Aracy de Almeida, a dama do encantando, faz 90 anos

Se viva estivesse, a grande intérprete da música brasileira Aracy de Almeida completaria 90 anos hoje. Conhecida pela geração dos que estão na casa dos 30-40 anos como jurada de calouros em programas de televisão, Aracy de Almeida marcou a música popular brasileira dos anos 30 a 50 do século passado pela delicadeza de seu repertório e por suas interpretações autênticas, seja de marchas ou de sambas. Com sua voz triste e anasalada, Aracy tornou-se conhecida como "O Samba em Pesso". "Aracy era um paradoxo, uma mulher extremamente delicada em seus gostos musicais mas que criou uma imagem pública oposta, uma forma de defesa", disse a cantora Zélia Duncan em recente encontro promovido pelo Museu da Imagem e do Som sobre Aracy de Almeida. Coincidentemente, Zélia Duncan reestréia seu show Eu me transformo em outras hoje no Canecão e promete uma homenagem especial à aniversariante. Zélia volta a se apresentar amanhã, sexta, e vem para São Paulo nos dias 28 e 29 de agosto, no Direct TV Hall. Para Zélia, o maior problema é que a imagem da jurada chata e caricata, difundida a exaustão durante os anos 70 e 80, fez com que a grande cantora fosse esquecida. Aracy de Almeida foi a grande intérprete de Noel Rosa, gravando o compositor da Vila Isabel ainda nos anos 30. Foi Noel Rosa quem lhe deu sua primeira gravação: o samba Sorriso de Criança. Entre suas primeiras gravações estão também clássicos de Noel como Triste Cuíca (em parceria com Hervê Cordovil), Palpite Infeliz e X do Problema, realizadas pela RCA Victor, onde Aracy permaneceria por 18 anos e onde está a melhor parte de sua obra. X do Problema nasceu de uma cobrança de Aracy para que Noel lhe desse uma música original para gravar. Ele fez o clássico rapidamente e entregou a composição escrita, segundo ela, no verso do papel de cigarro de marca Odalisca. Depois da morte de Noel, Aracy voltou a gravá-lo nos anos 50 quando o compositor estava sendo esquecido, apresentando Noel para um novo público. Na onda de Aracy, Nelson Gonçalves chegou a gravar um disco apenas com composições do poeta da vila, em 1956, também pela RCA. Além de Noel, Aracy também gravou os grandes compositores cariocas de sua época como Custódio Mesquita, Ary Barroso, Antonio Maria, Assis Valente, entre outros. No livro Araca, a Arquiduquesa do Encantado, de Hermínio Bello de Carvalho, lançado recentemente, o produtor musical e amigo íntimo de Aracy tenta resgatar a delicadeza da cantora, esquecida na memória popular. O título do livro refere-se ao fato de Aracy ter nascido no subúrbio carioca de Encantado. Araca era como os amigos a chamavam. Hermínio conta que Aracy ouvia Ella Fitzgerald, Bach, óperas ("adoro aquele berreiro", dizia) e lia Augusto dos Anjos. "Ela sempre tinha um presente nas mãos para os amigos. Não era a pessoa intratável que aparentava", conta Hermínio. Entre os amigos de Aracy estavam os pintores Di Cavalcanti e o poeta Mário de Andrade, que descrevia sua voz como "quente e sensual". Ao mesmo tempo, Aracy cultivava hábitos considerados exóticos para a época, como sair pelas ruas vestida de cowboy, usar cuecas ou levantar a blusa e mostrar os seios para os amigos estupefados. Conta a lenda que os seios de Aracy eram lindos. É notório o fato de Aracy de Almeida ter sido uma das únicas artistas que, nos anos 60, apoiaram o tropicalismo e autenticaram seus representantes como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia. Aracy ganhou de Caetano uma linda composição A voz do morto, que gravaria em 1968. Bethânia gravou várias composições de Noel que conheceu através de Aracy. Bethânia conta que, quando chegou ao Rio, saia com Aracy para ver as grandes cantoras em boates cariocas. "Aracy levava sempre uma sacolinha de supermercado", lembra a diva. Em sua apresentação no MIS, Zélia fez um paralelo entre Aracy de Almeida e Cássia Eller, "duas artistas extremamente delicadas mas que utilizaram de atitudes radicais em sua vida pública talvez como forma de autodefesa". "Elas sabiam que eram criticadas pela autenticidade e por isso se defendiam às vezes de forma violenta. Coincidentemente as duas gostavam de exibir os seios, talvez numa forma de afirmar sua feminilidade, mesmo que diferente do normal", filosofa a cantora. Em seu disco e show Eu me Transformo em outras, Zélia presta homenagem a Aracy cantando duas músicas de seu repertório, Eu não sou daqui (Wilson Batista e Ataulfo Alves) e Quando esse nego chega (Haroldo Barbosa). O livro de Carvalho e a homenagem de Zélia Duncan são dois exemplos de como a memória da cantora Aracy começa a ser resgatada. Em seu mais recente trabalho, Saiba, Arnaldo Antunes regravou um dos sucessos de Aracy, A Razão Dá-se a Quem Tem, de Noel Rosa, Ismael Silva e Orlando Silva. Em seu novo disco, Ao Vivo em Tokyo, João Gilberto gravou Louco, marchinha de Wilson Batista que foi sucesso na voz de Aracy. O mais belo trabalho de resgate da obra de Aracy de Almeida está, contudo, no disco Dama do Encantado, de Olivia Byington, gravado originalmente em 1997 e relançado este ano pela Biscoito Fino. O disco é uma viagem pela história do samba brasileiro dos anos 30 e 40 através do cancioneiro que tornou-se popular na voz de Aracy de Almeida. Olivia buscou reunir as várias Aracys em seu disco já que a dama do encantado também gostava de incorporar o estilo de seus compositores. No disco, além do obrigatório Noel Rosa, estão composições de Haroldo Barbosa com Quando Esse Nego Chega e Assis Valente em Fez Bobagem. Olivia também regravou Quando Tu Passas por Mim, a primeira canção de Vinicius de Moraes a ser registrada em vinil em 1955, uma favorita de Hermínio Bello de Carvalho. Aracy dizia que Ary Barroso não gostava dela até o dia em que chegou ao Café Nice, famoso no Rio, e encontrou um bilhete de Ary pedindo que o encontrasse no Cordão do Bola Preta. Lá, Ary entregou a Aracy o clássico Camisa Amarela, cantado lindamente por Olívia. O disco conta com a participação de Chico Buarque na faixa Eu e Você. Destaque fica para a música Último Desejo, - samba de despedida de Cecy, grande paixão de Noel Rosa, com arranjos de Mauricio Carrilho. A velha guarda da Portela faz o coro nos clássicos Com Que Roupa e O Orvalho Vem Caindo, também presente no disco. "Passeei pelas histórias folclóricas da Aracy e me encantei com sua delicadeza de alma, tão distinta da imagem que ficou dela para o grande público", diz Olivia. Assim como Olívia, Zélia Duncan também acredita que são estas ações que trarão de volta a memória da Aracy musical para o público. "Aracy ficou conhecida e marginalizada por conta de suas atitudes. Precisamos lembrar e mostrar sua música", disse. Zélia Duncan - Eu Me Transformo em outras: Hoje, às 21h30; amanhã, às 22h00. No Canecão. Avenida Venceslau Brás, 215 - Botafogo. Telefones (21) 2105-2000, Rio de Janeiro. Dias 28 e 29 de agosto, no DirecTV Music Hall. Avenida dos Jamaris, 213 - Moema. Telefone (11) 6846-6040/6000 (compra de ingressos), São Paulo

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