Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

Arnaldo Cohen e Antonio Meneses tocam juntos primeira vez

Pianista e violoncelista fazem apresentação com a Osesp 

João Luiz Sampaio, Especial para o Estado

15 Março 2015 | 03h00

 “Como é que dizem? Treino é treino, jogo é jogo”, brinca um bem-humorado Arnaldo Cohen pouco depois de deixar o palco da Sala São Paulo, na tarde de sexta-feira. O pianista chegava de mais um ensaio com o violoncelista Antonio Meneses. Os dois estão entre os principais instrumentistas do País, mas jamais haviam dividido o palco. A primeira vez será na tarde de hoje. “Nunca dá para saber o que vai acontecer durante uma apresentação, mas é especial a sensação de ter encontrado um parceiro musical como ele, um companheiro com quem é possível compartilhar a música.”

Cohen e Meneses ensaiavam um contato há anos, mas esbarravam em problemas de agendas. Até que, há três ou quatro anos, voltaram a falar seriamente do assunto. A trajetória dos dois, em certo sentido, é bastante parecida. Ambos rodaram - e rodam - o mundo como solistas requisitados; entendem a música de câmara como um repertório fundamental (o violoncelista integrou o Trio Beaux-Arts e o pianista trabalhou com o Quarteto Amadeus); e, fora do palco, se dedicam sistematicamente à atividade pedagógica: Meneses dá aulas na Suíça, e Cohen, após atuar durante anos na Royal Academy e no Royal Northern College, na Inglaterra, hoje é professor vitalício na Universidade de Indiana (EUA).

“O fascinante com a música de câmara é que não basta juntar bons músicos”, diz Cohen. “Você pode ter 28 Jascha Heifetz no naipe de violinos de uma orquestra e isso não significa que eles saberão tocar bem, em conjunto. É preciso haver algo em comum no modo como se entende a música, uma atitude parecida com relação ao fraseado, às dinâmicas, às articulações. É uma questão até mesmo de pulso, de pulsação. O maestro Lorin Maazel me chamou atenção para isso certa vez: a pressão sanguínea, o batimento cardíaco, tudo isso interfere no seu movimento”, completa. 

O recital de hoje ao lado de Meneses integra a série de câmara da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e marca o início de um ano de parceria estreita de Cohen com o grupo, do qual é artista em residência em 2015. Já na semana que vem, por exemplo, ele volta ao palco da Sala São Paulo como solista do Concerto para piano e orquestra nº 1 de Tchaikovsky, sob regência do maestro Kristian Järvi. E, ao longo da temporada, fará novos concertos, além de realizar masterclasses para jovens pianistas. 

Mas a relação de Cohen com a Osesp já é antiga, iniciada ainda durante a gestão do maestro John Neschling à frente do grupo, com quem ele gravou os dois concertos para piano de Liszt; em seguida, registrou também os quatro concertos para piano e orquestra de Rachmaninoff, lançados no Brasil pela Biscoito Fino. “Para mim, ser artista em residência significa colocar uma lente de aumento em uma atividade isolada. É como um amigo que você vê uma vez por ano e com quem você passa a ter mais contato. Mas acho particularmente interessante que, na verdade, a relação se dá entre um pianista e um coletivo. A Osesp não é a orquestra apenas, são as pessoas que aqui trabalham, os músicos, o público, a Sala São Paulo, toda uma ideia de música. Estou, portanto, me relacionando com um coletivo. E, como um coletivo não fala, você vai ter que acreditar apenas na minha versão dessa história”, brinca.

Arnaldo Cohen tem uma trajetória ímpar. Seu início na música se deu com o violino, ainda que desde cedo se interessasse pelo piano, instrumento da irmã. Atuou como violinista na Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, fez o curso universitário de engenharia e, para complementar a renda, dava aulas de matemática e física em cursinhos pré-vestibular. Aos 20 anos, resolveu virar pianista. Especialistas - e ele próprio - dirão que começou tarde, mas o que aconteceu depois serve como uma excelente exceção à regra. Após se formar nos dois instrumentos, e ter aulas individuais com o pianista Jacques Klein, partiu para a Europa, onde ganhou um dos maiores concursos internacionais, o Busoni, na Itália. 

