Arnaldo Antunes lança o CD "Qualquer"

Arnaldo Antunes passou o primeiro semestrecom duas idéias: fazer um disco com sonoridade diferente e tocarcom determinados músicos. Ensaiou dois meses com os violonistasCézar Mendes e Chico Salém, o guitarrista Edgard Scandurra, opianista Daniel Jobim e o baixista Dadi Carvalho e, ao fim,ficou três dias no estúdio para gravar "Qualquer", que acaba dechegar às lojas. É um disco autoral como os anteriores, mas eleinverteu o processo. "Normalmente, parto do repertório para asonoridade. Aqui, eu pensei num tipo de som para buscar asmúsicas. Comecei com umas 40, inclusive do tempo dos Titãs, massó registrei novas ou as que ainda não havia cantado", adianta.Se o som causar um certo estranhamento, ele atingiu o objetivo."Para que ser normal? Deixa isso para os outros." É difícil enquadrar "Qualquer". Não é rock, embora amarca roqueira de Arnaldo Antunes seja indelével. Nem é MPB,pois falta a cozinha de baixo e bateria e os floreios do gênero.Tem um quê de ingenuidade que contrasta com a voz grave, estauma raridade em tempos que valorizam tenores. Não é acústico,embora estes instrumentos predominem, nem é dançante. Asmelodias grudam na memória, mas são difíceis de assobiar. E asletras filosofam sobre o amor e o cotidiano, sem serem históriasou crônicas. O próprio Arnaldo não se define. "Ninguém hoje emdia cabe num só estilo. Como classificar Lenine, Pedro Luiz ouChico Buarque? Talvez eu faça música brasileira moderna, masisso é muito amplo." Uma dica para entender "Qualquer" é a regravação de"Acabou Chorare", faixa-título do elepê com que os Novos Baianosestouraram , no início dos anos 70. "Estava no repertório desdeo início, até pela participação do Dadi, que era do grupo. Euera adolescente quando a ouvi e passei a vida tocando-a em casa,buscando um jeito de regravá-la", comenta Antunes. Mas o quedeterminou o disco foram os músicos, mais que os instrumentos."Uma coisa puxa a outra. O repertório surgiu nos ensaios. ODaniel Jobim e o Scandurra improvisavam o tempo todo. O Cézar eo Chico punham ordem porque a gente tinha de chegar a um ponto.E eu era só mais um elemento da banda." Todas as músicas têm parceria. Com Carlinhos Brown fezquatro, duas também com Marisa Monte. Os três formaram, háquatro anos, Os Tribalistas, que durou só um disco, mas rendeucomposições mesmo quando cada um foi para seu lado. Também mudouo jeito de Arnaldo cantar, mais impositivo nos tempos de Titãs."Para soar potente com o peso daquele som, os tons escolhidospara as músicas eram altos. O desejo era cantar sujo, rasgado,incorporando ruído à voz", escreveu Arnaldo no texto para aimprensa. "Com os Tribalistas senti que devia cantar com maissuavidade. Era muito diferente de me ouvir cantando sozinho eisso me fez aprender muito mais sobre meu próprio canto." Também nesse item, "Qualquer" soa diferente. Aocontrário da maioria dos cantores que insistem nos agudos,Arnaldo desce seus tons e suaviza a interpretação. As músicasconhecidas ficam diferentes da nossa memória. "As Coisas", delee Gilberto Gil, estava em Tropicália II, do início dos anos 90,com que o ministro da Cultura e Caetano Veloso comemoraram os 25anos do movimento que criaram. É a mais roqueira do disco, mastem uma brejeirice longe do passado Titã de Arnaldo. O mesmoacontece com "Eu não Sou da Sua Rua", parceria com Branco Mello,cantor do grupo. Os portugueses Manuela Azevedo e HelderGonçalves, que formam o grupo Clã, entram com duas músicas."Eles são famosos lá e desconhecidos aqui. Vieram passar umasférias e a gente ficava compondo. Numa das vezes, o Chico Salémestava e entrou na música", explica. Dadi fez com ele duas músicas, "Dois Perdidos", para ofilme "Dois Perdidos numa Noite Suja", de José Joffily, e "DaAurora até o Luar", melodia delicada para letra filosófica. É omesmo no clima de "Para lá", parceria com Adriana Calcanhotto.Não por acaso, uma fecha e outra abre o disco. "Não há regrapara fazer letra ou música. Às vezes tudo se mistura." "Qualquer" está na rua e agora Arnaldo ensaia o show queterá, da banda original, apenas Chico Salém. "Todos os outrostêm uma agenda cheia e o Chico toca comigo há muitos anos. Mas osom do show será como o do disco", promete. Quem quiser conferiranote a agenda: terça-feira, Fnac Pinheiros, em São Paulo. Dia20, Sesc Ribeirão Preto; 21, Sesc Catanduva e 22 umaparticipação especial no show de Paulinho Boca de Cantor naConcha Acústica de Salvador.

Agencia Estado,

14 de setembro de 2006 | 18h57

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