Dick Xavier
Dick Xavier

Após prisão, DJ Rennan da Penha volta à ativa com 'Segue o Baile'

Trajetória do DJ e produtor daria um filme: dos tempos atrás das grades às canções que já fizeram chacoalhar multidões

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2020 | 05h00
Atualizado 17 de julho de 2020 | 14h32

Correções: 17/07/2020 | 11h29

Rennan da Penha completou 26 anos na quinta-feira, 16, mas, recorrendo ao clichê, sua história já daria um filme. Principal divulgador do maior subgênero do funk brasileiro atual –, o 150 bpm –, Rennan Santos da Silva ficou conhecido por produzir o Baile da Gaiola, na Vila Cruzeiro, na zona norte do Rio, que se tornou o maior baile funk da cidade, atraindo até 25 mil pessoas ao local num único dia. O baile serviu como ponto de exploração estética da musicalidade do batidão, e Rennan produziu músicas com Nego do Borel, Ludmilla, MC Livinho e também outros muitos nomes em ascensão, por anos.

Em 2019, ele foi preso, depois de ter sido absolvido na primeira instância, numa decisão contestada e criticada até pela OAB. Durante esse tempo, levou o Prêmio Multishow nas principais categorias e foi indicado ao Grammy Latino. Oito meses depois, foi solto na decisão que contestou prisões julgadas em segunda instância e, no dia seguinte à nova liberdade, assinou um contrato com a Sony Music. Segue o Baile, lançado nesta sexta-feira, 17, é o seu primeiro projeto de peso de uma grande gravadora.

“Estou feliz”, diz o DJ e produtor, por telefone. “É mais uma etapa da minha carreira, mas não só da minha carreira: estamos abrindo portas para que outros vejam onde a gente pode chegar. A gravação de um DVD é uma realização no sentido de representar as minhas origens.”

No DVD, o produtor monta uma seleção de artistas de vários ritmos diferentes: do funk (Livinho, MC Kekel, MC Rebecca, e outros), pagode (Turma do Pagode), pagodão baiano (Parangolé), pop geração Z (Luisa Sonza), brega funk (Thiaguinho MT e JS Mão de Ouro). A busca surge da exploração artística de Rennan, e parte do seu talento é justamente encontrar talentos e atraí-los à sua cabine. “Criamos sons que a rapaziada vai acompanhar”, aposta o produtor.

O funk como gênero sempre foi mais afeito aos lançamentos picados, com singles, músicas soltas que saem para criar vida própria e, quem sabe, virar hit de carnaval e festas no País todo – como Rennan fez, inclusive com algumas músicas desse projeto novo. Mas agora, Segue o Baile chega como DVD e álbum completo. “Sinto que é algo que vão associar ao ‘DVD do Rennan’. Acho que as pessoas vão lembrar do projeto que espero estar marcando uma época.”

Ao recontar sua própria história, Rennan lembra que o funk carioca em “2013, 2014 estava respirando por aparelhos. Não tinha muito baile de comunidade”. Ele conta que os DJs começaram a acelerar as batidas (daí vem o 150 bpm, batidas por minuto, 20 a mais do que o funk tradicional). “O DJ Polyvox começou a produzir nessa batida, e a gente seguiu nessa pegada”, diz.

“O negócio ganhou uma projeção absurda”, reconhece. “Quando o Baile aconteceu mesmo, quando tinha 25 mil pessoas, aí começamos a especular no que ia dar o gênero. Porque imaginamos que o baile ia acabar. A mídia em cima, falando várias coisas, ninguém queria ajudar.” Rennan diz que sentia falta de apoio estatal mesmo. “Se tivesse uma base perto, para apoiar a cultura dentro da comunidade, o negócio poderia gerar muitos empregos, havia 80 barracas. Se a gente conseguisse tornar esses empregos em fixos, gerando renda, pagamento de impostos, etc., seria uma forma de ajudar a comunidade.”

Em abril de 2019, Rennan foi preso após ter sido inocentado em primeira instância por acusações de associação ao tráfico de drogas. Ele foi condenado em segunda instância após recurso do Ministério Público do Rio e teve habeas corpus negado pelo STF. A decisão, tomada com base em provas como uma foto de Rennan com uma cartolina em formato de arma, causou revolta nas redes sociais, entre artistas, defensores dos direitos humanos e foi contestada pela OAB. O músico foi solto em novembro após a decisão do STF que diz que condenados em segunda instância só são presos quando se esgotam todos os recursos.

Quando saiu a decisão judicial da prisão, Rennan disse que já sabia que iria acontecer. “Eu tinha a esperança que ia poder responder em liberdade. Quando recebi a notícia, estava gravando um clipe com Livinho. Entrei em pânico, mas depois tive que acabar aceitando.” Rennan está certo de que foi preso por causa do Baile da Gaiola.

“O motivo foi o Baile”, diz. “Comecei a ficar famoso, muito falado, em ‘polêmicas’ na mídia. Não paro de pensar nisso, penso até hoje. O raciocínio que usaram para me prender foi: ‘ele movimenta, então tira ele da rua’.”

O momento de sua vida, agora, porém, é outro. Fazendo lives nas redes sociais e analisando propostas de shows em drive-in, Rennan já diz estar trabalhando em um próximo projeto. “Vamos para cima, trabalhando da forma que aparecer.”

Correções
17/07/2020 | 11h29

Rennan da Penha assinou um contrato com a Sony Music, e não com a Som Livre, conforme constava no texto. A informação foi corrigida.

Tudo o que sabemos sobre:
DJ Rennan da Penhafunkmúsica

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.