Rafael Arbex|Estadão
Rafael Arbex|Estadão

Apostas musicais de 2016 vão do folk dançante ao rock experimental

Bandas querem seguir os passos dos goianos dos Boogarins, que se destacaram neste ano

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

29 Dezembro 2015 | 05h00

Nem sempre é fácil fugir do mainstream e apostar em novas bandas de rock, que fazem um som criativo, empolgante, e se destacam não só pela originalidade dos arranjos e das composições, mas também chamam a atenção pela atmosfera sonora que vai além dos riffs primorosos de guitarra. Se, em 2015, vimos o quarteto goiano Boogarins ser projetado internacionalmente com o excelente disco psicodélico Manual ou Guia Livre Para a Dissolução dos Sonhos, em 2016, grupos que já vêm fazendo bons trabalhos devem lançar novos projetos e ter suas carreiras consolidadas, ganhando cada vez mais espaço no circuito musical do País. São nomes que, certamente, aparecerão nas tradicionais listas de apostas musicais para o ano que se inicia.

A banda Atalhos lançou no começo de 2015 o vinil duplo Onde A Gente Mora. Mixado por Mark Howard (Bob Dylan, R.E.M. e Red Hot Chilli Peppers), o álbum mostrou um pouco da pretensão do conjunto formado em Birigui, no interior de São Paulo. Wilco, Neil Young, Levon Helm e Nick Drake são algumas das influências do grupo, que tem nitidamente o folk como fonte de inspiração. As letras são inteligentes e referências literárias podem ser ouvidas por toda a parte. A composição de José, Fiquei Sem Saída, primeiro single do disco, é baseada na obra de Kafka. “As canções de hoje em dia estão cada vez mais curtas. Quando algo não prende a atenção, a pessoa vai lá e pula a faixa. É justamente isso que não queremos. Falta imersão”, afirma o vocalista Gabriel Soares. Violões e gaitas dão o tom e propõem uma verdadeira viagem introspectiva pelas músicas. A banda está trabalhando em um novo álbum, o terceiro. O disco deve ser lançado no segundo semestre de 2016.

Com um folk mais dançante, a banda Francisco, el Hombre, também de São Paulo, passou por momentos difíceis em 2015. Durante uma turnê sul-americana, o grupo foi assaltado em Mendoza, na Argentina. Perderam o carro e todos os instrumentos musicais e ficaram só com a roupa do corpo. O quinteto, no entanto, deu a volta por cima. Com a ajuda de músicos argentinos, eles conseguiram dinheiro e até instrumentos emprestados para concluir a turnê e voltar para o Brasil. Posteriormente, lançaram o EP La Pachanga, que inclui cinco faixas. Uma das faixas, Dicen, traz a parceria com a escritora chilena Francisca Valenzuela. Já Minha Casa, originalmente escrita na África, é a única canção totalmente em português do trabalho. A sonoridade de Francisco, el Hombre agrega misturas culturais de diversas regiões do mundo, principalmente os ritmos latinos de países como Chile e México. Os integrantes da banda chamam a música do grupo de Pachanga Folk, que são, resumidamente, sonoridades regionais latino-americanas cantadas em português e espanhol. “Quando subimos no palco, por exemplo, não tocamos mais como antes. Valorizamos cada segundo e toda a musicalidade de Mendoza está agora inserida no nosso DNA musical”, crava o baterista Sebastián Piracés.

Musicalmente avesso à sonoridade de Atalhos e Francisco, el Hombre, a banda Bratislava aposta em um som mais experimental. O segundo trabalho do quarteto, Um Pouco Mais de Silêncio, tem composições soturnas e introspectivas, embora soe mais pop do que o primeiro álbum, Carne. Canções como Ando Morto e Ruídos externam uma vertente melancólica. Já Vermelho lembra a época de ouro do rock nacional da década de 1980. Um Pouco Mais de Silêncio foi lançado no formato zine interativo. Sendo assim, na internet, além das músicas, é possível participar de experiências online que mostram detalhes sobre as composições da banda. “Acho que o lance de quebrar o tradicional combo vinil e CD ajudou bastante. Em tempos de redes sociais e ferramentas tão formidáveis para divulgar o seu trabalho, vale mesmo tentar fazer diferente. Nossa sonoridade mais experimental dialoga com isso, na verdade”, afirma Victor Meira (vocais e teclados).

Fora da casinha. A música independente vive um grande momento não só no eixo Rio/São Paulo. Atrás dos arranha-céus das duas grandes metrópoles, vários outras bandas se destacam na cena alternativa. Do Acre, o quarteto Os Descordantes faz um som enérgico. O primeiro disco do grupo, Espera a Chuva Passar, lançado na metade do ano passado, traz composições maduras, com batidas fortes e solos precisos. A influência da cultura regional do Acre, como João Donato, é notória. “Nós nunca vamos nos esquecer das nossas raízes. Isso molda nosso som. As canções, no geral, falam sobre decepções amorosas e frustrações da vida”, afirma Diego Torres (voz e guitarra).

Já o power trio de Porto Alegre Dingo Bells é uma das apostas do pop nacional. Influenciado pelo soul e também pelo folk, chama a atenção pelas rimas fáceis e arranjos melodramáticos de muito bom gosto. Formada em 2005 e com apenas um álbum de estúdio na bagagem, Maravilhas da Vida Moderna, a banda é uma das atrações da edição do ano que vem do Lollapalooza Brasil. 

PARA FICAR LIGADO EM 2016

Dingo Bells (Porto Alegre)

Chama a atenção pelas rimas fáceis e os arranjos melodramáticos.

Os Descordantes (Acre)

Composições maduras e um som intenso marcam o disco Espera a Chuva Passar.

Marrero (São Paulo)

Raiva e sentimentos pesados tocados de maneira intensa. É o bom e velho rock'n'roll.

Banda Tereza (Rio)

Lançou em 2015 o consistente disco Pra Onde a Gente Vai. Pop rock de qualidade ao melhor estilo indie hipster.

Conheça as bandas

Atalhos - José, Fiquei Sem Saída

Francisco, el Hombre - Minha Casa

Bratislava - Vermelho

Os Descordantes - Hoje de Manhã

Dingo Bells - Eu Vim Passear

Marrero - Quem Será

Banda Tereza - Não Sei

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