Arnaldo Antunes flerta com a Bahia em "Paradeiro"

Paradeiro, o novo disco de Arnaldo Antunes, exprime a "literatura percussiva". A expressão não é exatamente um conceito novo, mas uma constatação verbal de Carlinhos Brown, co-produtor desse trabalho, com o paulista Alê Siqueira. Paradeiro está sendo lançado praticamente três anos depois de Um Som e é o quinto álbum da carreira-solo de Arnaldo.Essa literatura a que se refere o baiano diz respeito ao caráter autoral da composição de Arnaldo, que, segundo Brown, deu uma nova direção para a instrumentação percussiva nacional. "É um disco que, além de demonstrar quanto a linguagem percussiva brasileira é importante no contexto da música popular por sua evolução nos últimos tempos no País, ganhando as mais diversas cores, reflete uma criação ajustada a esse movimento progressivo. É a percussão escrita, que está tanto na música eletrônica, super-forte em São Paulo, quanto nos nossos tambores ancestrais. Isso tudo possibilita a ele um diálogo pleno com o mundo, com os centros e as periferias", analisa. "Além de poeta, Arnaldo é percussionista. E não entramos nessa história como se juntássemos o cara do rock ao cara do batuque. A diferença é, sem pretensão, a presença dessa miscigenação intrínseca."Em Paradeiro, a relação de Arnaldo e Brown estreitou-se. São mais parceiros, mais amigos. Entretanto, isso não anula a personalidade de autor de Arnaldo. "Acho que, em Paradeiro, a minha linguagem desabrocha. Nesse trabalho tenho plena identificação com essa musicalidade que venho perseguindo e encontro parte dela em Brown", afirma. No disco, ele toca em quase todas as faixas. Como analisa Hermano Vianna, autor do texto de apresentação de Paradeiro, nesse caso, "a beleza da canção pop pode residir sobre um terreno movediço de ritmos baianos e paulistanos ao mesmo tempo."E pode residir na imagem, como no caso do filme Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzki, no qual a sua composição pop pontua a história, agrega emoção à dramaticidade e até torna-se a palavra do personagem principal.Pop, sim senhor! - Paradeiro, como ressalta Arnaldo, é um trabalho com referências dentro do universo pop, de compreensão direta. Não houve ambição além do status musical. Mas como todo artista de alma inquieta, teve a preocupação de inserir novas informações. A liga instrumental talvez seja uma novidade. Essa consistência se deu por meio da combinação de seus parceiros músicos de Sampa como Edgar Scandurra, Zaba Moreau, Paulo Tatit, Guilherme Kastrup, Guga Stroeter e Fábio Tagliaferri, com a arregimentação de Brown, composta por um time de instrumentistas soteropolitanos. Isso ocorreu em Salvador, onde a produção foi realizada.O deslocamento da produção põe em evidência uma outra característica de Paradeiro, retratada especialmente na canção de mesmo nome composta por Arnaldo, Brown e Marisa Monte. "Ele naturalmente carrega consigo o passeio por diferentes paisagens. É como se as composições fossem o pano de fundo para viagens. Os referenciais espaciais são mais elásticos e podem estar num plano imaginário, irreal, assim como algo mais palpável", analisa. "Quando me aproprio dos sons das ruas em determinadas músicas, é um pouco desse exercício de imaginação que acabo propondo." Isso ocorre na canção Do Vento (dele, Tatit e Sandra Perez), que tem o som do vento na vidraça de um apartamento.Mais sereno e melódico, Arnaldo permite-se reler Exagerado (Cazuza, Ezequiel Neves e Leoni). É o único cover. Além do poema Luzes, de Paulo Leminski, Arnaldo gravou apenas músicas inéditas criadas por ele e outros parceiros. "Para mim, foi uma atitude corajosa. Eu tinha desejo de cantar uma música de Cazuza, poeta da minha geração pelo qual tenho grande admiração. Porém, justamente por ser da minha geração e ter sua obra também relacionada ao rock, como eu, a negação é natural. Sinto que o amadurecimento está também aí." A canção é a única de arregimentação simples, voz e violão. Com charme, ele incluiu os ruídos vespertinos do Candeal à sua versão bossa de Exagerado. Arnaldo chega em 2001 seguro de si no pop.

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