Arnaldo Antunes se volta para a canção em novo disco

Está com saudade dos Tribalistas? Algumas canções de Saiba (BMG), o novo álbum de Arnaldo Antunes, uma das pontas da tríplice aliança baiana-paulista-carioca que dominou o verão de 2003, servem de alento. A começar pela faixa de trabalho, Consumado, composta por Arnaldo, Marisa Monte e Carlinhos Brown, com este na percussão. Meio toada, meio pop brega, tem clipe dirigido por Monique Gardenberg e é daquelas que grudam no ouvido. Foi composta na França, no intervalo de entrevistas promocionais do trabalho em conjunto. "Tô louco pra fazer um rock pra você/ Tô punk de gritar seu nome sem parar/ ...Fiz uma chanson d?amour/ Fiz um love song for you", diz a letra. Tão tribalista...Marisa aparece em duo com Arnaldo na delicada Grão de Amor, dela e Brown, parecida com aquelas canções do meio do CD do trio. Ela ainda assina com Arnaldo a valsa Areia, que tem sutil arranjo de cordas e teclado. Brown divide autoria com Arnaldo em Elizabete no Chuí, na qual surge fazendo vocal, tocando todos os instrumentos de percussão, teclado e efeitos. "Esses vínculos todos certamente são frutos dos Tribalistas, que de certa forma abriram caminhos para minhas descobertas de novas formas do cantar", reconhece Arnaldo. "No entanto, considero o disco mais um segmento de Paradeiro (disco de 2001 que também tinha Marisa e Brown), coerente com o que eu vinha buscando antes, que é uma tentativa de fazer jus à tradição da canção no Brasil."A faixa-título que abre o CD é daquelas list songs de Arnaldo que relaciona personagens díspares como Simone de Beauvoir e Fernandinho Beira-Mar não apenas pela rima, mas pelo fato de que "todo mundo foi neném" e "vai morrer". Conclusões simplistas complementares a Tudo Vira Bosta (de Moacyr Franco, gravada por Rita Lee). Mais adiante, em Cabimento (dele e Paulo Tatit), Arnaldo canta versos como "hoje eu caibo nesse mesmo corpo que já coube". A Nossa Casa, de ambos com outros cinco autores, vai nessa linha.Por essas abordagens, pelo fato de Arnaldo e Tatit já terem feito outras canções marcantes para crianças e pela capa, com a identificação dos pés do compositor - do lado esquerdo quando bebê, em proporções reais, e do lado direito já adulto, e obviamente reduzido -, tem-se a impressão de que se trata de um jogo infantil. "Não se trata disso, mas talvez tenha influência o fato de eu conviver com crianças. Saiba, por exemplo, canto como canção de ninar para meu filho de 4 anos", diz Arnaldo. "Ia se chamar Canção de Ninar Adulto, mas descobri que esse título já existe. A capa remete ao fato de ser um disco muito pessoal, intimista, tem até as letras escritas à mão."Misto de funk, macumba e drum?n?bass, Elizabete no Chuí é uma das melhores faixas, e a única dançante. Surgiu da percussão de Brown, sem harmonia. A outra pesada do CD é uma versão punk rock do samba A Razão Dá-se a Quem Tem, de Noel Rosa, Ismael Silva e Francisco Alves, que encerra o CD. É da mesma "família" de Judiaria (Lupicínio Rodrigues), e Juízo Final (Élcio Soares/Nelson Cavaquinho), que Arnaldo gravou antes em releituras similares. "É um exercício de intérprete que me agrada, subvertendo o gênero original, mas mantendo fidelidade à canção, que possa soar verdadeira. No caso estão preservadas a agressividade e a ironia da letra."Saiba é o primeiro disco de Arnaldo por um selo independente, Rosa Celeste, que ele criou para lançar seus trabalhos, em parceria com a BMG, que vai apenas distribuir os CDs. "Acho que esse é um caminho bacana. As grandes gravadoras estão todas em crise, crescem as independentes, mas não se pode desprezar o know how que a indústria tem", diz. Com isso, daqui para diante Arnaldo passa a ter controle total sobre os direitos da própria obra. A exemplo de Marisa Monte.

Agencia Estado,

15 de abril de 2004 | 18h45

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.