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Arnaldo Antunes fala sobre o seu ‘Acústico MTV’

Cantor se rodeou de jovens para revisitar os 30 anos de carreira em projeto que vai ao ar hoje

Pedro Antunes - Jornal da Tarde,

03 Maio 2012 | 13h09

Envelhecer, a canção, diz muito sobre o Arnaldo Antunes. Registrada no seu disco Iê Iê Iê, de 2009, foi composta com Ortinho e Marcelo Jeneci, músicos e amigos de gerações mais recentes. A faixa flerta com uma musicalidade de Jovem Guarda e encara a chegada da idade com um bom humor sacana e jovial. Não poderia ser mais Arnaldo: irônico, sarcástico, divertido.

“Ser eternamente adolescente nada é mais démodé / com uns ralos fios de cabelo sobre a testa que não para de crescer /Não sei por que essa gente vira a cara pro presente e esquece de aprender /Que felizmente ou infelizmente sempre o tempo vai correr”, canta o músico, ex-Titãs e ex-Tribalistas.

São 30 anos de carreira e, numa comemoração torta, ele revisita as três décadas no projeto Acústico MTV, que vai ao ar hoje, às 20h. CD e DVD chegam nas lojas no dia 10. Torta, sim, porque, segundo Arnaldo, o fato de completar três décadas de carreira junto com o lançamento do disco é mera coincidência.

Prestes de completar 52 anos, Arnaldo não esconde a idade, não foge do passado e “não vira a cara pro presente”. Olha para frente – apesar de manter o corte de cabelo sem costeletas, ostentado entre idas e vindas desde os anos 80. Mesmo que não queira, é uma espécie de padrinho de uma geração nova, do já citado Jeneci (tecladista e acordeonista da sua banda) e Curumin (baterista).

Ao lado do fiel escudeiro, Edgard Scandurra, dois anos mais novo, ele faz o que Gilberto Gil e Jorge Ben Jor fizeram com ele. “Acho que isso é um reflexo do meu interesse. Sou muito curioso. Existe uma necessidade de renovação, de buscar novos parceiros e afinidades”, conta ele, por telefone, no ônibus a caminho de Lavras, em Minas Gerais, na última sexta-feira.

Não por acaso, os trabalhos com Titãs, Tribalistas e carreira solo, foram todos reformulados, como o formato acústico pede. Envelhecer fecha o DVD como a 22ª canção. Arnaldo não fica parado no tempo, nem pensa em voltar. O presente e o futuro são mais interessantes, mesmo que os cabelos não parem de cair e que a testa não pare de crescer a cada ano.

O Acústico MTV vem em um momento de comemoração de 30 anos de carreira. Foi proposital?

Na verdade, não. Poderia ser com 28 anos ou 32. Foi uma grande coincidência. Fiquei dez anos nos Titãs e 20 em carreira solo. A MTV gostaria de voltar ao formato e achei uma ótima oportunidade de reler a carreira.

Os seus 30 anos de carreira obviamente coincidem com as três décadas dos Titãs. Eles já te chamaram para uma pequena turnê comemorativa?

Sim, eles já me ligaram. Serão 3 ou 4 shows juntos. Vamos ver.

Por falar nos Titãs, foi o Acústico deles, de 1997, que redefiniu o gênero. Você já tinha saído da banda, mas fez uma participação. O que o motivou para voltar a esse formato, com um projeto só seu?

É muito bacana. Costumo dizer que ele é um teste de resistência das canções. Se elas sobrevivem a um formato acústico, é porque elas são realmente legais. É um trabalho intenso rearranjar tudo.

Você tem produzido em larga escala: em 2009, lançou o Iê Iê Iê e o projeto Pequeno Cidadão; no ano seguinte, veio o Ao Vivo Lá em Casa; ano passado, foi a fez do Curva da Cintura, com o Scandurra; agora chega o Acústico...

Cara, eu sou meio workaholic, eu gosto, não sei explicar. Meu ritmo é muito diferente. Tem gente que lança um disco a cada cinco anos, outros que lançam mais de um por ano, como os Beatles.

Por falar em Iê Iê Iê, você percebe que esse disco foi um ponto marcante na sua trajetória recente?

Não tenho esse olhar crítico e diferenciado. Vejo o meu trabalho crescendo aos pouquinhos. E esse disco teve uma característica interessante, que foi voltado a um gênero, a Jovem Guarda. Teve uma conquista de público, talvez.

E ele mostra um Arnaldo Antunes diferente daquele que criou Pulso e O Que, do Cabeça Dinossauro (celebrado álbum dos Titãs, de 1986). Você costumava dizer que gostava de causar um estranhamento. Essa ideia ainda o impulsiona?

Faz parte da minha natureza criativa. O Pulso e O Que têm esse lado mesmo, que buscam uma originalidade um pouco fora do que as pessoas estão acostumadas, mas que também almejam fazer sucesso e situar-se dentro da música pop. O Acústico dá a oportunidade de ver que, apesar da minha marca pessoal, as canções têm nuances: são construtivistas, outras mais líricas, mais comportamentais, por aí vai.

O Acústico MTV também desencava canções que o público não costuma ligar a você, como Alma, uma música sua e do Pepeu Gomes, mas que foi gravada pela Zélia Duncan. Você sentia a necessidade de mostrar a sua cara nessa música?

Queria revelar para algumas pessoas, não são todos que sabem. Queria dar a minha versão. É algo que eu também já vinha fazendo nos meus discos, mas é que nos trabalhos de estúdio, temos essa ansiedade de mostrar material novo, inédito. Acho que o Acústico é um formato melhor para releituras.

Envelhecer, faixa que fecha o Acústico, traz, num sentido mais explícito, a percepção de que os anos estão passando. Você encara o passar dos anos com naturalidade?

É uma preocupação natural, né? (risos). Fiz essa música quando eu estava chegando aos 50. É quando você percebe a idade, começa a pensar sobre como é envelhecer, pensa na morte, na perda de amigos.

Bom, você passou dos 50 e está próximo dos 52. Algo mudou?

Ainda penso nestas coisas que a música diz. São questões sobre as quais reflito diariamente.

Nas entrelinhas, a canção mostra alguém que envelhece sem medo do novo, certo? É o retrato de um músico que foi gravado por Gilberto Gil e Jorge Ben Jor quando jovem, e que agora retribui o favor com Jeneci, Moreno Veloso e Nina Becker (artistas que fazem participações especiais no disco)?

Eu tenho na banda essas duas coisas, os mais antigos, como o Edgard (Scandurra), que é da minha geração, e mais novos. Fui me aproximando do Curumin (bateria), do Chico Salém (violões), o Betão Aguiar (baixo) e o próprio Jeneci (teclados e sanfona). Eu não tenho essa coisa geracional. Tudo vai além da questão da idade. Acho que isso é um reflexo do meu interesse. Sou muito curioso. Existe em mim uma necessidade renovação, de buscar novos parceiros e afinidades. 

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