Arctic Monkeys é da turma dos renovadores do rock

A organização do Curitiba Rock Festival confirmou esta tarde que estão em negociações os shows dos grupos Arctic Monkeys, a nova sensação inglesa, e dos americanos do Black Rebel Motorcycle Club. Eles deverão se apresentar da próxima edição do festival, entre 20 e 21 de maio. O grupo Arctic Monkeys tornou-se uma sensação na Europa mesmo antes de ter um disco lançado, por conta de uma corrente de fãs da internet. No entanto, o Arctic Monkeys e o Black Rebel Motorcycle Club não serão as maiores atrações da mostra. Há um grupo histórico do rock dos anos 70 e 80, reagrupado recentemente, que deverá vir ao festival (Jotabê Medeiros).O que há de tão extraordinário nos Arctic Monkeys para você se sentir um completo mané se ainda não os tiver escutado? Salvadores do rock, subversivos da indústria fonográfica, maiores poetas da língua inglesa deste Shakespeare? Bem, se a expectativa for esta, lamento informar que o álbum Whatever People Say I am, That?s What I?m not - ?o que quer que as pessoas digam que sou é o que não sou?, título bastante modesto, dada a badalação em torno destes quatro rapazes de Sheffield, Inglaterra - será decepcionante.Se, contudo, você se aproximar do lançamento nacional da Trama em busca de mais uma banda representativa do renovado rock britânico, companheira de jornada para Franz Ferdinand, Kaiser Chiefs, Bloc Party, Hard-Fi, Futureheads, Maxïmo Park, Paddingtons e Editors, entre outros, aí sim, o seu deleite estará assegurado. Porque, se embarcar na expectativa criada pela imprensa inglesa (e não só ela) em torno dos Arctic Monkeys, traduzida na venda recorde de quase 120 mil (no primeiro dia) e não muito menos de 400 mil (na primeira semana) cópias (só na Grã-Bretanha, of course), a gente idealiza tanto, investe tanto a própria carência, que banda alguma suportaria tal cobrança.Alex Turner (voz e guitarra), Jamie Cook (guitarra), Andy Nicholson (baixo) e Matt Helders (bateria) fazem excelente rock´n´roll. Embora possa-se escavar camadas de influências até chegar aos Beatles e aos Rolling Stones, passando por Clash, Police, Smiths, Stone Roses, Oasis, aquelas que de fato informaram o som da banda formada em 2003 foram as contemporâneas de quem seus membros tiravam músicas, enquanto aprendiam a tocar as guitarras que ganharam dos pais no Natal do ano anterior: Libertines, Strokes, White Stripes, Vines... Nesse sentido, sim, os Arctic Monkeys demonstram personalidade para quem literalmente aprendeu a tocar há tão pouco tempo: soam como eles mesmos.Numa equilibrada resenha publicada na revista inglesa Mojo de março, na qual conferiu quatro das cinco estrelas possíveis a Whatever People Say I am, That?s What I?m not, Johnny Sharp escreveu: ?Parece que eles estão quebrando as regras da composição pop porque nunca se importaram de aprendê-las primeiro.? Este frescor é que faz com que haja, no CD, um bocado de harmonias estranhas, quebras inesperadas e iluminações poéticas, sem perda do senso melódico, coisas das quais o single que, depois de muito auê na internet, entrou na parada britânica logo no primeiro lugar, em outubro do ano passado, é o exemplo mais bem acabado: o já clássico I bet You Look Good on the Dancefloor.Além da melodia cativante, o refrão diverteO memorável refrão diz: ?Aposto que você fica bem na pista de dança/ Não sei se você está procurando romance ou.../ Eu não sei o que você está procurando/ Aposto que você fica bem na pista de dança/ Dançando eletropop como um robô de 1984.? Antes que alguém leia no último verso uma referência a George Orwell - pois alhures a canção faz, de fato, uma referência tola a Romeu e Julieta, de Shakespeare, e outra a Rio, do Duran Duran - cabe avisar que não existem robôs no romance 1984. Além da melodia cativante, o refrão diverte por causa do choque entre alguém que supostamente fica bem na pista de dança e, ao mesmo tempo, dança como um robô ultrapassado. Uma ode ao charme da imperfeição.I bet you look good on the dancefloor não é a única música bacana do CD de estréia dos Arctic Monkeys. Dancing Shoes, Still Take You Home, Riot Van, Mardy Bum e A Certain Romance também são. Pode-se até dizer que todas as 13 faixas são interessantes em sua energia gentil. Ouço você ponderar: ei, um álbum no qual quase metade das faixas é ?bacana? e todas são ?interessantes? não configuraria, por si só, algo de ?extraordinário?? Só se a gente não tivesse escutado nada da Grã-Bretanha nos últimos dois ou três anos. Os primeiros discos dos nomes alistados no segundo parágrafo deste texto - no caso do Franz Ferdinand, os dois primeiros discos - trazem um punhado de músicas muito, muito boas.Extraordinário mesmo é o retrato que uma colagem das melhores dentre estas músicas todas faz da Grã-Bretanha do século 21. Um único álbum que contivesse tanto I bet Your Look Good on the Dancefloor quanto, por exemplo, ?I Predict a Riot, dos Kaiser Chiefs, Decent Days and Nights, dos Futureheads, ou Cash Machine, do Hard-Fi, valeria por um documentário. É preciso mencionar, ainda, o não-roqueiro Mike Skinner, mais conhecido como The Streets. Em comum com as bandas, o orgulho de cantar o sotaque britânico, a simplicidade de se vestir como um jovem britânico, não como um rapper americano. Longe de se sentir oprimida pelo passado, esta garotada desfruta alegremente de suas lições.

Agencia Estado,

18 de abril de 2006 | 19h47

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.