Após longo inverno, o novo disco de Jeneci

Cantor e compositor fala do período de reclusão em que gravou o álbum

Lucas Nobile, Especial para O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2013 | 02h18

Nos últimos meses, Marcelo Jeneci sumiu do mapa. Intencionalmente. Durante o inverno, ele se manteve recluso, no Rio, para gravar seu novo trabalho, De Graça, lançado na última sexta-feira.

O título foi pinçado da música Bambora, gravada no álbum Arrocha, de Curumin, com letra de Anelis Assumpção. O conceito da frase aparece em diversos momentos do disco de Jeneci, em faixas como De Graça e O Melhor da Vida, no sentido de celebrar "a amizade, o valor da troca, a vontade e a graça de viver", segundo o próprio compositor. E a brincadeira com "de graça" também aparece na prática, já que ele colocou o novo álbum gratuitamente na internet.

Com patrocínio do programa de incentivo Natura Musical, o disco será comercializado em duas versões digitais no iTunes. Uma delas será a mais convencional, e a outra terá mais qualidade de áudio, com menos compressão. Os shows de lançamento estão marcados para novembro, dia 15, no Sesc Paladium, em Belo Horizonte, e dia 30, no Circo Voador, no Rio. Em São Paulo, as apresentações estão previstas apenas para 2014.

Voltando ao período de reclusão. Durante os três meses do inverno, o músico não recebeu nenhum convite para tocar em projetos de outros artistas. "Ninguém me achava." Ninguém, menos Erasmo Carlos, de quem Jeneci tem na sala de sua casa, no Alto da Lapa, em São Paulo, um pôster pendurado, com uma dedicatória em que o próprio Tremendão chama o paulistano de irmão. Assim, ele integrou a banda que gravou o disco novo de Erasmo, prestes a ser finalizado.

A escapada serviu de certa maneira como um breve respiro para Jeneci no percurso intenso das gravações de seu próprio álbum. Processo este classificado pelo próprio compositor como "muito difícil", por dois motivos. O primeiro era esperado: em seu segundo disco, dar conta da expectativa criada após a repercussão nacional do premiado álbum de estreia, Feito pra Acabar, lançado em 2010. O segundo dizia respeito a encher seus pais de orgulho.

"Eu tenho dito que esse disco me fez um bem horrível. Foi muito sofrido por mim por todas as questões que envolvem fazer um segundo disco, um segundo livro, um segundo filme", diz Jeneci. "E por apresentar de novo para os pais. Muito do que tem no disco é resultado da minha infância, ligada a um pai que ouvia muita música e via muitos filmes. Por poder dizer: olha, a música que eu aprendi nessa casa tá toda aqui, fiz para vocês", completa.

Outra dificuldade encontrada por Jeneci foi sua exigência com os músicos para que tudo soasse do jeito que ele queria. "Foi muito intenso porque em tudo eu enchi o saco para ser de um jeito pensado por mim, isso foi chato, a galera já não aguentava mais", lembra.

As exigências foram recebidas por um time com o qual ele já estava acostumado a trabalhar. Kassin, que havia produzido Feito pra Acabar, voltou a assinar a produção. Regis Damasceno (guitarras e violões) tocou novamente em um disco de Jeneci. Nas parcerias, ele voltou a compor com Arnaldo Antunes (nas faixas Alento e Tudo Bem, Tanto Faz) e com Luiz Tatit (O Melhor da Vida), além de ter gravado Só Eu Sou Eu, feita com Arthur Nestrovski para a trilha de Vila Sésamo.

Mudanças. Duas mudanças foram significativas para que De Graça soasse bem diferente em comparação ao anterior, Feito Pra Acabar. Uma delas foi a presença de Adriano Cintra (Madri e ex-CSS), que coproduziu o disco com Kassin.

"O resultado do disco tem um pouco mais essa sonoridade indie rock. A presença do Adriano trouxe um pouco disso, pela história, pelas nossas conversas do que se passou lá no Cansei de Ser Sexy, a figura de quem viveu tudo aquilo", comenta Jeneci. De fato, o disco novo tem mais "pulso", mais pegada, mais groove, sem abrir mão de temas melodiosos e românticos, como no anterior.

Desta vez, a maioria das parcerias de Jeneci foi feita com Isabel Lenza (a "amiga/namorada" do compositor, que vinha de uma sepração, marcante no resultado do disco), em seis faixas. Ainda há duas canções feitas apenas por Jeneci, Um de Nós e Sorriso Madeira, cuja letra é a mais insinuante do disco ("Falei que eu tô em extinção/ Você também, meu bem/ Então vamo ali plantar no seu quintal/ Um pé de nós dois"). "É o cara convidando uma mina para uma trepada na balada, é nitidamente isso", diz o compositor sobre a canção que lhe apareceu num sonho com Gilberto Gil.

"Ele me chamava para ver as estrelas e dançar. E me levou para um salão com uma orquestra de baile tocando essa música. Quando acordei, apenas com o verso 'seu sorriso pra mim é madeira', percebi que a música não existia, só no sonho. E decidi fazê-la inspirada no Gil", completa.

Outra mudança se deu nos arranjos orquestrais. Se os do primeiro álbum de Jeneci tinham ficado sob a responsabilidade de Arthur Verocai, desta vez quem cumpriu a função foi Eumir Deodato, em cinco das 13 faixas do disco, entre elas, a introspectiva 9 Luas, parceria com o pernambucano Raphael Costa. "O Eumir sempre foi um nome muito distante para mim, muito inacessível. Eu tinha convidado o Jherek Bischoff (que fez o arranjo de Alento), mas ele não ia ter tempo de fazer tudo. Chamamos então o Eumir. Trocamos uma ideias pelo Skype. Só ouvi os arranjos no dia da gravação, foi uma surpresa excelente", diz Jeneci sobre as orquestrações, que tiveram ainda regência de Lincoln Olivetti.

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