Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Arnaldo Antunes adota sonoridade intimista em novo disco

'O Real Resiste' conta com dez faixas gravadas ao lado de músicos como Daniel Jobim

Renato Vieira, O Estado de S. Paulo

06 de fevereiro de 2020 | 06h00

Em setembro, Arnaldo Antunes completa 60 anos de vida. Ele ainda não sabe se fará uma comemoração especial para marcar a data. O ato da criação já é motivo de festa, seja quando ele faz músicas sobre a grandeza de seus ídolos ou que tratam de questões que lhe incomodam. 

Depois de um disco em que misturou samba e rock, RSTUVXZ (2018), ele lança um álbum com sonoridade intimista, O Real Resiste, seu 12.º trabalho solo de estúdio. Disponível nas plataformas digitais a partir desta sexta-feira, 7, o álbum conta com dez canções formatadas por Arnaldo com um grupo fixo de músicos - Cézar Mendes no violão de nylon, Daniel Jobim no piano, Dadi na guitarra, baixo e ukulele e Chico Salem na guitarra e violões.

Arnaldo conta que, no novo disco, quis deixar de lado o peso do ritmo do trabalho anterior para se aproximar ainda mais da gênese das canções. Ele compara a sonoridade de O Real Resiste à de Qualquer (2006), que também apresentava uma economia instrumental. 

A origem do disco são as parcerias de Arnaldo com Mendes. Inicialmente, o cantor e compositor pensou em fazer O Real Resiste apenas com o violonista e Daniel, neto de Tom Jobim. Depois foram chamados Salem e Dadi, que também colaboram com ele há anos.

Com dez faixas, o disco trata das diversas realidades ao redor de Arnaldo, passando por amor, morte e críticas de teor político. A música que dá nome ao álbum “expressa a perplexidade diante do cenário que a gente vive”, define Arnaldo. “Miliciano não existe/ Torturador não existe/ Fundamentalista não existe/ Terraplanista não existe”, afirmam trechos da letra. “É espantoso ver pessoas defendendo a tortura, a ditadura, a censura. Pra mim é muito chocante. O sentimento que me levou a fazer a música é que isso não pode ser possível. Há uma normalização da mentira. O real que resiste são as pessoas da sociedade que cada vez mais têm que se manifestar”, diz Arnaldo, que também fez uma música para celebrar João Gilberto.

O ícone da bossa nova, morto no ano passado, ficou próximo a Mendes nos últimos meses de vida. “Cézar disse que a gente precisava fazer uma música para homenagear o João. Ao mesmo tempo que fiquei preocupado pela responsabilidade, me seduziu a ideia de fazer uma letra falando dele”, lembra Arnaldo. Mendes mostrou a música, intitulada João, para o próprio homenageado, que aprovou. “Quis abrir o disco com ela porque João é fundador de uma nação”, explica o artista.

Assim como apreciou João, música feita em sua homenagem por Arnaldo Antunes e Cézar Mendes, é provável que João Gilberto também pudesse gostar das delicadezas instrumentais de O Real Resiste. O trabalho não tem nenhum tipo de programação eletrônica, percussão ou bateria – apenas piano e instrumentos de corda. 

Arnaldo afirma continuar fiel ao disco como conceito sonoro e temático, com a possibilidade de que as faixas dialoguem entre si. “Tenho um apego com a ideia de álbum. Sempre gostei mais dos discos originais do que de coletâneas. A ordem do disco tem um sentido. Os artistas que estão surgindo no tempo digital não têm esse apego tão presente”, observa ele, apontando que O Real Resiste, que foi gravado em um estúdio rodeado de animais e natureza em Piracaia, no interior de São Paulo, é um retrato de várias realidades que observa.

No ano passado, Arnaldo foi até o Acre para visitar a aldeia dos índios iauanauás, onde passou seis dias. “Foi muito lindo ver a cultura deles, medicina, música, foi um aprendizado de convivência.” Lá, surgiram duas músicas do disco novo. A melodia de Língua Índia já existia, mas a letra foi feita na viagem. Quando compôs Dia de Oca, Arnaldo mostrou a canção para a tribo, que cantou junto. “São maneiras de valorizar a cultura indígena, que deve ser defendida.”

