Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Após indicação ao Grammy, Leon Bridges lança segundo álbum

Em 'Good Thing', músico se mostra mais maduro

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

02 Junho 2018 | 06h00

Os ingressos para o show da terça-feira, 29, estavam esgotados há quase um ano por causa de Harry Styles – mas quem chegou mais cedo naquele dia ao Espaço das Américas teve a chance de conferir outro cantor jovem, com um pé no pop e outro no R&B – Leon Bridges.

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O norte-americano de apenas 28 anos pisou no Brasil em um momento conhecido na carreira de muitos músicos e artistas da música pop: ele já faz sucesso nas publicações de música dos Estados Unidos e acumula os seus milhões de streamings no Spotify, mas ainda não alcançou o status incontornável de estrela. 

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A questão é que Bridges está destinado a não abrir o show de ninguém daqui para a frente, porque ele conseguiu criar um nicho muito seu, ao adaptar acordes, melodias e temas clássicos do R&B para o cenário contemporâneo, acrescentando sua voz única, e, em Good Thing, seu segundo álbum, lançado no último dia 4, uma produção cheia de brilho. 

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Se em Coming Home, de 2015 (sua estreia viral, indicado para o Grammy de melhor disco de R&B), Bridges mirava o altar sagrado do gênero ao gravar as músicas com a banda ao vivo, num chão de estúdio, agora, mais maduro, ele apresenta canções ainda de amor (quase sempre), mas com uma roupagem que se não foge do retrô, tem um inconfundível sabor contemporâneo.

Um dos nomes da mudança é o produtor Ricky Reed, com créditos nas 10 músicas do projeto – parceiro de artistas com muita inclinação ao pop, como Meghan Trainor, Twenty One Pilots e Jason Derulo. 

“Foi definitivamente uma mudança”, diz Bridges ao Estado, num hotel em São Paulo, no mesmo dia do show. “Quando comecei a escrever as novas músicas, no final de 2016, queria ser capaz de evoluir meu som, mas também manter a minha integridade. Foi um processo longo de finalmente me encontrar com quem eu queria trabalhar, e quem queria que produzisse. Levei a banda para Los Angeles e colaborei com esse cara chamado Ricky Reed. Ele é do mundo pop, nós somos um lance mais raiz, com vibes de blues e soul, então juntamos isso.”

O artista não se engana: sabe que Good Thing carrega traços de nostalgia, mas o avanço no sentido de se descolar da imagem de Sam Cooke (9 em cada 10 críticas do primeiro disco estabeleciam essa comparação) é notável. Não é por acaso que a primeira frase do novo álbum, cantada num falsete usado muito pouco e com sabedoria, e “é melhor ir mais devagar”.

Ao mesmo tempo, no primeiro beat da segunda música, aqui está o “novo” Leon Bridges: o baixo suingado de funk faz a cama para a autoafirmação de Bad Bad News: “Eles me disseram que eu nasci para perder, mas fiz uma coisa muito, muito boa com as más notícias”, ele canta no refrão.

As três próximas, Shy, Beyond e Forgive You, mostram que a proposta artística nascente do primeiro disco se manteve: canções de amor com um pé no R&B clássico, mas agora explorando mais sintetizadores e melodias. “As canções de amor são um dos elementos do R&B. Sempre foi sobre amor. Houve um vácuo no R&B dessas canções, elas não são mais proeminentes. Todo mundo ama ser amado, e amar outras pessoas, então músicas assim fazem com que todo mundo consiga se identificar”, diz Bridges.

Mais à frente, em If It Feels Good (Then It Must Be) e You Don’t Know, ele faz suas primeiras tentativas realmente significativas de músicas para dançar – antes de se dedicar à carreira de cantor, ele estudou dança por vários anos na sua cidade natal, Fort Worth, Texas. “O álbum ainda é doce, mas há momentos lá que queria que DJs tocassem nos clubes e no rádio, para as pessoas dançarem”, conta.

A seguir no disco, mais um sinal do amadurecimento de Bridges – criado numa família religiosa, fã de hip-hop e do neo soul de Frank Ocean e Childish Gambino –, agora em letra. Depois de avisar o ouvinte de que se trata de um rompimento amoroso, ele canta em Mrs.: “Às vezes eu me pergunto em que estamos nos segurando, e aí você sobe em cima de mim e eu me lembro”.

O fechamento, com George to Texas, é uma bonita homenagem à mãe, um conto da sua história de origem humilde: “Nós não tínhamos grana, mas o amor era forte, e era tudo o que precisávamos para ficar juntos”, canta, no registro mais introspectivo do disco.

As resenhas na imprensa de língua inglesa mostram uma boa recepção às mudanças na direção do som de Leon Bridges. “Good Thing sugere que sim, ele pode trilhar um caminho próprio”, diz o Guardian. “A aparência antiga e felpuda se foi, substituída por um polimento revigorante do produtor pop Ricky Reed. Bridges tem falado recentemente sobre pirotecnias estilo Beyoncé e Grammys, e este é um disco que coincidentemente mira para ser desse tamanho.”

Ao mencionar uma notável influência do Chic em algumas das canções, a Variety aponta que “os acenos ficam bem menos flagrantes, e misturados o suficiente para se sentirem francamente contemporâneos. É difícil imaginar muitos prazeres maiores do que ouvir pessoas que são realmente boas nisso fazendo homenagens para Nile Rodgers”.

“Eu não diria que sou um sábio, mas agora tenho mais experiência, venho fazendo música por três anos. Isso reflete no álbum mostrando um eu mais confiante e ousado”, afirma Bridges ao Estado. “Minha percepção não mudou muito, foi tudo bem na minha jornada.”

A jornada de Bridges na música começou na faculdade comunitária que frequentava no Texas, com um amigo tecladista. Ele percebeu que poderia cantar e começou a perseguir a ideia, se apresentar em noites de microfone aberto pelas cidades da região e em um daqueles acasos encontrou um homem chamado Austin Jenkins, da banda indie White Denim. Eles fizeram algumas canções, gravaram a instrumentação simples em estúdios baratos, e depois saíram vendendo Coming Home com uma filosofia “pegar ou largar”. Lavando pratos num restaurante em 2014, Bridges recebeu a notícia de que a Columbia Records (casa de gente como Beyoncé e Bruce Springsteen) tinha comprado o projeto.

Dois discos depois, uma indicação para o Grammy, uma apresentação para Obama na Casa Branca, palcos divididos com Stevie Wonder e Paul McCartney, e uma turnê em 2018 com datas esgotadas em vários pontos dos EUA e da Europa provam que o jovem cantor, afinal, está coberto de razão.

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