A carreira internacional logo tomaria fôlego, inclusive com a possibilidade de um contrato com o selo Deutsche Grammophon, que ele recusou, considerando ainda não ter atingido a maturidade suficiente para gravar. No final dos anos 1980, início dos 1990, começou a parceria com o Amadeus, “uma pós-gradução da pós-gradução, um convívio de constante e enorme aprendizado”, período em que ampliou ainda mais o seu repertório. “Em certo sentido, ter tocado violino antes do piano foi um enorme aprendizado, uma grande escola na hora de fazer música de câmara”, diz.

A atividade múltipla como solista, recitalista e professor, em um primeiro momento, gerou certa ansiedade em Cohen. “Quando se é jovem, o foco é querer atuar como solista, ganhar dinheiro o suficiente para poder se manter com tranquilidade, vivendo da sua arte. Em um contexto como esse, ser professor era um conceito difícil para mim.” Mas isso mudou. “Hoje, concilio todas essas coisas porque me dei conta de que trabalhei muito nelas individualmente e isso se reflete na minha trajetória. Estou me sentindo muito mais à vontade e tem sido uma escolha de vida diminuir o número de recitais solo, assim como limitar minhas apresentações com orquestras a um número determinado por ano. Este é um momento muito feliz”, ele diz. E ressalta: felicidade é poder escolher. “E ter a possibilidade de dizer não.” 

Como professor, a eterna descoberta

Arnaldo Cohen trabalhou como professor dos dois lados do Atlântico. A princípio, atuou na Inglaterra, dando aulas na Royal Academy of Music e no Royal Northern College. Até que, no início dos anos 2000, após um recital e uma série de masterclasses oferecidas na Universidade de Indiana em Bloomington, recebeu o convite para ser professor vitalício, cargo que começou a ocupar em 2004 (entre os colegas de Cohen na instituição estão nomes centrais do ensino do piano, como o norte-americano Menahem Pressler). Por conta disso, tem uma visão privilegiada do contexto atual de preparação dos alunos. E cabe a pergunta: como eles, aspirantes a estrelas, mudaram nas últimas décadas? Um momento de silêncio. E então a resposta. “Não sei como eles mudaram, mas posso dizer com certeza que eu mudei muito.”

“Quando comecei, a minha impressão era muito limitada e eu acreditava que, se você não tem talento suficiente para ter uma carreira, então simplesmente não deve estudar ou tocar. Mas eu não penso mais assim, de forma alguma. Vivemos em um mundo repleto de fundamentalismos e cada vez mais eu me convenço de que a música sempre terá um impacto positivo na vida das pessoas. A arte permite a você desenvolver e descobrir verdades interiores que fazem de você um ser humano e um cidadão melhores. É importante, assim, entender a música como parte da sociedade”, explica ele.

Para Cohen, o ensino de um instrumento é sempre um processo delicado, no qual há riscos que devem ser evitados. “Fazer música requer um talento e uma predisposição individuais e não há maneira de um professor ensinar isso. Da mesma forma, é preciso evitar a todo custo transformar seus alunos em fotocópias suas, o que é muito comum”, ele diz. “Com o tempo, me parece muito claro que a função do professor é tentar ajudar o aluno a descobrir o seu potencial. O que posso fazer é colocá-lo em uma estrada na qual ele poderá se encontrar como artista.”

E esse, diz, é um processo interminável de aprendizado. E a conversa volta para as apresentações em que vai interpretar o Concerto de Tchaikovski com a Osesp, peça que ele já tocou diversas vezes durante a carreira, com várias orquestras mundo afora. “Tento não perder de vista que se trata, sempre, de um processo de redescoberta. Imagine uma paisagem conhecida, um lugar que você visitou algumas vezes na vida. A cada visita, muda a estação, o tempo, há flores ou galhos secos. É um pouco isso que acontece com uma obra musical. Sempre há algo de novo a descobrir, basta ficar atento a uma voz interna que te leva a coisas novas, o que respeita, claro, a sua evolução como artista.” 

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