Após recital brilhante na primeira parte, Montero se perde em improvisos sobre Liszt

Pianista venezuelana construi temas para seis improvisos na última quarta-feira

João Marcos Coelho - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2013 | 22h53

Franz Liszt, o inventor da fórmula do recital de piano, nos anos 1830, colocava uma urna na entrada dos locais onde se apresentava para o público colocar papeizinhos com os nomes de seus temas favoritos. Na primeira parte, tocava composições próprias; na segunda, sorteava temas e improvisava sobre eles. Assim nasceram dois terços de sua obra pianística.

Na última quarta-feira, a pianista venezuelana Gabriela Montero fez isso (ela repete o recital no sábado, 21, na Sala São Paulo). Na primeira parte, um recital convencional, em que mostrou por que é considerada uma das grandes pianistas da atualidade, interpretando os três Intermezzi opus 117, melancólicas e densas reflexões de fim de vida de Brahms em 1892; e a monumental Fantasia Opus 17, de Robert Schumann, uma grande sonata “encoberta” em movimento único de mais de meia hora, com enormes contrastes dinâmicos e uma escrita complexa, do ponto de vista virtuosístico. Duas obras-primas, dois triunfos incontestáveis.

Na segunda parte, Gabriela virou um Liszt de saias. Microfone em punho, convidou a plateia a sugerir temas para seis improvisos. Alguém cantou “Se esta rua fosse minha”, e ela construiu uma peça de uns 5 minutos que transportou o pequeno público (menos de meia casa) para meados do século 19. Parecia um Liszt medíocre.

A bela Gabriela é corajosa ao se expor em cena aberta. Mas a moldura de seus improvisos é a música romântica do século 19, com todos os clichês possíveis. Cascatas de oitavas, ostinatos simplórios, demonstrações gratuitas de virtuosismo. Foi vexatório o improviso sobre “espionagem”. Nele caberia qualquer título.

Ainda bem que na sequência pipocaram temas que preocupam os brasileiros desde as manifestações de junho. Um berro de “impunidad” aqui e outro de “corrupción” ali culminaram em alguém cochichando o tema que nos consumiu na última quarta-feira: “Celso de Mello. Devolveu-nos à dura realidade. Mas ela passou ao largo destes pedidos “espinhosos”. Manteve, porém, os lugares-comuns que sufocaram a musicalidade. Nem Gracias a la Vida, de Mercedes Sosa, ou Piazzolla salvaram a noite.

Liszt personificava o astro pop: jogava cordas (seu pianismo as arrebentava no arroubo da performance) para as fãs da primeira fila, que faziam pulseirinhas de ‘recuerdo’ com elas. A diferença entre ele e Gabriela é que, embora às vezes também empilhassem clichês, seus improvisos constituíam música interessante. Gabriela resgata só o gesto. A qualidade musical perdeu-se no tempo.

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