A família de Arnaldo está presente no disco. Com a mulher, a artista plástica Márcia Xavier, ele assina Luar Arder e a amorosa De Outra Galáxia. Celeste, filha do artista, participa de Na Barriga do Vento, uma canção de amor de pai para filho nascida nos animados camarins da turnê dos Tribalistas. 

Enquanto se preparava para um show, ele ouviu os músicos Pedro Baby, Pretinho da Serrinha e Marcelo Costa fazendo uma música. Carlinhos Brown veio depois, deu algumas ideias e Arnaldo fez a letra.

Ele também aproveitou para gravar pela primeira vez uma canção que fez nos anos 1980, quando fazia parte dos Titãs. Arnaldo achou que Devagarinho não cabia nos álbuns da banda. Quando a cantora Illy pediu ao cantor e compositor músicas para incluir no disco Voo Longe (2018), Devagarinho finalmente saiu da gaveta. Depois de um remix intitulado Devagarinho 2.0, em que Illy juntou Arnaldo e Baco Exu do Blues – que Arnaldo destaca entre os talentos da nova geração –, o compositor quis fazer uma versão própria.

Termo Morte tem origem em um antigo poema de Arnaldo, que fez algumas modificações na letra para musicá-lo. “Venha de repente/ imperceptível/e me leve o mais rapidamente possível/esse é o nosso termo, morte”, canta o artista. Perto de chegar aos 60 anos, em setembro, ele conta que a ideia da morte vai se tornando mais presente. “A música é uma reflexão sobre a maneira de morrer. Mudei um pouco a ordem dos versos do poema, Quanto mais a gente vive, mais perto da morte a gente está. Tenho a expectativa de uma boa morte. Que seja de um jeito que eu não fique penando, esperando muito, que eu esteja com saúde.” 

Onde É Que Foi Parar Meu Coração?, outra música em parceria com Mendes, entrou em O Real Resiste. Arnaldo conta que, por ser um samba, teve dúvidas se ela tinha a ver com o conceito do disco, mas achou que era uma boa opção para ser a última música do álbum.

Em novembro, uma edição do programa musical Alto-Falante, exibido pela estatal TV Brasil, não foi ao ar. Segundo funcionários da emissora, a atração foi suspensa justamente por veicular o videoclipe da música que dá título ao disco de Arnaldo. “Autoritarismo não existe/ sectarismo não existe/ xenofobia não existe/ fanatismo não existe/ bruxa fantasma bicho-papão/ o real resiste/ é só pesadelo, depois passa”, diz a letra da canção. 

A TV Brasil alegou que cancelou o programa para a entrada de flashes sobre a final da Copa Libertadores da América, entre os times Flamengo e River Plate.

Arnaldo conta que ficou sabendo da história por meio das redes sociais. “É uma TV estatal, qualquer música que confronte pode se esperar uma reação. Acho que é uma forma de censura, mas é possível ouvir a música por outros meios. Ainda existe espaço para a gente contestar as coisas. A música é uma perspectiva otimista de dizer que a vida e nossa capacidade de se indignar resistem”, afirma ele, que vê com descrença a posição do governo federal em relação à cultura. 

Nas próximas semanas, Arnaldo Antunes inicia a turnê de O Real Resiste acompanhado apenas por um pianista, formato inédito em sua carreira. Por enquanto, não há datas previstas para São Paulo, mas nas apresentações ele vai misturar músicas do novo trabalho a outras canções marcantes da carreira, como Socorro, Vilarejo e Lua Vermelha

Márcia Xavier assina o cenário e as projeções do show, que também contará com poemas. “Não sei ainda se vou comemorar os 60 anos, não tenho muito plano para isso. Vou comemorar fazendo coisas, sempre”, conta Arnaldo, que ainda em 2020 deve lançar um novo livro de poesias.

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