Anton Corbijn
Anton Corbijn

Arcade Fire disfarça pessimismo contemporâneo com sonoridade vibrante em novo disco 'Everything Now'

Banda canadense promove debate sobre a contemporaneidade em sexto disco de estúdio

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2017 | 06h01

O Arcade Fire encerrava a edição do Lollapalooza Brasil de 2014. No final de uma apresentação energética, a banda tocava a música Wake Up, uma canção do primeiro disco dela, lançado dez anos antes e ranqueada pela Rolling Stone norte-americana como uma das melhores do século 21. 

Era o momento mais apoteótico da canção de versos melancólicos, a respeito da entrada na vida adulta e fim da inocência, com os gritos em coro finais de “ôôôôô ôôôôô ôôôôô”. Era uma noite de domingo. 

Do lado direito da plateia (para quem estava de frente para o palco no qual o Arcade Fire enfrentava a multidão), um rapaz teve seu celular furtado, levado da calça sem que percebesse. Buscou o sujeito que havia levado o aparelho, exigiu-o de volta. Com o celular em mãos, ele e um colega são cercados pela turma do ladrão. Levam sopapos e pontapés de todos os lados. No palco, o Arcade Fire continuava com o seu: “ôôôôô ôôôôô ôôôôô”. E soavam apocalípticos. 

Do outro lado, na esquerda, amigos brindavam com cerveja o fim do festival, que naquele ano havia trazido Muse, Phoenix, Soundgarden e Pixies. Cantavam junto com os vocalistas do grupo canadense Win Butler e Régine Chassagne: “ôôôôô ôôôôô ôôôôô”. Soava como uma prece à vida, ao riso. 

As cenas descritas acima – e verídicas, é bom ressaltar – aconteceram ao mesmo tempo. A dor e o gozo. Talvez essa seja a melhor forma de entender a sonoridade agridoce do Arcade Fire, mantida ao longo dos anos, desde o primeiro disco, o fúnebre Funeral (2004) até o novíssimo álbum, Everything Now, que chega às lojas, virtuais e físicas, nesta sexta-feira – passando pelo estonteante Suburbs, de 2010, eleito pelo Grammy como o disco do ano. 

É impossível não ser pego pela vontade de dançar com o tecladinho da abertura Everything Now, faixa que dá nome ao sexto disco do grupo, já lançada como um dos singles. Há quem diga que o Arcade Fire soa como o ABBA, aquele quarteto sueco de sucesso durante a virada dos anos 1970 e 1980, e até torça um pouco o nariz pelo fato de que o grupo canadense esteja se descolando da sonoridade mais estranha e experimental dos primeiros álbuns. Dentro dessa embalagem festiva, o Arcade Fire mantém-se afiadíssimo. 

É uma canção que fala do hoje, como o grupo ainda não tinha ousado fazer. Já haviam debatido sensações de perda, a morte, o coração partido, o distanciamento da realidade, a dor. Nessa música, cantam o consumismo exagerado. E assim eles dão o tom para o que virá a seguir no trabalho. “O que tentamos fazer, em todos os nossos discos, é não nos distanciarmos muito da realidade”, explica Jeremy Gara, o baterista, em entrevista por telefone. “O fato de a banda estar indo muito bem, fazendo turnês pelo planeta, nos possibilita olhar para todos os lados, entender os diferentes pontos de vista. E isso nos mantém seguindo em frente. Não ignoramos o que vemos por aí.” A música Creature Comfort, por sua vez, debate a anestesia com o excesso de informação e, sem querer, garante o baterista, esbarra no tema da depressão, uma preocupação real e atual.

Jeremy o descreve e a seus companheiros de banda, Win Butler, Régine Chassagne, Richard Reed Parry, William Butler e Tim Kingsbury, como ‘esponjas’ de toda a informação que recebem. “E isso, invariavelmente, chega aos nossos trabalhos. Afeta nossas músicas.” Ainda assim, ele garante, o processo é “orgânico” e não planejado quando a banda começa a trabalhar em um novo disco. “Estamos nesse ciclo que, mesmo que não seja muito coordenado, nos coloca para funcionar. Gravamos um disco, fazemos turnê e depois descansamos. Assim seguimos”, ele diz. Dessa forma, a banda mantém uma média de um novo álbum a cada três ou quatro anos. 

Desta vez, o gatilho para a criação foi a nova vida do casal Win e Régine em New Orleans, nos Estados Unidos. “Fomos até lá gravar o álbum. Ficamos todos nós apertados num quarto. O ambiente afeta o nosso som diretamente.” David Bowie, certa vez, disse a Win: “Deixe de se importar com o que vão pensar sobre sua música, faça o que quiser”. “Realmente, não nos importamos com o formato que a música tomará”, explica o baterista. Everything Now é o hoje, com seus choros e sorrisos. Ainda se encaixa na trilha sonora de um brinde ou de uma surra. “O que eu mais amo da nossa banda é ter esse som brilhante e letras sombrias”, conclui. 

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