Jotabê Medeiros/Estadão
Jotabê Medeiros/Estadão

Arcade Fire instaura uma rave irresistível no Lollapalooza

Canadenses exertam eletrônica e efeitos, além de novo conceito cênico, em espetáculo que é um destaque imperdível

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

02 de abril de 2014 | 21h37

O grupo canadense Arcade Fire traz para o Lollapalooza Festival, sem sombra de dúvida, seu show mais grandioso. É o mais eufórico, de envolvimento mais festivo e imediato da parte da plateia, com momentos engenhosos (como na hora em que falsos músicos interagem com a audiência enquanto os de verdade ficam ocultos). Com a adição de dois percussionistas, um toque meio Olodum, eles abrem com a batida disco da canção tema de Reflektor, com um homem espelho que vem caminhando pelo meio do público. É como se fosse um carnaval vienense com um certo acento creole, com seus acordeons, xilofone e rabecas.

Essa "rave" do Arcade Fire tem um responsável, admite o baterista do grupo, Jeremy Gara: o produtor James Murphy (do LCD Soundsystem), que burilou as canções do disco mais recente da banda. "Provavelmente, quando nós o procuramos, já tínhamos 70% do disco pronto. Mas somos grandes fãs do seu trabalho, nós o deixamos inovar, colocar surpresas. Concordo que ficou muito parecido com o que o LCD Soundsystem faz, mas também há canções que estão muito mais próximas do velho estilo do Arcade Fire", disse Gara, em entrevista por telefone ao Estado.

O grupo toca 17 canções no show, incluindo hábeis referências ao som dos colegas que estrelam o Lollapalooza. Há trechos de Temptation, do New Order, no meio de Afterlife, e pedaço de Wave of Mutilation, dos Pixies, no meio de Intervention. Em Sprawl II (Mountains Beyond Mountains), a música eletrônica domina, com execução do remix de Damian Taylor.

"Essa porção teatral do grupo não é uma coisa que foi sendo deliberadamente construída. Quando tocamos ao vivo, sempre exercitamos nosso lado mais extrovertido, mas eu, por exemplo, não tenho esse lado de performer, sou muito tímido. Fico quieto. Os outros não são. Régine (Chassagne, cantora, compositora e tecladista) é muito dramática, tem um lado muito forte de interpretação. Não é uma camisa de força, fazemos aquilo para o qual temos mais inclinação", diz Gara.

Essa fase "carnavalizada" da banda também tem muita influência do Haiti, diz Gara. É a terra natal de Régine Chassagne, e isso está bem representado na música Here Comes the Night Time."Na verdade, todos nós, a banda inteira, tem conexões fortes com o Haiti. Fomos algumas vezes, absorvemos os ritmos, alguma coisa da cultura. É algo muito forte", disse o baterista.

Em Suburbs (2010), disco anterior, o grupo passava por uma fase blasé, com referências a T.S. Elliott e coisas intelectualizadas. Era um desdobramento de Neon Bible (2007), que já enfiava o pé na "profundidade". O disco partia de um livro do escritor John Kenneth Toole, escrito quando este tinha apenas 16 anos. O protagonista era um garoto pobre, David, que crescia como outsider numa cidadezinha do sul americano, tentando desviar da intolerância racial, sexual, social e religiosa. Toole, que ganhou um prêmio Pulitzer póstumo, se matou em 1969.

O Arcade Fire afundava-se nas metáforas meio pretensiosas: Neon Bible era uma metáfora do aprendizado a duras penas, da persistência da criatividade (e do caráter) em condições adversas – sempre adequada à situação de uma banda de rock no show biz.

Mas, agora, o lance é o bailão. O álbum Reflektor é definido pela canção título, que é uma chave para se compreender todo o som e a proposta. É irônica, porque o vídeo mostra um tipo de funeral simbólico, e Funeral (2004) é justamente o nome de seu disco mais festejado.

"O vídeo foi dirigido por Anton Corbijn. Nós não tínhamos ideia de qual era a intenção dele, ele não explicava pra gente o que estava fazendo. A gente apenas filmava e mesmo para nós, do grupo, foi uma surpresa o resultado final. Obviamente, ele não fugiu da ideia da música, que é uma reflexão sobre as contradições do nosso tempo", afirmou o músico.

Querendo ou não, o videoclipe, que é praticamente um preview do que se vê na abertura do show, é uma das pistas para a encruzilhada na qual se postou o Arcade Fire. Em uma das músicas do disco novo, Normal Person, Win Butler, o vocalista, guitarrista e principal compositor do grupo pergunta: "Do you even like rock and roll music?".

Ainda assim, não se trata de um rompimento com o rock, apenas uma exacerbação das pulsões dance da banda. Algo que Win Butler não cogitava em meados da década passada. "Uma boa porcentagem das bandas de rock, quando se apresentam, é uma coisa totalmente sexual. Mas não acho que nós sejamos assim sexuais. Numa noite boa, é mais como o êxtase de Santa Teresa", brincou.

Do êxtase à reverência: há uma participação de David Bowie nos vocais de Reflektor, o que colocou em polvorosa os fãs de ambos. "O engraçado é que tudo aconteceu de forma muito simples. Havia lugar para uma terceira voz e James estava em contato com David Bowie. Perguntamos se ele estava interessado em fazer essa voz e ele veio até o estúdio gravar com a gente. Ele é cool, um gentleman, foi uma honra dividir um estúdio, nem que fosse por alguns minutos, com um cara como ele", afirmou Gara.

O baterista não se recorda bem da primeira vez no País, no Tim Festival, no Rio de Janeiro, em 2005. "Lembro que aconteceu alguma coisa com os Strokes, alguma coisa ruim, uma guitarra que quebrou ou algo assim. Mas lembro mais do mar, o Rio é maravilhoso." Segundo o baterista, embora seja sua primeira vez no Lollapalooza Brasil, ele guarda memórias preciosas do festival. "Nós tocamos em Chicago duas vezes. Foi lá que fizemos um dos melhores shows de nossas vidas. Mesmo quando eu tinha 18 anos, o Lollapalooza já era um festival no qual eu sonhava ir, com aquelas bandas fantásticas e o clima de tranquilidade. Vai ser muito bom tocar no Lollapalooza brasileiro."

Cinco músicas que devem estar no setlist

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