Arctic Monkeys promete e entrega o paraíso aos fãs

Banda vitamina seu som com elementos do R&B e do velho garage rock e o resultado irresistível ensandece 30 mil no Anhembi

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2014 | 09h27

A cada 2 ou três anos, chega algum insolente com gomalina no cabelo, casaco de couro, dedo em riste para o horizonte e uma quebrada nos quadris e os fiéis erguem os olhos para o céu e exclamam: "Chegou o Messias, o rock'n'roll está salvo!". Esse é o turno do Arctic Monkeys, o salvador da vez, cuja homilia conduziu 30 mil pessoas pela neblina fria do Anhembi, na noite dessa sexta-feira,14.


"Nós somos os Arctic Monkeys, de Sheffield, Inglaterra", anunciou o cantor Alex Turner. Impressionante reparar como o grupo britânico conseguiu uma proeza rara com AM (2013), seu disco mais recente: engajar na devoção ao ataque de guitarras e uma cozinha tradicional de baixo e bateria uma legião de fãs que estaria mais à vontade num show de Bruno Mars ou Beyoncé. Isso tudo se deu com a mera adição de um tecladista ao quarteto, Tom Rowley (pinçado do grupo Dead Sons), que dispara o som da "máquina de lavar" mecânica para entrelaçar o rock dos garotos. Meninas e meninos de 16 anos reverenciam a pose de "Elvis de concurso de cassino" do vocalista Alex Turner como se saudasse uma nova coreografia do One Direction.


Já na primeira música, Do You Wanna Know?, com uma qualidade de som impecável, telões de altíssima resolução, muita imagem propositadamente retro (em preto & branco clássico), a disposição da banda era entregar o bom e velho rock em embalagem presumivelmente adolescente, ou "adolescente fosforescente", para brincar com o nome de uma canção deles. Foram reverentes até aos suecos do Hives, que os precederam: fizeram uma brincadeirinha instrumental com Hate to Say I Told You, dos rapazes de Estocolmo. 


Em seguida, em português, Alex Turner anunciou: "Vou contar para vocês a história de uma menina chamada Arabella", e emendou seu hit romântico homônimo que quase trouxe abaixo o sambódromo. Alex tem o apoio dos vocais do baterista Matt Helders, que é o combustível mais pesado da banda, incansável desde seus primeiros shows em 2006, hoje mais roliço e desglamourizado que seus parceiros. O guitarrista Jamie Cook, com terno de risca de giz, parece saído de um set de filme do Martin Scorsese, e Nick O'Malley, o baixista, está irreconhecível hoje com sua barba bíblica, parece músico da banda do Devendra.


A neo-idolatria em torno dos rapazes provocou algumas brigas na plateia (na área VIP, quatro rapazes de lábios ensanguentados foram conduzidos para fora da arena) e excessos da segurança. Parece que os Arctic Monkeys deram um novo vigor à atitude de groupies e hooligans do rock. Em 21 canções, de Do You Wanna Know? até R U Mine?, fizeram um show acelerado que alguns até acharam curto, mas que foi bastante consistente em representação de seus discos.


Antes deles, The Hives fez a sua festa mambembe de sempre, com um falastrão vocalista, Pelle, conduzindo a plateia com seu rolo compressor de ironia e esganiçamento em hits como My Time is Coming e Tick Tick Boom. A banda de apoio dos Arctic Monkeys não podia ter sido melhor escolhida.

Tudo o que sabemos sobre:
Arctic Monkeysmúsicarock

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.