibilizados para o público.

Todo o material será entregue no próximo mês ao MIS do Rio, que, desde 1974, abriga a Coleção Jacob do Bandolim, com cerca de 6 mil partituras deixadas pelo músico. A solenidade de entrega, em 6 de setembro, na Sala Baden Powell, no Rio, contará também com show comemorativo de 70 anos do bandolinista Déo Rian, o discípulo mais próximo de Jacob e atual presidente do instituto que leva o nome de seu mentor.

O acervo, que o instrumentista armazenava em sua casa, em Jacarepaguá, é composto por raridades da música brasileira. Além de registros do próprio Jacob tocando, há entrevistas feitas por ele com personalidades como Elizeth Cardoso e Orlando Silva, programas históricos nas rádios Nacional, Tupi e Mayrink Veiga, apresentações de orquestras regidas por Radamés Gnattali, Guerra Peixe e Lindolfo Gaya, festivais de música e programas com O Pessoal da Velha Guarda, com Pixinguinha, Benedito Lacerda e Raul de Barros, entre outros, sob comando de Almirante.

Obcecado pela preservação da memória brasileira, Jacob não gravava eventos ligados apenas ao choro e à música instrumental. Prova disso é que o acervo traz gravações curiosas, como a transmissão da Rádio Nacional feita pelo locutor Jorge Cury da final da Copa do Mundo de 1958, entre Brasil e Suécia.

“As pessoas conhecem o Jacob instrumentista e o Jacob compositor. Agora vão ter a dimensão dessa sua terceira faceta, a de preservador, que talvez tenha a mesma importância que as duas anteriores para a música brasileira”, diz Sergio Prata, coordenador-geral do projeto de digitalização do acervo e vice-presidente do Instituto Jacob do Bandolim.

O instituto foi criado em 2002, após campanha do produtor e compositor Hermínio Bello de Carvalho para que o arquivo de Jacob, que começava a se deteriorar, fosse preservado. Em 2004, foi firmado termo de colaboração entre o IJB e o MIS, e começou a digitalização “bruta” do material, sem catalogação, em trabalho que levou dois anos.

No fim de 2012, o projeto foi contemplado pelo programa de incentivo Petrobrás Cultural, tornando possível que a digitalização fosse finalizada, com a identificação completa de informações como evento, data e músicos participantes. O processo, realizado do início de 2013 até agora, resultou em um catálogo com cerca de 300 páginas.

Instituto acha e digitaliza documentos pessoais

Além da digitalização dos mais de 5.600 arquivos de áudio gravados pelo autor de clássicos como Noites Cariocas, Assanhado e Vibrações, o Instituto Jacob do Bandolim também revelou a descoberta de 1.508 documentos pessoais do compositor que ainda não faziam parte da coleção do MIS.

O material, que também foi digitalizado e será entregue ao museu, é composto por fotos, correspondências e partituras. “Isso é um tesouro. Jacob foi um arquivista do choro e da música instrumental”, diz Déo Rian. “Convivi com ele de 1961 até 1969. Na parte musical, ele era muito tradicional. Mas você vê que no disco Vibrações ele já queria modernizar, melhorar a parte da harmonia, mas sem descaracterizar”, completa o presidente do IJB.

Outro bandolinista da velha guarda e seguidor da tradição de Jacob é Izaías Bueno de Almeida, que considera “fundamental Jacob ter tido aquele espírito de pesquisa”. “As partituras não eram editadas naquela época, só editavam música clássica e as mais populares, como tangos, boleros. Ele passou tudo aquilo para o papel e gravou muita coisa naqueles rolos por iniciativa própria”, comenta o chorão paulistano.

Bandolinistas de gerações mais recentes, como Hamilton de Holanda, que amplia os limites do instrumento para além de gêneros e estilos, também ressaltam a importância do legado de Jacob. “Isso que ele deixa não tem preço, é de um valor inestimável”, afirma Hamilton. 

“Hoje, eu acho que ele estaria tocando na mesma linha que tocava, mas músicas como Remelexo e Assanhado já tinham uma tendência jazzística, não sei se ele seria tão radical como naquela época”, completa o compositor.

Em relação ao acervo de Jacob, surpreende o fato de não existir sequer uma imagem do bandolinista em movimento. Há alguns anos, o Instituto Jacob do Bandolim oferece uma recompensa de R$ 2 mil para quem encontrar um vídeo em que apareça o músico. “Ele gravou programas em quase todas as TVs brasileiras. Veja que ironia da vida. Logo o Jacob, que era obcecado por preservação, não restaram imagens dele em movimento”, diz Sergio Prata. 

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